Mesmo com temperaturas acima dos 32°C, manifestantes se reuniram em frente ao Monumento ao Expedicionário, na Redenção, em Porto Alegre, neste domingo (25), para celebrar os 25 anos do Fórum Social Mundial (FSM) e denunciar os ataques à soberania da Venezuela. O ato reuniu representantes de movimentos populares, sindicatos e entidades da sociedade civil. Também foi anunciada nova mobilização para a próxima quarta-feira (28), na Esquina Democrática, a partir das 17h, que integra a mobilização internacional contra o avanço das aspirações imperialistas do governo de Donald Trump. Os participantes defenderam a retomada do FSM na Capital e a reconstrução de uma articulação internacional entre movimentos sociais e governos para enfrentar o que chamam de avanço do imperialismo e do fascismo, além de expressarem solidariedade a povos atingidos por sanções e intervenções estrangeiras, como Venezuela, Cuba e os ataques a Gaza. Também foram feitas denúncias sobre pressões imobiliárias e tentativas de remoção de comunidades populares na capital gaúcha, críticas a mudanças no Orçamento Participativo e à mercantilização de espaços públicos. Ambientalistas cobraram a recuperação do Parque da Redenção, apontando falta de manutenção, corte de árvores sem reposição e pediram mais investimentos em áreas verdes e espaços de convivência. Além disso, foi manifestada oposição a um empreendimento às margens do Guaíba que, segundo os organizadores, prevê desmatamento de quase 14 hectares de mata nativa. Coordenador da Rede Preserva POA, advogado social e conselheiro municipal, Felisberto Seabra Luisi lembrou que o FSM nasceu em 25 de janeiro de 2001, na capital gaúcha, como contraponto ao Fórum Econômico Mundial, em Davos. “Há 25 anos atrás, Porto Alegre era referência para o mundo, com o primeiro Fórum Social Mundial, para fazer o contraponto a Davos. Porto Alegre vivia ainda a experiência do Orçamento Participativo. É importante comemorar, trazer a nossa história de volta, para que a população saiba o que já foi Porto Alegre: referência para o mundo de paz, de fraternidade, de igualdade, de solidariedade. Um outro mundo era possível”, afirmou. Segundo Luisi, o ato também buscou expressar solidariedade ao povo venezuelano. “Hoje vivemos essa violência do Estado americano imperialista contra os povos que lutam pela sua soberania e pela sua independência e pelo Estado democrático de direito”, disse. Ato contou com apresentações de hip hop e músicas de protesto – Crédito: Jorge Leão Críticas ao imperialismo e anúncio de novo ato Representando o Memorial Luiz Carlos Prestes, a professora Gorete Grossi fez críticas a lideranças internacionais e conclamou à mobilização dos povos. “Se unam todos contra o imperialismo do Trump, do genocida Netanyahu, que ameaçam a existência da humanidade. (…) Eles hoje, para manter o imperialismo, o capitalismo decadente, precisam das riquezas naturais dos povos. Eles querem o nosso petróleo, nossas terras raras.” O diretor do Sindicato dos Servidores da Justiça do Estado do RS (Sindjus) e representante do Comitê de Apoio e Solidariedade à Venezuela, Fabiano Zalazar, destacou o caráter simbólico do local do ato e a intenção de dialogar com quem passava pelo parque. “Aqui no Monumento do Expedicionário é fundamental entender o que está acontecendo hoje no Brasil, no mundo, no Caribe, na América Latina e na Venezuela”, declarou. Ele também anunciou uma nova mobilização. “Vamos ter uma atividade dia 28, na Esquina Democrática, às 17h. Então nós vamos nos somar lá também para dialogar com a sociedade e dizer que a Venezuela não é uma ditadura, mas sim os Estados Unidos são!” Democracia, unidade internacional e legado do FSM Diretora-geral do 39º Núcleo do Sindicato das Professoras(es) e Funcionárias(os) de Escola do RS (Cpers), Neiva Lazzarotto, criticou propostas de reconstrução em áreas de conflito como Gaza, e reforçou a convocação para novas mobilizações. “Fora Trump da América Latina, libertação de Nicolás Maduro e Cília Flores, um outro mundo possível, mas requer mobilização. Porque se a gente não lutar contra os fascistas, eles se desenvolvem”, afirmou. O presidente da Associação