Conhecido pelo trabalho de interventor federal durante os atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023, Ricardo Cappelli pretende alçar novos voos em 2026. O foco, neste momento, é a disputa da cadeira no Palácio do Buriti, sede do Governo do Distrito Federal (GDF). Filiado ao PSB, jornalista de formação e atual presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Cappelli têm se colocado como um dos principais adversários à atual gestão do DF, sob a responsabilidade de Ibaneis Rocha (MDB) e Celina Leão (PP). “Vejo um governo muito preocupado com fazer obra de construção civil e sem um projeto para a cidade. Tem uma ausência de projeto, ausência de gestão, ausência de horizonte. Eu chamo de governo dos ricos”, diz o pré-candidato. Neste mês, Cappelli foi um dos signatários que protagonizaram a entrega do pedido de impeachment de Ibaneis na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF). Ao lado dos ex-governadores do DF, Rodrigo Rollemberg (PSB) e Cristovam Buarque (Cidadania), e do presidente do PSB, Rodrigo Dias, o requerimento foi entregue em razão da suposta atuação política do chefe do Executivo distrital no caso da compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB). “Tenho muita confiança de que os fatos vão evoluir rapidamente demonstrando a gravidade do que está em curso e que os fatos vão empurrar os deputados na direção da abertura da CPI”, afirmou. Em entrevista concedida ao Brasil de Fato DF, Cappelli fez uma análise da atual gestão do governo, detalhou as motivações da pré-candidatura e destacou os esforços do campo progressista na investigação da fraude bancária Master-BRB. Leia a entrevista na íntegra: Brasil de Fato DF – Cappelli, qual é a sua intenção em se lançar como candidato ao Governo do Distrito Federal em 2026? O que motiva essa candidatura neste momento da sua trajetória? Fui estimulado a participar mais da vida política aqui no Distrito Federal, principalmente depois da minha atuação aqui como interventor federal do 8 de Janeiro. Estou em Brasília há 23 anos, tenho dois filhos, minha filha mais velha de 15 anos já é nascida e criada aqui em Brasília. Então, sempre estive por aqui, há mais de 20 anos, mas sempre trabalhando no Governo Federal, em tarefas nacionais, mas nunca participando da vida política do Distrito Federal. E a partir do dia 8, muita gente começou a me estimular para que eu participasse mais, principalmente porque ficou a parte da intervenção uma referência de autoridade, de comando, de capacidade de gestão, de ordem. E, em função disso, o pessoal do meu partido, o PSB, começou a me estimular para que eu participasse mais, até porque essa relação política, com as forças de segurança e com o tema segurança pública, não é muito comum em quadros progressistas. E eu comecei essa caminhada no ano passado (2025). Comecei a estudar um pouco mais e comecei a receber muita gente, muito estímulo e aí decidi participar e acho que posso contribuir bastante para melhorar a gestão, melhorar aqui a vida no Distrito Federal. Sempre digo: Brasília nasceu de um sonho do Juscelino. A ideia da capital aqui no Planalto Central está na Constituição de 1891. Entre 1892 e 1894 o presidente Floriano mandou para cá uma expedição para demarcar o quadrilátero Cruz, a expedição do Luiz Cruz, demarcou o quadrilátero, mas não foi para frente. Em 1922 o presidente Epitácio Pessoa mandou outra expedição para cá, botou a pedra fundamental que está lá em Planaltina. Mas só em 1960 que o sonho foi se concretizar com Juscelino. Brasília nasce vanguarda do Brasil. Nasce no momento que o Brasil crescia, iniciava um processo acelerado de industrialização. E ela nasce como um sonho de integração do Brasil, dos brasileiros, absolutamente vanguarda. Isso aqui que você está vendo, essas superquadras, você não vê em lugar nenhum do Brasil. Ela nasce com uma concepção urbanística única, moderna. Nasce com as linhas de Niemeyer, com projeto urbanístico de Lúcio Costa, mas com as linhas de Niemeyer que expressa são o modernismo brasileiro e que depois vão se espalhar pelo mundo como referência na arquitetura. Brasília nasce com um sobrenome de ousadia. Porque você imagina o que é, há 65 anos atrás, construir uma cidade no meio do nada para ser a capital. Olho para o Lago Paranoá, e é difícil acreditar que aquele lago foi construído. Tem histórias de ousadia, de inovação urbanística. Acho que isso me estimula muito a participar e acho que isso se perdeu com o tempo. O Distrito Federal, Brasília, se acomodou em ser a capital política, a capital burocrática do Brasil, a sede dos poderes. O que movimenta a economia hoje aqui é a construção civil, os serviços e o governo. É muito pouco para o Distrito Federal. Aqui pode virar uma capital, um centro da inovação do Brasil. Temos a maior quantidade de mestres e doutores per capita do Brasil do funcionalismo público federal. Brasília