Israel violou o cessar-fogo nesta quarta-feira (6) no Líbano e atacou Beirute pela primeira vez desde que concordou com a trégua com o Hezbollah no mês passado. Autoridades israelenses afirmaram ter como alvo um comandante da força de elite Radwan do grupo extremista, nos subúrbios do sul da cidade. A força Radwan é a unidade de operações especiais de elite do Hezbollah e o principal braço do grupo responsável pelos combates armados nas regiões de fronteira. A unidade opera com foco no sul do Líbano e já foi acusada de se infiltrar na região norte de Israel e sequestrar soldados. O premiê Binyamin Netanyahu e o ministro Israel Katz (Defesa) anunciaram a ação em uma declaração conjunta. A mídia israelense informou que o comandante foi morto no ataque, mas não houve confirmação por parte das Forças Armadas israelenses ou do Hezbollah. O cessar-fogo no Líbano faz parte de uma trégua mais ampla entre Estados Unidos e Irã. A suspensão das incursões isrelenses no Líbano foram uma exigência fundamental do regime iraniano para o acordo firmado em abril. Desde então, ambos os lados se acusaram mutuamente de violar o cessar-fogo. Soldados israelenses permaneceram em áreas ao sul do rio Litani, fronteira natural estratégica na região, e os ataques continuaram no sul do Líbano durante o período de trégua. O Hezbollah, aliado do Irã, respondeu com ataques de drones contra as forças de Israel. Tel Aviv emitiu nesta quarta ordens de retirada para moradores de vários vilarejos ao norte do rio Litani, o que representa uma expansão da zona de ação israelense no território libanês. As negociações entre os dois países continuaram durante as últimas semanas, mas ocorreram principalmente no nível de embaixadores. NEGOCIAÇÃO ENTRE OS PAÍSES O primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, afirmou nesta quarta que é prematuro falar de qualquer reunião de alto nível entre as nações. Em comentários divulgados pela agência de notícias estatal, o premiê afirmou que a consolidação de um cessar-fogo efetivo seria a base para quaisquer novas negociações entre enviados dos governos libanês e israelense em Washington. No mês passado, a capital americana sediou duas reuniões entre os embaixadores de Israel e do Líbano nos EUA. O Hezbollah se opõe veementemente a esses contatos. Desde que o grupo desencadeou a mais recente escalada ao abrir fogo em apoio ao Irã em 2 de março, o governo libanês liderado por Salam e pelo presidente Joseph Aoun iniciou os contatos de mais alto nível de Beirute com Israel em décadas, refletindo profundas divisões entre o grupo muçulmano xiita, que rechaça os contatos, e seus oponentes governistas. Ao anunciar uma prorrogação de três semanas do cessar-fogo em 23 de abril, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse que esperava receber Netanyahu e Aoun em um futuro próximo e que via “uma grande chance” de os países chegarem a um acordo de paz ainda neste ano. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Salam afirmou que o Líbano não buscava “a normalização com Israel, mas sim alcançar a paz”. Segundo ele, a “exigência mínima é um cronograma para a retirada de Israel” e, com um acordo, o governo libanês desenvolveria seu plano para restringir as armas ao controle do Estado —um esforço alinhado com a demanda israelense de desarmar o Hezbollah. Aoun disse esta semana que não era o momento certo para uma reunião com Netanyahu. O Líbano “deve primeiro chegar a um acordo de segurança e à suspensão dos ataques israelenses, antes de levantar a questão de uma reunião entre nós”, afirmou. Israel unilateramente criou uma zona de segurança que se estende por até 10 km no sul do Líbano, afirmando que o objetivo seria proteger o norte de seu território contra os membros do Hezbollah infiltrados em áreas civis. CRISE HUMANITÁRIA O Ministério da Saúde do Líbano informou nesta quarta que um ataque aéreo israelense matou quatro pessoas, incluindo duas mulheres e um idoso, na cidade de Zelaya, no sul do país. A ONG Médicos Sem Fronteiras publicou, também nesta quarta, um novo relatório em que denuncia ataque aéreos diários por parte de Israel. “Temos visto uma série de ferimentos graves desde o início do suposto cessar-fogo”, relatou Thienminh Dinh, médica de emergência da MSF que atua em dois hospitais na região de Tiro, ao sul. Segundo o relatório, a ONG “está adaptando sua forma de atuação para continuar oferecendo apoio às equipes hospitalares, que estão exaustas após mais de dois meses de bombardeios contínuos e um cessar‑fogo que não trouxe alívio”. A MSF ainda apontou a piora da situação de saúde mental dos libaneses. Equipes no sul do país “estão aumentando o número e a frequência de clínicas móveis, chegando a comunidades mais remotas e a famílias que decidiram retornar após o anúncio do cessar-fogo, mas cuja saúde mental está se deteriorando”, diz o texto. Mais de 2.700 pessoas foram mortas na guerra no Líbano desde 2 de março, segundo o Ministério da Saúde local. Somente após o cessar-fogo, são ao menos 385 mortos e 685 feridos. As Forças Armadas israelenses afirmam que o Hezbollah disparou centenas de foguetes e drones contra Israel durante esse período, e o governo de Israel anunciou que 17 soldados foram mortos no território libanês, além de dois civis no norte de Israel.
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