A Copa do Mundo de 2026, com início em 11 de junho no México, vai acontecer sob a sombra de uma profunda contradição geopolítica que põe em xeque a neutralidade da Fifa. Enquanto a entidade mantém a exclusão da Rússia, banida da competição desde 2022 devido ao conflito na Ucrânia, entrega o papel de protagonista e sede aos Estados Unidos, ignorando o envolvimento do país em intervenções militares no Oriente Médio, como o conflito no Irã e o financiamento de ataques de Israel na Palestina e no Líbano. Apesar das declarações do presidente da Fifa, Gianni Infantino, de que a entidade garantiria a participação da seleção iraniana, a presença do país na Copa ainda é incerta por uma decisão do próprio governo persa. Pela primeira vez, os jogos vão contar com a participação de 48 seleções, o maior número da história. Ao BdF Entrevista, o jornalista Irlan Simões, jornalista e pesquisador do Observatório Social do Futebol, aponta que, além da proximidade entre Infantino e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a Fifa não vai comprar uma briga se o restante do mundo está inerte. “Eu acho que essa questão da punição ou não dos Estados Unidos, da contestação, ela deve ser apontada para mais gente além de Infantino. Inclusive, o Infantino, para não ter que punir a Fifa, começou a soltar a informação de que a participação da Rússia voltaria a ser reavaliada. O mundo do futebol é aquela história: o dinheiro, o público, o investimento que estiver possível para fazer a máquina girar, eles estarão fazendo”, avalia. Ele lembra que as copas na Rússia e no Catar geraram muito mais críticas do que agora, por conta de violações de direitos humanos e até mortes nas obras de infraestrutura para receber os jogos. “Houve uma insatisfação, uma reação muito maior dessa comunidade internacional do que o que está acontecendo em relação aos Estados Unidos. Faltam dois meses para a Copa e absolutamente nenhum país escandinavo se posicionou sobre o que são os Estados Unidos no contexto global. Por que a Fifa tomaria essa decisão se ninguém mais está tomando essa decisão? Enquanto eles não precisarem se mover, eles vão deixar tranquilo.” A Copa do Mundo acontecer sob um contexto político turbulento não é exatamente uma novidade: em 1978, a Argentina vivia a ditadura militar quando foi sede dos jogos, e em 1990, o mundo estava dividido sob os ânimos da Guerra Fria. Simões não acredita que haverá qualquer politização relevante do contexto atual durante a competição. A prova disso é que os jogos vêm sendo preparados sob o trumpismo e a política intervencionista estadunidense. “A própria articulação política que foi feita para a produção dessa Copa. A gente tem, há pelo menos três anos, o massacre de um povo que a gente pode chamar de genocídio, uma limpeza étnica de uma região, então não faltam argumentos. Mas ninguém tem se pronunciado nesse sentido. Na União Europeia, apenas a Espanha se posicionou. Não tem posicionamento do mundo do futebol. Então vai ficar por isso mesmo. O mundo segue acontecendo. O futebol, a bola vai rolar e aí nós vamos sublimar novamente, porque essa é a contradição do futebol. No mesmo tempo que ele pode expor essas questões políticas profundas, por exemplo, estamos tendo uma grande disposição do que é a hipocrisia ocidental”, diz. O jornalista também analisa a contradição interna do país-sede da Copa, com seus abismos sociais e a sensação de “torta de climão” por conta da política anti-imigração de Trump. “A Fifa soltou pequenos pacotes de ingressos sem dizer quantos são e criou dentro do próprio sistema uma revenda, e os preços dispararam para a ordem dos quase R$ 1 mil para um jogo convencional, ou qualquer tipo de grupo. Por outro lado, você tem o ICE, aquela política de deportação, de prisão, de imigrantes que seja. E isso pode ser, obviamente, e assim como não existe em critério, o ICE funciona quase como uma milícia. Eu imagino que o mal-estar, a sensação de temor, qualquer pessoa estrangeira que estiver nos Estados Unidos vai ser muito grande”, destaca. Para ouvir e assistir O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
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