pode ser referência no que diz respeito à neo indústria, que é a indústria do século XXI, que trabalha com tecnologia, com inovação. Acredito muito nesse projeto, acho que tem tudo a ver com o Distrito Federal e isso me estimula muito a participar. Sem contar os inúmeros problemas que são absolutamente inacreditáveis e inaceitáveis para a capital do Brasil. A saúde aqui hoje vive num completo colapso. O maior orçamento do Brasil aqui tem, per capita, é o dobro do segundo, com muito dinheiro e a saúde vive num colapso. Na capital do Brasil as pessoas estão morrendo na fila da saúde. Em razão das denúncias que tem feito sobre a atual gestão, você tem sofrido de parlamentares da base governista em função dessas denúncias e também tem recebido processos na Justiça, como responde a isso? É natural do jogo político. Vejo com naturalidade. Tenho feito uma série de denúncias. Não tinha um combate permanente de oposição ao Governo do Distrito Federal. Eu fui a primeira pessoa a se levantar e fazer um combate sistemático. Então, é natural que eles também reajam. E respondo processos na Justiça, não vou saber dizer quantos, mas são todos relacionados a calúnia, injúria, difamação. Os processos que respondo são todos da Celina e do Ibaneis. Sempre eles, nenhum outro parlamentar. Em janeiro deste ano, ato mobilizou juventude em Brasília para denunciar relação do governador Ibaneis Rocha no caso Master | Crédito: Brunna Ramos/Brasil de Fato DF ‘Escândalo ainda está longe do fim’ O ano de 2025 foi marcado por contradições: de um lado, o GDF anunciou grandes obras, tivemos aprovações de projetos importantes; de outro, fomos sacudidos por escândalos financeiros envolvendo o Banco BRB e o Master. Como avalia os impactos reais dessas transações do BRB para a população do DF? Fui o primeiro a denunciar, inclusive solitariamente, o escândalo Master e BRB. Quando as pessoas nem sabiam ainda o que era Master, comecei a denunciar isso em março do ano passado. E acho que esse escândalo ainda está longe do fim. Acho que muita coisa ainda vai acontecer. As consequências para o Distrito Federal são dramáticas. Por quê? Porque o rombo já foi confessado pelo ex-presidente do BRB [Paulo Henrique Costa], e se ele confessou em depoimento à Polícia Federal, ele já assumiu um rombo de 2.6 bilhões [de reais]. A Polícia Federal fala que as investigações até agora indicam que o rombo é de pelo menos 4,5 bi [de reais]. E fontes no BRB me dizem que o rombo pode chegar 9 bi [de reais]. Isso é uma tragédia. É uma tragédia para o Banco de Brasília, que é patrimônio do povo de Brasília. E isso é uma tragédia para a população do Distrito Federal, que no final das contas é quem vai ter que pagar a conta das fraudes que Ibaneis comandou no BRB, segundo o próprio Daniel Vorcaro. A oposição tem somado esforços para emplacar o pedido de impeachment do Ibaneis na CLDF. Você acredita que existe a possibilidade de tramitar na Casa, e de fato culminar na destituição do atual governador? Quando foi apresentado o pedido de impeachment de Fernando Collor de Mello no Congresso, ele também tinha a maioria. Só que ninguém consegue segurar a evolução dos fatos. Então, tenho muita confiança de que os fatos vão evoluir rapidamente demonstrando a gravidade do que está em curso e que os fatos vão empurrar os deputados na direção da abertura da CPI. Isso de alguma forma pode prejudicar também a Celina, porque o Ibaneis tem que deixar o cargo agora em abril por conta da candidatura ao Senado. Em que medida isso também pode afetar a gestão da Celina quando ela ocupar essa cadeira? Ibaneis e Celina estão umbilicalmente ligados. Como se diz aí, a corda e a caçamba. Então, se o Ibaneis afundar, e tudo indica que vai afundar, em função do escândalo, a Celina vai junto. Porque ela é vice-governadora, é corresponsável por tudo que está acontecendo. ‘Um governo que não se preocupa com as pessoas’ Olhando para trás, qual o saldo que você faz da gestão Ibaneis-Celina, em especial neste último ano? Vejo um governo que não se preocupa com as pessoas, muito concentrado em fazer obras de construção civil, obras de mobilidade urbana. Primeiro, a saúde é caótica. O Iges virou caso de polícia e administra o Hospital de Base, o Hospital Regional de Santa Maria, todas as UPAs e o caos é absoluto. É uma gestão que não se preocupa com as pessoas, levou a Saúde ao caos, a Educação só não estrangulou em função da atitude heroica dos diretores e dos professores. A educação hoje funciona com 2/3 de terceirizados. Como é que você tem um projeto educacional para a cidade desse jeito com esse nível de rotatividade? Assistência social absolutamente abandonada. As pessoas não conseguem marcar atendimento nas unidades do CRAS (Centro de Referência da Assistência Social). Eles montaram uma história que tem que ligar para o 156 para marcar e ninguém consegue. E tem uma máfia que você só consegue