A notícia recente do afastamento de policiais militares por mau uso de câmeras corporais durante uma operação no Morro dos Prazeres, no Rio de Janeiro, poderia ser lida, à primeira vista, como mais um episódio de irregularidade administrativa, mais um caso de falha no protocolo, mais um desvio pontual dentro de uma engrenagem maior. Mas não é. Para quem conhece aquele território, para quem carrega no corpo e na memória as marcas de sua geografia social, essa notícia reverbera de outra forma. A minha família é diretamente atingida por esse contexto, por ter origem no Morro dos Prazeres, e eu mesmo nasci no bairro do Rio Comprido, historicamente conhecido como o “bairro proibido”, não apenas por sua localização, mas pelo estigma que o atravessa e pela forma como o Estado sempre o tratou: como espaço de contenção, vigilância e, não raro, de extermínio. Não se trata, portanto, de um episódio isolado. Trata-se de um padrão. E esse padrão tem cor, idade e endereço. No Brasil, a violência policial continua operando como uma tecnologia de gestão racial da morte. Os dados são amplamente conhecidos, embora sistematicamente naturalizados: a esmagadora maioria das vítimas de intervenções policiais é negra, jovem e moradora de periferias e favelas. O que se apresenta como política de segurança pública é, na prática, um dispositivo de controle territorial e racial que transforma determinados corpos em alvos preferenciais. Não é a criminalidade que define quem morre; é a forma como o Estado lê esses corpos. Costumo afirmar que o racismo no Brasil opera como um verdadeiro teatro das sombras: muitas vezes dissimulado, negado, encoberto por narrativas de mestiçagem, meritocracia ou neutralidade institucional. No entanto, quando observamos a violência dirigida à população negra, esse teatro cede lugar a uma materialidade incontornável. A morte deixa de ser metáfora e passa a ser dado, corpo, estatística. É nesse ponto que ela incide diretamente no que venho caracterizando como economia da reparação: um campo no qual se torna possível evidenciar, de maneira objetiva, o quanto essa violência produz perdas concretas para o país. Não se trata apenas de injustiça moral, mas de um prejuízo estrutural, acumulado e sistemático, que compromete o presente e o futuro do Brasil. Nesse contexto, o debate sobre o uso de câmeras corporais revela uma contradição profunda. Elas surgem como instrumento de transparência, como promessa de controle da ação policial, como mecanismo de proteção tanto para agentes quanto para cidadãos. No entanto, quando são desligadas, manipuladas ou simplesmente ignoradas, expõem algo mais estrutural: a existência de uma cultura institucional que não se sente obrigada a prestar contas quando o alvo é o corpo negro. A falha não é apenas técnica; ela é política. E, sobretudo, ela é racial. A situação se agrava quando inserida no atual cenário político do Rio de Janeiro, em que o secretário de segurança pública anuncia sua saída para disputar um cargo eletivo. A segurança, nesse caso, deixa de ser apenas uma política pública e passa a operar também como plataforma eleitoral. A lógica do confronto, da espetacularização da violência e da produção de “resultados” imediatos tende a se intensificar. E esses resultados, historicamente, têm sido medidos em números de mortos. O problema é que esses números têm rosto, história, família — e, quase sempre, têm a mesma cor. É nesse ponto que se torna urgente deslocar o debate. Não basta denunciar a violência, embora isso siga sendo fundamental. É preciso também compreender o impacto estrutural dessa política de morte. É aqui que proponho pensar a partir do conceito de economia da reparação. Trata-se de uma chave analítica que nos permite perguntar não apenas por que essas mortes acontecem, mas quanto o país perde com elas. E perde muito. Cada jovem negro assassinado pelo Estado representa uma interrupção brutal de trajetórias que poderiam contribuir para a sociedade em múltiplas dimensões. Há uma perda direta de força de trabalho, de potencial produtivo, de capacidade de geração de renda. Há uma perda de investimento público já realizado — anos de escolarização, políticas de saúde, programas sociais. Há uma perda ainda mais difícil de mensurar, mas não menos real: a perda de potência criativa, cultural e intelectual que historicamente emerge das periferias e das experiências negras no Brasil. Estamos falando de sujeitos que poderiam estar produzindo conhecimento, cultura, tecnologia, inovação. Em vez disso, são transformados em estatística. Ao mesmo tempo, o Estado investe recursos significativos na manutenção de uma estrutura que produz essa própria morte. O aparato policial, o sistema de justiça criminal, o sistema prisional, as operações de grande escala — tudo isso consome orçamento público. Trata-se de uma economia perversa, na qual se gasta para destruir aquilo que deveria ser protegido. A economia da reparação, nesse sentido, propõe uma inversão: reconhecer que preservar vidas negras não é apenas uma questão de justiça histórica, mas também uma estratégia de desenvolvimento nacional. O Brasil não é um país pobre de recursos humanos; ele é um país que desperdiça sistematicamente parte significativa de sua população. E esse desperdício não é aleatório. Ele incide, de forma reiterada, sobre corpos negros. Ao fazer isso, o país compromete sua própria capacidade de crescimento, inovação e coesão social. A morte precoce de jovens negros não é apenas uma tragédia individual ou comunitária; é um obstáculo estrutural ao desenvolvimento. Voltar ao Morro dos Prazeres, ainda que pela via da notícia, é também revisitar uma história que não se encerrou. O “bairro proibido” continua sendo interditado, não mais por muros visíveis, mas por práticas estatais que delimitam quem pode viver e quem pode morrer. Enquanto o Brasil não for capaz de enfrentar esse problema em sua raiz — reconhecendo o racismo como elemento estruturante de sua política de segurança — seguirá produzindo ciclos de violência que, no limite, corroem a própria ideia de democracia. A pergunta que se impõe, portanto, é direta e incômoda: quanto vale uma vida negra no Brasil? E mais: até quando aceitaremos que o país siga perdendo, ano após ano, parte de seu próprio futuro sem que isso seja tratado como uma emergência nacional? A economia da reparação nos obriga a encarar essa questão sem subterfúgios. Porque, no fim das contas, não se trata apenas de quem morre. Trata-se de quem o Brasil escolhe deixar viver. *Richard Santos, também conhecido como Big Richard, é professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), pioneiro da cultura Hip Hop no Brasil. Coordena o grupo de pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo (UFSB/CNPQ). **Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
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