A Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), em Guararema (SP), foi o ponto de partida da mobilização brasileira rumo à 4ª Assembleia Continental da Alba Movimentos, que ocorrerá em Havana, Cuba, entre os dias 6 e 9 de maio de 2026. Reunindo mais de 20 organizações populares, o Capítulo Brasil da organização debateu estratégias de luta e solidariedade internacional e lançou a proposta de organizar uma flotilha latino-americana rumo à ilha, gesto simbólico de apoio ao povo cubano diante do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos. A ideia, inspirada nas flotilhas que levaram ajuda humanitária a Gaza, combina solidariedade concreta e denúncia política. “Por que não fazermos uma flotilha latino-americana de solidariedade e chegarmos dessa maneira em Cuba?”, argumentou Giovanni Del Preti, da coordenação nacional do Movimento Brasil Popular e da Secretaria Continental da Alba Movimentos. “Seria um fato histórico. O povo faz história todos os dias em seus territórios, e temos de ser consequentes com isso internacionalmente também”, completou. A plenária nacional do Capítulo Brasil da Alba Movimentos reuniu organizações como Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Movimento de Trabalhadores por Direitos (MTD), Federação Única dos Petroleiros (FUP), Marcha Mundial das Mulheres, Central dos Trabalhadores do Brasil (CTB), Central de Movimentos Populares (CMP), Kizomba, Afronte, União de Negros pela Igualdade (Unegro), Associação Brasileira de Juristas Pela Democracia (ABJD), União Brasileira de Mulheres (UBM), Centro Brasileiro de Solidariedade Aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) e Via Campesina. O encontro consolidou quatro eixos de atuação: solidariedade internacional, comunicação, formação política internacionalista e articulação organizativa. Os movimentos definiram Cuba, Venezuela, Haiti e Palestina como prioridades de solidariedade e reafirmaram o compromisso de fortalecer a integração latino-americana. O calendário aprovado incluiu ciclos de debates, mostras culturais e ações conjuntas de denúncia do bloqueio econômico e das ofensivas imperialistas contra os povos da região. Uma trajetória de integração popular e anti-imperialista Fundada oficialmente em 2013, na Escola Nacional Florestan Fernandes, a Alba Movimentos nasceu inspirada pelo chamado de Hugo Chávez e Fidel Castro para construir um projeto de integração latino-americana autônomo e solidário. “A gente vem de um momento histórico em que os governos progressistas propuseram alternativas à Alca [Área de Livre Comércio das Américas], e nós, como movimentos, assumimos a tarefa de construir a integração desde baixo”, explicou Giovanni Del Preti. A primeira Assembleia Continental, em 2013, consolidou a autonomia dos movimentos em relação à articulação entre governos. A segunda, em 2016, foi realizada na Colômbia, em meio às negociações de paz no país. Já a terceira, em 2022, ocorreu na Argentina, após a pandemia, marcada pela retomada das articulações presenciais e pela reafirmação do internacionalismo popular. A quarta edição, que será sediada em Cuba, tem o lema “Pelo socialismo: 100 anos caminhando com Fidel Castro”. O encontro reunirá cerca de 400 delegados de mais de 20 países e busca atualizar as estratégias de resistência frente à ofensiva imperialista dos Estados Unidos sobre a região. Segundo Ana Priscila Alves, da Marcha Mundial das Mulheres e da secretaria do Capítulo Brasil, o país tem um papel central na construção da assembleia, tanto pela força dos seus movimentos quanto pela formulação política acumulada. “O Brasil está desde a fundação da Alba. Temos uma trajetória de integração e de resistência que nos coloca a responsabilidade de contribuir em vários eixos, como o antirracismo, a luta feminista, o direito à cidade e o debate ambiental”, afirmou. Ela destacou também o desafio do autofinanciamento solidário para garantir a participação das delegações populares sem que o critério econômico determine quem poderá ir a Cuba. “O autofinanciamento é uma tarefa política, de solidariedade e compromisso. Não se trata só de chegar à assembleia, mas de contribuir com o povo cubano que enfrenta o bloqueio e, ao mesmo tempo, garantir que o Capítulo Brasil esteja representado em sua diversidade.” Elementos místicos dos movimentos presentes na plenária da Alba Movimentos – Foto: Rodrigo Chagas Soluções dos povos contra a crise e o imperialismo A 4ª Assembleia Continental será um momento de reencontro dos povos latino-americanos após anos de fragmentação e ofensivas conservadoras. Para Ana Priscila Alves, o evento vai além de uma reunião política: “Não é um evento, é um processo de luta. É a chance de visualizar as alternativas que já existem nas lutas populares e de construir uma ação comum frente à ofensiva imperialista”. Os militantes ressaltam que o encontro ocorre em meio a uma nova fase de agressividade dos Estados Unidos na região, marcada por intervenções militares, bloqueios econômicos e tentativas de desestabilização de governos populares. “Vivemos uma ofensiva imperialista gigantesca”, avaliou Giovanni Del Preti. “Os Estados Unidos demonstram que, nesta fase de declínio da sua hegemonia, estão dispostos a tudo – inclusive à guerra – para retomar o controle sobre os nossos territórios e riquezas.” Ana Priscila Alves observa que essa ofensiva tem efeitos concretos sobre a vida dos povos latino-americanos, com precarização do trabalho, perda de direitos e criminalização das lutas sociais. “É um momento de crise internacional, de decadência do imperialismo, mas que vem acompanhado de uma ofensiva sobre nossos territórios e nossas vidas. Precisamos rearticular nossos movimentos para responder a isso coletivamente”, destacou. Ela lembrou que, em meio à crise global, as soluções não virão de cima, mas dos próprios povos e de suas organizações. “Como diz Nalu Faria, as alternativas estão nos povos. A gente não pode dizer que não tem solução – ela já está sendo construída nos territórios, nas experiências concretas de resistência”, destacou. Giovanni Del Preti também reforçou essa ideia, lembrando que as bases populares latino-americanas reinventam cotidianamente formas de superar as crises. “Tem muita tecnologia social, saberes e conhecimentos populares resolvendo a crise todos os dias. Nosso desafio é transformar isso em contribuição continental.” Entre os desafios apontados estão a reconstrução da solidariedade com Venezuela, Haiti e Palestina, a defesa da soberania latino-americana e a formulação de estratégias conjuntas de resistência. Como sintetizou Giovanni Del Preti, “o internacionalismo é um valor e uma estratégia de luta. Se Cuba vai bem, o Brasil vai bem também”.
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