marcar atendimento no CRAS pagando. As pessoas pagam 20, 30, 40 reais. Tem lugar que é 50 reais. Aí quando paga consegue atendimento. É um absurdo. Estou encontrando equipamentos públicos nas cidades abandonados. Estive em Planaltina, a Vila Olímpica fechada porque venceu o contrato da instituição que administra e eles não conseguiram renovar. O Centro do Artesão fechado, o CRAS fechado porque tinha contaminação na caixa d’água, o restaurante comunitário fechado em reforma, sem previsão. Você chega nas cidades do ponto de vista do lazer, aqui no centro temos o Parque da Cidade um brinco. O Parque do Bosque do Sudoeste é um brinco. Você chega em São Sebastião, o parque não tem banheiro. Tem roubo e estupro dentro do parque. Você chega no Gama, o Parque Vivencial do Gama, o campo de grama sintética todo esburacado, as grades. Não tem gestão da cidade. E existe um abismo entre a qualidade dos equipamentos públicos no miolo e a dos serviços públicos nas cidades que compõem o Distrito Federal e onde mora a maioria da população. Vejo um governo muito preocupado com fazer obra de construção civil e sem um projeto para a cidade. Tem uma ausência de projeto, ausência de gestão, ausência de horizonte. Eu chamo de governo dos ricos, porque é o seguinte, está pagando 150 milhões de reais em aluguéis. Cada semana uma secretaria sai de um prédio público e se muda para um prédio privado para pagar aluguel. Sai de graça para pagar aluguel. É inexplicável isso. Temos o Centro Administrativo de Taguatinga, o Centrad. São 16 prédios, 180 mil metros quadrados de área construída, completamente abandonado. O Ibaneis quando assumiu disse que ia resolver e mudar o governo para o Centrad em 6 meses. Tem 8 anos e o Centrad está ali, abandonado. Falta projeto. O Centrad, por exemplo, muda o eixo de desenvolvimento do Distrito Federal. Ele valoriza Taguatinga, Ceilândia, Sol Nascente, Pôr do Sol, Samambaia, Recanto, Riacho [Fundo] 2, toda aquela aquela região dá um um pulo, um salto de valorização. Você ajuda a resolver gargalos de trânsito na cidade e está lá abandonado. Acho que a gestão deles termina agora de forma melancólica tendo esse episódio do Banco Master-BRB, onde eles envolvem o BRB, o Banco de Brasília e o governo na maior fraude dos sistema financeiro da história do Brasil. Para além dos problemas que já discutimos, quais são os maiores desafios que o brasiliense terá de enfrentar no dia a dia em 2026 e como a organização popular pode ajudar a mudar esse cenário? O principal desafio de 2026 será o orçamento público. Já começaram, em função do escândalo Master-BRB, atrasar pagamento de servidores terceirizados e o Ibaneis já está anunciando cortes. A tendência é que vão querer cortar na saúde, na educação, na segurança pública, na assistência social para conseguir juntar dinheiro para tapar o rombo da operação Master no BRB. A maior luta vai ser para defender o orçamento público e garantir a manutenção dos serviços públicos. E para isso, o movimento social é fundamental. O movimento social que é capaz de mobilizar as pessoas e pressionar o governo para que não corte serviços públicos para tapar o rombo do BRB. Tem uma frase que eu gosto que diz o seguinte: ‘governo e feijão só melhora com pressão’. O movimento social tem um papel fundamental de botar a pressão no governo para garantir os serviços sociais e as políticas públicas. Ricardo Cappelli foi anunciado como pré-candidato pelo PSB em outubro de 2024 | Crédito: Foto: Reprodução/@carlossiqueira4040 Houve alguns rumores da possibilidade de uma unificação de candidatura entre você e o pré-candidato Leandro Grass (PT-DF). Essa possível união ainda é estudada ou já foi descartada? Acredito que vamos conseguir construir a unidade do campo progressista. É possível. É natural que o PT lance candidatos, é natural que o PDT lance candidatos. É natural que o PSB tenha candidatos, que o Psol tenha candidatos, enfim. Acredito que essa unidade é fundamental porque ela pode garantir a nossa vitória aqui. Eu sou confiante, tenho paciência. Está longe ainda, tem partido que tem pleito para o governo, tem partido que tem pleito para o Senado. Então, acho que a gente no final vai conseguir se entender. Como você observa as movimentações da extrema direita no DF para as eleições deste ano? Não está claro ainda o que a extrema direita vai fazer. Porque hoje ela sinaliza o apoio a Celina. Mas será que isso se mantém até o final? Não sei. O Ibaneis quer ser candidato ao Senado. A Bia Kicis e a Michele [Bolsonaro] também querem ser candidatas ao Senado. Como é que fecha essa equação? Só são duas vagas, tem Ibaneis, Michele e Bia Kicis. Como é que vai fechar essa chapa? Acho que ainda vai acontecer muita coisa e acho que a tendência é eles se dividirem. :: Clique aqui para receber notícias do Brasil de Fato DF no seu Whatsapp ::
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