O governo brasileiro não teme que a nomeação de um ativista de ultradireita dos EUA ao cargo de assessor para relações com o Brasil possa atrapalhar o planejamento da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a seu homólogo americano Donald Trump. Mas ainda não há data fechada para viagem, embora a ideia inicial fosse realizar o encontro em março. Darren Beattie, crítico contumaz do governo Lula e do ministro do STF Alexandre de Moraes, assumiu o cargo de assessor sênior encarregado de Brasil no Departamento de Estado, equivalente ao Ministério das Relações Exteriores nos EUA. A informação foi revelada pela agência de notícias Reuters e confirmada pela Folha por um alto funcionário da pasta. Beattie já chamou Moraes de “principal arquiteto do complexo de censura e perseguição contra o (ex-presidente brasileiro Jair) Bolsonaro”. Após a imposição de sanções da Lei Magnitsky sobre Moraes, Eduardo Bolsonaro agradeceu a Beattie por seus esforços em uma publicação no X. O americano também é secretário assistente interino para assuntos culturais no departamento. Além disso, durante a campanha presidencial de 2024, o funcionário foi acusado de racismo e misoginia por dizer nas redes sociais que “homens brancos competentes precisam estar no comando se você quiser que as coisas funcionem”. Ele sugeriu também que a comunidade de inteligência dos EUA poderia estar por trás de tentativas de assassinar Trump. Em 2018, Beattie foi demitido da Casa Branca por ter participado de um encontro com nacionalistas brancos dois anos antes. Ele havia aparecido em um painel com Peter Brimelow, fundador do site anti-imigração VDare, que o grupo Southern Poverty Law Center classificou como um “site de ódio”. Em 2020, a Casa Branca nomeou o funcionário para uma comissão que ajuda a preservar locais relacionados ao Holocausto. A decisão foi criticada pela Liga Antidifamação, um conhecido grupo judaico. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo A percepção no governo brasileiro é que Beattie não terá uma boa interlocução com autoridades no Brasil, mas que isso não atrapalhará as relações bilaterais. A nomeação ocorre em meio à indefinição da data para a visita de Lula a Trump. Um alto funcionário do governo brasileiro afirma que a expectativa ainda é que a visita saia em março, na segunda quinzena. Mas funcionários americanos afirmam que não há nada confirmado. A discussão sobre a visita de Lula a Trump surgiu no final do ano passado a partir de um convite do mandatário americano e seria uma maneira de selar a trégua entre os dois países após a retirada de parte das tarifas comerciais e sanções motivadas pelo processo contra Bolsonaro. A pauta do encontro foi parcialmente esvaziada, uma vez que a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou parte das tarifas impostas por Trump invocando a Lei de Emergência Internacional de Poderes Econômicos. Com a retirada, os EUA mantiveram uma tarifa global de 10% para todos os países, que é comparativamente vantajosa para o Brasil, que era alvo de taxas maiores. Com isso, o protagonismo deve ficar com a cooperação em combate ao crime organizado internacional e em minerais críticos. O governo americano vem negociando acordos de fornecimento preferencial com diversos países. O Brasil, que tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, recusa-se a firmar pactos de exclusividade e quer contrapartidas em investimento em processamento local dos minérios. Já a cooperação em crime organizado, do ponto de vista do governo brasileiro, seria centrada no combate a lavagem de dinheiro e tráfico de armas, e colaboração para prender foragidos brasileiros que vivem nos EUA. Venezuela e o Conselho da Paz criado por Trump, para o qual o Brasil foi convidado a participar mas deve declinar, também devem ser temas discutidos. O governo brasileiro nega que a dificuldade de se chegar a acordos esteja emperrando a marcação da data da visita. Segundo o UOL, para assinar o acordo de cooperação em segurança, os americanos cobram mais acesso a investigações e dados do Brasil e propõem outros cursos de ação para além da asfixia financeira ou prisão de alvos supostamente ligados ao crime organizado radicados em território norte-americano, como proposto anteriormente pelo governo brasileiro. ESCUDO DAS AMÉRICAS Um funcionário do governo brasileiro afirmou que não há preocupação com a reunião de presidentes de direita da América Latina que Trump vai realizar em Miami, em 7 de março, para a qual o Brasil e outras nações governadas por líderes de esquerda não foram convidados. A expectativa do Planalto é que a reunião seja focada em inibir a influência da China na região, seguindo os princípios da Estratégia de Segurança Nacional de Trump, de manter o hemisfério ocidental sob domínio dos EUA. A cúpula foi batizada de Escudo das Américas e reunirá aliados de direita de Trump, como os líderes de Argentina, Paraguai, Bolívia, El Salvador, Equador e Honduras, para debater segurança, combate ao crime organizado, terrorismo e imigração ilegal. O alto funcionário disse não esperar que haja discussão ou mobilização para interferir na eleição de mandatários de esquerda na região. O Brasil e a Colômbia realizam eleições presidenciais neste ano.
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