Com os planos para negociações de paz entre Estados Unidos e Irã descarrilados, pelo menos por enquanto, Teerã e Washington estão afundando em um limbo incômodo de uma situação nem de paz nem de guerra, cada um esperando superar o outro em um impasse com consequências drásticas para a economia global. Autoridades iranianas parecem confiantes de que podem suportar a dor econômica causada pela guerra por mais tempo do que o presidente Donald Trump, segundo analistas. Mas ainda estão preocupadas de que, sem o impulso das negociações, permanecerão presas sob a ameaça persistente de ataques dos EUA ou de Israel. “O que está acontecendo é algo semelhante ao que tivemos no final da guerra de 12 dias, que é encerrar a guerra, mas sem algo que permaneça”, disse Sasan Karimi, vice-presidente adjunto da gestão anterior iraniana e cientista político da Universidade de Teerã, sobre o conflito ocorrido entre Israel e Irã em junho do ano passado. No fim de semana, um artigo publicado por um proeminente jornal conservador chamado Khorasan e redistribuído por vários outros veículos iranianos descreveu o momento atual como “um limbo estratégico” com riscos consideráveis. “Ambos os lados recuaram dos custos de uma guerra em grande escala, mas não avançaram além da lógica da força e da pressão”, disse o artigo. Isso “pode ser mais perigoso do que o próprio conflito de curto prazo”. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Os esforços hesitantes para reiniciar as negociações de cessar-fogo mediadas pelo Paquistão refletem a dinâmica do conflito desde que o bombardeio dos EUA e de Israel ao Irã terminou em uma trégua no início deste mês —os dois lados defenderam ter saído em vantagem. Trump também parece acreditar que os EUA podem superar o Irã em resistir à dor econômica causada pelos bloqueios feitos pelas duas partes no estreito de Hormuz. O resultado é que nenhum dos rivais está disposto a ceder o bastante para permitir o avanço das negociações. Trump cancelou no sábado (25) a viagem de seu enviado especial Steve Witkoff e de seu genro, Jared Kushner, a Islamabad, no Paquistão, para uma segunda rodada de conversas. Ele justificou o cancelamento dizendo que os iranianos desperdiçariam o tempo dos negociadores. Já as principais autoridades de Teerã afirmam que não se reunirão para negociações diretas até que Trump suspenda o bloqueio naval que impôs aos portos iranianos após concordar com o cessar-fogo —visto pelo Irã como um ato de guerra. No entanto, o chefe da diplomacia iraniana, Abbas Araghchi, viajou no sábado para reuniões em Omã após sua visita ao Paquistão um dia antes, embora tenha retornado ao Paquistão no domingo. Ele voou à Rússia nesta segunda-feira (27) e se reuniu com o presidente Vladimir Putin. O líder russo afirmou durante o encontro que “fará tudo” para alcançar a paz. Além de Islamabad, que sediaria uma futura rodada de negociações, os iranianos veem a coordenação com o Omã, que compartilha as águas territoriais de Hormuz com o Irã, como fundamental para elaborar um acordo. Karimi, da Universidade de Teerã, instou a atual liderança iraniana a aproveitar o momento para apresentar uma estrutura completa para um acordo com os EUA, desde concessões de seu país até suas demandas finais, e uma visão para um pacto de paz regional. Mas no Irã, “o status quo é a forma mais conservadora de se comportar politicamente agora”, disse ele, “porque qualquer mudança levanta a possibilidade de ser culpado no futuro” caso este plano falhe. O Irã também ainda acredita que, em termos econômicos, “pode esperar Trump passar, pelo menos no horizonte de várias semanas em que as interrupções no estreito são mais custosas para o americano do que para os iranianos”, disse Esfandyar Batmanghelidj, CEO da Bourse & Bazaar Foundation, uma organização de pesquisa sediada em Londres. Mas a economia do Irã já enfrenta uma crise severa. Relatos de demissões estão se espalhando pelo país, que está lidando com escassez na produção de petroquímicos e medicamentos como resultado da guerra, e já antes do conflito vivia uma difícil situação econômica. O mais proeminente jornal econômico do Irã, Donya-e-Eghtesad, previu que a inflação anual pode subir para 49% “no caso mais otimista” de se chegar a um acordo. Um estado de “nem guerra nem paz”, alertou a publicação, poderia empurrar a inflação para perto de 70% nos próximos meses, enquanto um retorno ao conflito poderia causar hiperinflação de mais de 120%. Alguns economistas, contudo, estimam que a atual composição do regime pode sobreviver à atual crise econômica por um período de três a seis meses. Em contraste, disse Batmanghelidj, as interrupções na produção de petróleo e exportações, como fertilizantes, podem começar a causar choques econômicos mais profundos na economia global em poucas semanas, o que poderia persuadir Trump a avançar com as negociações. Ainda assim, mesmo que o Irã possa economicamente superar o atual impasse, disse ele, seu dilema estratégico permanece. “O modo sem acordo e sem guerra, do ponto de vista iraniano, os deixa vulneráveis”, disse ele.
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