O presidente Donald Trump e a primeira-ministra Sanae Takaichi, do Japão, construíram uma relação próxima nos últimos meses, criando laços em torno do beisebol e de valores conservadores compartilhados —e trocando elogios mútuos mesmo enquanto divergem em questões como comércio. Essa amizade está prestes a passar por um grande teste na quinta-feira (19), quando Takaichi visita a Casa Branca pela primeira vez. Rejeitado pelos aliados europeus, Trump deve usar a reunião de cúpula para pressionar o Japão a enviar caça-minas e forças marítimas para ajudar na reabertura do estreito de Hormuz. Ele já aumentou a pressão, sugerindo que o Japão deve aos Estados Unidos por anos de ajuda na defesa e que Tóquio precisa agir por causa de sua forte dependência do petróleo do Oriente Médio. As exigências colocaram Takaichi, uma conservadora linha-dura que se tornou a primeira mulher a liderar o Japão como primeira-ministra, em uma posição difícil. Ela está limitada não apenas pela Constituição pacifista do Japão, mas pela esmagadora oposição pública: apenas 9% dos japoneses apoiam o ataque americano-israelense ao Irã, segundo pesquisa recente do jornal Asahi Shimbun. Agora Takaichi enfrenta a delicada tarefa de encontrar uma maneira de sinalizar apoio a Trump sem se envolver na guerra. Ela deve fazer isso no fórum de alta pressão da Casa Branca, durante almoço e jantar com um presidente que parece cada vez mais impaciente e ressentido. “Esta deveria ser uma cúpula bem simples e fácil”, disse Zack Cooper, pesquisador sênior do American Enterprise Institute em Washington. “Agora é exatamente o que os japoneses não querem: uma situação imprevisível sem respostas óbvias.” A crise do Irã pode atingir o Japão com força; o país importa quase toda a sua energia, e cerca de 95% do seu petróleo vem do Oriente Médio —um fato que Trump tem destacado com entusiasmo nos últimos dias. Os Estados Unidos são o principal aliado do Japão, e Takaichi conta com Trump para ajudar a conter a crescente influência militar e econômica da China na Ásia. Enquanto aliados europeus buscaram abertamente se distanciar do conflito, Takaichi tem sido mais ambígua. Ela disse que seria “legalmente difícil” para o Japão ordenar que sua marinha participasse de operações de segurança no mar, e que a situação do Irã ainda não constituía uma situação de “ameaça à sobrevivência” do Japão que permitiria uma resposta militar. Mas ela também disse que está considerando “o que podemos fazer”. E se absteve de comentar sobre a legalidade do ataque americano-israelense. Trump parece estar de olho na frota de caça-minas avançados do Japão, que poderia ajudar a escoltar petroleiros no estreito de Hormuz. O Japão os enviou ao Golfo Pérsico em 1991 —a primeira missão militar no exterior desde o fim da Segunda Guerra Mundial— mas apenas depois que a missão de combate americana havia terminado. Em 2019, durante seu primeiro mandato, Trump pressionou o Japão a desempenhar um papel mais ativo na proteção de seus interesses no Oriente Médio após uma série de ataques a petroleiros na região. O Japão respondeu enviando forças de defesa marítima para patrulhar rotas de navegação e coletar inteligência. Mas evitou o estreito de Hormuz, numa aparente tentativa de não dar a impressão de que estava ao lado dos Estados Unidos contra o Irã, com quem o Japão mantém relações amigáveis há muito tempo. A questão do envio de militares ao exterior é delicada no Japão, onde as memórias da Segunda Guerra Mundial ainda persistem. O pacifismo está consagrado em sua Constituição, com a cláusula conhecida como Artigo 9 fazendo uma renúncia completa à guerra. Em 2015, o primeiro-ministro Shinzo Abe —amigo tanto de Trump quanto de Takaichi— facilitou o envio de militares ao exterior, revisando a lei para permitir missões de combate no exterior ao lado de tropas aliadas em nome da “autodefesa coletiva”. Mas a situação deve ser considerada uma ameaça à sobrevivência do Japão. Alternativamente, a lei permite que os militares sejam enviados ao exterior —mas apenas depois que os combates tenham cessado. Parlamentares japoneses levantaram preocupações de que os ataques dos Estados Unidos e de Israel violam o direito internacional, e alguns comentaristas pediram que Takaichi adote uma abordagem neutra. “O envio de navios-patrulha japoneses quase certamente seria visto como tomar partido dos Estados Unidos, prejudicando a posição do Japão na comunidade internacional”, dizia um editorial desta semana no Mainichi Shimbun, um importante jornal japonês. Trump e Takaichi tiveram uma relação fácil quando se encontraram pela primeira vez em outubro passado, em Tóquio, discutindo sua admiração compartilhada por Abe, que foi assassinado em 2022. A cúpula desta semana deveria ser uma chance de reacender essa química. Autoridades japonesas esperavam usar o encontro para persuadir Trump a evitar fazer um acordo amplo com o líder da China, Xi Jinping, que colocaria em risco a segurança dos aliados na região. O Japão também está ansioso para destacar investimentos nos Estados Unidos e esforços conjuntos para reduzir a dependência da China em terras raras. Takaichi buscará avaliar o cronograma e a estratégia de Trump para a guerra, disseram analistas, dado o dano que ela poderia causar à economia e à sociedade japonesas. O Japão está preocupado que o conflito possa afetar sua segurança se os Estados Unidos continuarem a transferir navios de guerra, mísseis e defesas aéreas da Ásia para o Oriente Médio. Jeffrey W. Hornung, especialista em Japão na Rand Corporation, um grupo de pesquisa em Washington, disse que Takaichi enfrentará o desafio de responder em tempo real às demandas de Trump. “Se Takaichi for lá e disser: ‘Isso é uma grande preocupação para nós’, e Trump se virar e disser: ‘E o que vocês vão fazer a respeito?’ — não sei como o Japão responde a essa pergunta”, disse ele.
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