Alvo de críticas e cobranças por suposta parcialidade no caso do Banco Master, o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), decidiu manter as investigações sob a responsabilidade de seu gabinete. A possibilidade de envio à primeira instância, ao menos por ora, está descartada. Para a cientista política Mayra Goulart, a decisão foi acertada. Professora de ciência política na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Goulart participou da primeira edição do Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, nesta sexta-feira (30). Na véspera, uma nota do gabinete de Toffoli destacou que ele foi sorteado para atuar relator das investigações, e que o sigilo sobre os trabalhos já tinha sido determinado ainda na primeira instância. O ministro foi acusado de tentar proteger pessoas próximas. “É uma decisão que bota a bola no chão. Evita que se instaure um clima de gritaria”, disse a cientista política sobre a manutenção do caso no Supremo. “Se ele [Toffoli] remetesse para a primeira instância, seria quase uma declaração de culpa, e isso vulnerabilizaria o STF em um contexto no qual o Supremo tem sido cada vez mais acionado para cumprir seu papel constitucional”. Para a especialista, o caso, que contabiliza acusações de envolvimento por parte de diversas figuras do cenário político nacional, tem potencial para aumentar o sentimento “antipolítico”. A força atual da extrema direita torna o cenário ainda mais desafiador do que em tempos passados, como nos movimentos que levaram ao golpe contra a Dilma Rousseff, em 2016, e à eleição de Jair Bolsonaro, dois anos mais tarde. “Meu medo, muito em base do que a gente escutou sobre a [operação] Lava Jato, é que se instaure esse clima de ‘a política não presta, ninguém presta’. Uma vez que a gente tem muitas autoridades envolvidas, do Judiciário, do Executivo, do Legislativo, pode se criar esse sentimento antipolítica generalizado. E esse é um sentimento muito ruim em ano eleitoral, porque pode fortalecer lideranças anti-estado, que mesmo não sendo, se apresentem como ‘antissistema’ ou ‘outsiders’”, ponderou Mayra Goulart. A especialista defende que os ministros do STF e seus familiares tenham “mais rigor” em suas relações, visando não deixar qualquer dúvida sobre a licitude de seus atos. Isso, porém, não invalida o argumento de que a Suprema Corte está sendo alvo de acusações oportunistas. “Cuidado com esse denuncismo. A cada matéria de jornal que condena o Estado e os operadores políticos, a gente permite que o autoritarismo prolifere. A ausência de democracia só pode ser resolvida a partir de um ‘salvador’ autoritário”, alertou. Para ouvir e assistir O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.
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