A Arábia Saudita lançou ataques aéreos contra uma facção separatista no Iêmen apoiada pelos Emirados Árabes Unidos, em meio a uma crescente rivalidade entre as duas potências do Golfo Pérsico. O STC (Conselho de Transição do Sul), apoiado por Abu Dhabi, disse nesta sexta-feira (26) que o bombardeio saudita era uma “séria preocupação” e teve como alvo algumas de suas forças de elite na província central de Hadramaut, no Iêmen, que faz fronteira com a Arábia Saudita. Riad não comentou os ataques. A intervenção militar ocorre três semanas após o STC lançar uma ofensiva para assumir o controle de Hadramaut, depois de confrontos com facções alinhadas ao governo iemenita, apoiado pelos sauditas, bem como da província de Al-Mahra, no sudeste, que faz fronteira com Omã. Analistas afirmam que é improvável que o STC tenha lançado a ofensiva sem o consentimento dos Emirados. Hadramaut é a maior e mais rica região do Iêmen e tem laços estreitos com a Arábia Saudita. O avanço do STC foi considerado uma ameaça direta aos interesses de segurança nacional do reino, assim como ao papel de Riad no Iêmen, onde apoia o governo internacionalmente reconhecido. A crise expôs as relações tensas entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, aliados tradicionais que têm se tornado cada vez mais divergentes em relação aos conflitos no Iêmen e no Sudão. O STC lançou sua ofensiva três semanas após o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman expressar preocupações sobre a guerra civil no Sudão ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante visita à Casa Branca. Alguns analistas suspeitam que os dois eventos estejam ligados, dizendo que os Emirados ficaram irritados porque o príncipe Mohammed levantou a questão do papel das RSF (Forças de Apoio Rápido) paramilitares no conflito sudanês e pretendiam, com isso, enviar uma mensagem aos vizinhos. O papel dos Emirados no Sudão tem sido cada vez mais examinado, pois o país é acusado de fornecer armas às RSF, que enfrentam acusações de genocídio. Abu Dhabi nega que arme o grupo. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo A Arábia Saudita é considerada apoiadora das Forças Armadas Sudanesas, principal rival das RSF. “Os desenvolvimentos no leste do Iêmen apontam para uma rivalidade silenciosa, mas consequente, entre Riad e Abu Dhabi, cujos efeitos colaterais arriscam intensificar a violência por procuração no Iêmen, no Sudão e além”, diz Mohammed Albasha, fundador do Basha Report, uma consultoria de risco com sede nos EUA. A Arábia Saudita considera o Sudão vital para sua segurança nacional, já que o país africano compartilha com Riad o fato de possuir uma longa costa no mar Vermelho, via marítima fundamental para o comércio global. Os Emirados Árabes Unidos, um dos países mais assertivos da região, também veem o Sudão como estratégico para seus interesses e temem que as Forças Armadas Sudanesas tenham sido infiltradas por fundamentalistas islâmicos. No Iêmen, a Arábia Saudita liderou uma coalizão árabe que interveio na guerra civil do país em 2015 para combater os houthis apoiados pelo Irã, depois que os rebeldes tomaram Sanaa, a capital, e expulsaram o governo. Os Emirados foram seu principal parceiro na coalizão, mas os países apoiaram diferentes facções contrárias aos houthis que, por vezes, entraram em confronto entre si. Abu Dhabi começou a retirar suas forças do Iêmen em 2019, quando mudou sua política em relação ao conflito. Naquele ano, foi acusado pelo governo iemenita de bombardear suas forças. Hoje, continua a apoiar o STC, o grupo mais poderoso do sul do país conflagrado. O STC é formalmente parte do governo iemenita, mas defende que o sul se torne um Estado separado, como era antes da unificação do Iêmen, em 1990. A Arábia Saudita condenou na quinta-feira (25) os avanços militares do grupo, afirmando que foram realizados de forma unilateral, sem a aprovação do governo do Iêmen ou coordenação com a coalizão liderada pelos sauditas. “Como tal, esses movimentos resultaram em uma escalada injustificada que prejudicou os interesses do povo iemenita”, disse o Ministério das Relações Exteriores saudita. A pasta acrescentou que trabalha com os “irmãos” Emirados e o governo iemenita para “conter a situação”. Disse ainda haver esperança de que o “interesse público prevaleça por meio do fim da escalada” do STC e da “retirada de suas forças” das duas províncias. Neste sábado (27), o ministro da Defesa saudita, príncipe Khalid bin Salman, publicou uma carta aberta na rede social X dirigida ao “nosso povo no Iêmen”. Ele disse que o reino sempre considerou a causa do sul uma “causa política justa que não pode ser ignorada” e instou o STC a agir com racionalidade. “É hora de o STC, neste período sensível, priorizar a voz da razão, da sabedoria, do interesse público e da unidade, respondendo aos esforços de mediação saudita-emirática para acabar com a escalada, retirar suas forças dos acampamentos nas duas províncias e entregá-los pacificamente às forças do Escudo Nacional e à autoridade local”, disse. Os Emirados Árabes Unidos afirmaram que a posição de Abu Dhabi está alinhada à da Arábia Saudita no apoio ao processo político para encerrar a guerra. O STC disse que lançou sua ofensiva depois que facções locais interromperam a produção de petróleo em Hadramaut, principal fonte de receita petrolífera para as autoridades do sul. A ofensiva também visava combater extremistas islâmicos e impedir o contrabando de armas para os houthis, que controlam a maioria do populoso norte, disse o STC. O grupo afirmou que a ofensiva lhe deu controle sobre províncias do sul do Iêmen, desencadeando uma crise no governo apoiado por Riad e minando a influência da Arábia Saudita no país. A facção não mostrou disposição para se retirar; Amr al-Bidh, alto funcionário do STC, diz que a medida “não é uma opção”. A Arábia Saudita busca se retirar da guerra há vários anos, após concordar com uma trégua com os houthis em 2022.
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