Cultural José Martí do Rio Grande do Sul, Ricardo Haesbaert, destacou o impacto das sanções econômicas contra a Venezuela e Cuba. “Não é de hoje que a Venezuela vem sofrendo esse ataque. Agora foi um ataque frontal, direto, dentro do seu território, de forma extremamente ilegal. Assim como Cuba, que há 65 anos sofre o bloqueio dos Estados Unidos”, disse. A militante política do PCdoB Jussara Cony também enfatizou a necessidade de unidade internacional. “Estamos forjando a resistência pela Venezuela, pelo Brasil, pela América Latina, para que possamos construir uma nova sociedade libertária, uma nova sociedade igualitária”, declarou. Coordenadora do Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM), Ceriniani Vargas (Ni) afirmou que os impactos de conflitos internacionais recaem sobretudo sobre mulheres e populações pobres. “A gente sabe que quem mais se ferra nesses processos são as mulheres, é o povo pobre, é o povo trabalhador”, disse, relacionando disputas globais a interesses econômicos e à emergência climática. “O que a gente está vivendo hoje não é uma crise climática, é uma emergência climática. E se a gente não tratar dessa forma, não haverá futuro.” Ni lembrou a tradição participativa de Porto Alegre e defendeu que os processos organizativos extrapolem atos pontuais. “O Fórum Social Mundial inicia aqui na nossa cidade justamente por essa grande experiência que Porto Alegre tem relacionada à participação popular”, defendeu. “A gente precisa dialogar com os territórios, com as comunidades, com os movimentos populares.” Periferias, cultura e disputa de narrativas O rapper Gangster ressaltou o papel histórico do FSM na circulação de informações nas periferias e defendeu o retorno do evento à capital gaúcha. “Foi um instrumento de muita informação para as periferias. Foi um instrumento que tem que voltar mais uma vez para Porto Alegre.” Segundo ele, o hip hop participou de todas as edições do fórum. “O hip hop nesses 25 anos esteve junto e a gente está aqui mais uma vez para fortalecer.” Gangster também reivindicou protagonismo político das comunidades periféricas. “O hip hop não é entretenimento, não é só música, não é só arte, só dança. Nós somos política cultural, nós somos política periférica”, disse. Para ele, é preciso ampliar o acesso das favelas e periferias aos debates globais. “A minha mensagem aqui é que o fórum volte para dentro de Porto Alegre e que as periferias voltem a ter voz.” O livreiro Bolívar Gomes de Almeida fez críticas à cobertura da imprensa e à política externa dos Estados Unidos, mencionando conflitos no Oriente Médio e ações militares recentes. Ele informou ainda que uma nova edição do FSM está prevista para agosto, em Benin, na África Ocidental, e destacou a importância geopolítica da região. Ele também lembrou sua trajetória pessoal em mobilizações desde a década de 1970. “Tenho 76 anos e enquanto eu respirar eu vou estar na luta”, disse, defendendo organização popular e a busca por fontes alternativas de informação. “Quem quiser se informar tem que buscar outros mecanismos.” A utopia de um outro mundo Integrante do Coletivo Brasileiro do Fórum Social Mundial e do Conselho Internacional do FSM, Mauri Cruz destacou o caráter simbólico do local para a história das lutas populares na capital gaúcha e lembrou os 25 anos do primeiro Fórum Social Mundial, ocorrido em 25 de janeiro de 2001. Segundo ele, o espaço representa a trajetória da democracia participativa e das mobilizações sociais na cidade. Ao rememorar o contexto da época, afirmou que Porto Alegre, o Rio Grande do Sul, o Brasil e o mundo viviam outra realidade naquele início dos anos 2000. Ainda assim, ressaltou que as motivações que levaram milhares de pessoas a se engajarem no FSM seguem atuais. Para Cruz, a defesa de “um outro mundo possível” continua urgente diante dos desafios contemporâneos. “Ou a gente se reúne, se unifica em prol de um projeto comum, ou a humanidade não tem saída. (…) É essa a utopia do outro mundo possível. Outro mundo possível, urgente e necessário. E é muito bom Porto Alegre fazer parte dessa história”, concluiu.
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