O aumento da tarifa de ônibus na Bahia, em vigor desde o início de janeiro, segue provocando críticas e mobilizações em Salvador e no interior do estado. Na capital, a passagem subiu de R$ 5,60 para R$ 5,90, um reajuste de 5,36%, percentual acima da inflação acumulada no período, que foi de 3,9%, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Já em Feira de Santana, a segunda maior cidade do estado, o valor chega a R$ 5,90 no pagamento em dinheiro e pode alcançar R$ 6,60 em distritos, aprofundando desigualdades no acesso à cidade. Na capital, o presidente estadual do PT, Tássio Brito, classificou o reajuste como “autoritário” e criticou a forma como a decisão foi tomada pela gestão municipal. Para ele, o aumento foi imposto sem diálogo com a Câmara de Vereadores e impacta diretamente a população mais pobre. “Trinta centavos a mais fazem enorme diferença no orçamento de quem depende do ônibus todos os dias. Com esse reajuste, Salvador passa a ter a tarifa mais alta do Nordeste e uma das mais elevadas do país, superando inclusive capitais como São Paulo e Rio de Janeiro”, afirmou. A crítica é reforçada por estudantes, que alertam para os impactos diretos do reajuste na permanência estudantil. Para Pedro Mascarenhas, secretário-geral da União dos Estudantes da Bahia (UEB), o aumento representa mais do que um ajuste financeiro: significa exclusão. “Para o estudante da UFBA, das estaduais ou privadas, que muitas vezes também é trabalhador, esse custo inviabiliza a permanência na sala de aula. Na UEB, os relatos que chegam são temerosos em relação a esse próximo semestre.” Segundo ele, relatos de estudantes que já fazem cálculos rigorosos para garantir alimentação e transporte se intensificaram nas últimas semanas. “O risco de evasão escolar é real e imediato, pois muitos não têm como absorver esse impacto no orçamento familiar já estrangulado. Nós estamos falando de estudantes que vêm da periferia, dos interiores e, no final do mês, esse aumento impacta se ele vive com dignidade ou não.” Pedro Mascarenhas é Secretário Geral da União dos Estudantes da Bahia (UEB) / Imagem: Acervo Pessoal Mascarenhas também critica o momento e a estratégia adotados pela prefeitura para anunciar o reajuste. “O anúncio foi feito no apagar das luzes de 2025, aproveitando-se de um momento festivo para impor uma tarifa abusiva sem o devido debate público. A prefeitura alega que é um reajuste contratual para renovação de frota, mas cadê a transparência das planilhas de custos?”, questiona. O secretário informa ainda que além dos atos que foram realizados na Estação da Lapa, a UEB também irá protocolar na prefeitura um pedido de audiência pública e exigir que o Conselho Municipal de Transporte “funcione de verdade, e não apenas para carimbar decisões do executivo.” A prefeitura de Salvador, por sua vez, argumenta que o reajuste é menor do que o adotado por outras capitais brasileiras e destaca investimentos na renovação da frota, com aquisição de ônibus mais modernos, climatizados e menos poluentes, além da ampliação da integração entre modais. Ainda assim, movimentos sociais e estudantis seguem questionando o custo da tarifa diante da qualidade do serviço e da ausência de subsídios públicos mais robustos. Mascarenhas pontua, por exemplo, que quem mora em bairros periféricos já sofre com a precarização do serviço, com frotas reduzidas e longas esperas. “O argumento da prefeitura de que o aumento trará ‘ar-condicionado para o subúrbio’ soa como escárnio quando mal conseguimos pagar a tarifa para entrar no ônibus.” Interior enfrenta situação mais grave No interior do estado, a situação é ainda mais grave. Em Feira de Santana, além do aumento de R$ 5,50 para R$ 5,90 em dinheiro, moradores de distritos como Bonfim de Feira, Tiquaruçu e Jaguara passaram a pagar R$ 6,60 pela passagem. O passe estudantil custará R$ 3,30. Além disso, em Feira de Santana não existe representação estudantil no Conselho Municipal de Transportes, de modo que os estudantes não têm voz nem poder de decisão sobre a política tarifária, mesmo sendo um dos grupos mais afetados. O sistema de transporte coletivo do município registra aproximadamente 176 mil utilizações mensais de estudantes e 336 mil gratuidades por mês. Camila de Freitas, diretora de Mulheres da UEB, e estudante da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), destaca a precariedade da frota no município. “Nos últimos meses tivemos diversos casos de ônibus parando de funcionar no meio do caminho, tem a situação precária do sistema BRT, cujas linhas não ligam até os pontos de interesse da população. Isso mexe não só com a mobilidade, mas com o acesso à cidade”, critica. Camila de Freitas é Diretora de Mulheres da UEB / Imagem: Acervo Pessoal Diante desse cenário, estudantes e movimentos sociais intensificaram a mobilização. O Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UEFS e a frente Movimento em Defesa da Democracia e Contra o Fascismo vêm organizando uma série de ações contra o aumento da tarifa. Nos dias 19 e 21 de janeiro, foram realizadas panfletagens no Terminal Central. Na quinta-feira (22), ocorreu uma aula pública sobre mobilidade urbana na Praça da Bandeira, ministrada pelo professor Rosevaldo Ferreira. A programação segue nesta sexta-feira (23), com nova panfletagem no terminal, das 12h às 17h, e uma oficina de cartazes às 14h, na Biblioteca Municipal Arnold Silva. Um ato contra o aumento da tarifa está marcado para a próxima segunda-feira (26), às 6h, no Terminal Central. Para as entidades estudantis, a luta vai além da reversão do reajuste. A defesa do passe livre e de políticas públicas que garantam o direito à mobilidade e à permanência estudantil segue no centro da pauta. “A bandeira do Passe Livre, historicamente defendida pelo movimento estudantil, segue central. Não se trata apenas de transporte, mas de garantir permanência, direito à cidade e justiça social. Sem transporte acessível, não há acesso pleno à educação, ao trabalho e à vida urbana”, finaliza Pedro Mascarenhas.
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