Na segunda reunião de cúpula da Otan desde a volta de Donald Trump ao poder, no ano passado, a aliança militar ocidental reforçou a guinada de rearmamento de seus membros europeus com o distanciamento do presidente americano do clube fundado por seu país em 1949. Na abertura da cúpula nesta terça-feira (7) na capital turca, Ancara, o secretário-geral da Otan disse que “o zumbido das máquinas precisa se transformar em um rugido”, ao defender a escalada na produção de material de defesa no continente. Se isso vai ocorrer, é incerto, mas o som metafórico de caixas registradoras foi ouvido no fórum industrial da cúpula, que somou anúncios na casa dos US$ 50 bilhões (R$ 258 bilhões) segundo organizadores. Como de costume, o holandês Mark Rutte nomeou sua motivação: Rússia, China e Coreia do Norte. “Não temos o luxo do tempo. Devemos permanecer vigilantes. Esses países estão trabalhando cada vez mais juntos, e isso deveria nos preocupar a todos, porque garanto que eles não têm nossos melhores interesses em mente”, disse. Subjacente aos adversários há o inimigo íntimo da Otan, Trump, que participa da cúpula, para alívio dos aliados. Afinal, o presidente havia chamado a aliança de “covarde” e de “tigre de papel” por sua falta de apoio à guerra lançada com Israel contra o Irã, no fim de fevereiro. Antes de sua participação no evento, em encontro como colega turco Recep Tayyip Erdogan, Trump voltou a criticar os aliados. Disse que estava “testando as pessoas” acerca de seu apoio, e que foi frustrado por países como Alemanha e Itália. Também voltou ao tema da Groenlândia, que havia abandonado nos últimos meses, dizendo que “precisa” do território dinamarquês. Desde seu primeiro mandato (2017-21), o republicano fustiga os europeus pela dependência dos EUA. A anexação da Crimeia em 2014 e a invasão russa de 2022 mudaram de vez o cenário, e hoje quase todos os 32 membros da Otan cumprem a meta mínima de gastar 2% de seu PIB com defesa —só Eslovênia, República Tcheca e Albânia estão algo abaixo. Na cúpula de 2025, Rutte agradou Trump e se comprometeu a elevar isso a 5% em dez anos, sendo que 3,5% seriam dedicados a armamentos em si e o restante, a infraestrutura militar. O holandês já disse que os aliados europeus e o Canadá haviam elevado o gasto com defesa em 20% no ano passado, chegando a US$ 570 bilhões (quase R$ 3 trilhões). Sem surpresa, países do Leste Europeu, próximos geograficamente da Rússia, são os que mais gastaram proporcionalmente: Lituânia (5,33% do PIB), Estônia (5,1%), Letônia (4,92%) e Polônia (4,68%). O montante total ainda é uma fração do que Washington, a maior potência militar da história, gastou —quase US$ 1 trilhão (R$ 5,1 trilhões), ou 3,17% de seu PIB. De todo modo, a aceleração do gasto europeu é a maior desde a Guerra Fria, e a indústria de armas comemora. Nesta terça, foram anunciados diversos negócios na cúpula. O mais vistoso politicamente é a compra, pela aliança, de dez aviões-radar GlobalEye da sueca Saab, a mesma fabricante do caça Gripen, usando no Brasil. Eles superaram a americana Boeing na disputa. Cada GlobalEye custa até US$ 450 milhões (R$ 2,3 bilhões), e os suecos disseram que podem começar a entregá-las a partir de 2030. Além disso, Rutte anunciou a compra de cinco drones de alta altitude MQ-4C Triton americanos e a montagem de uma frota continental de aviões de transporte e reabastecimento centrada no Airbus A-400M. A gigante alemã Rheinmetall assinou, por sua vez, um memorando para produzir mísseis balísticos ATACMS da americana Lockheed Martin, algo inédito que visa reforçar as defesas europeias e da Ucrânia. Na véspera, antes do começo da cúpula, o Canadá havia anunciado a compra de 12 submarinos da TKMS alemã, um negócio que pode chegar à casa dos US$ 70 bilhões (R$ 361 bilhões) ao longo dos anos. Já em Ancara, representantes dos dois países celebraram o que chamam de nova etapa na relação entre membros da aliança. Por fim, Rutte anunciou um plano quinquenal para criar uma rede de defesa contra drones no continente, estimado em US$ 40 bilhões (R$ 206 bilhões). Como mostrou um estudo do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, de Londres, a Rússia foi bem-sucedida em uma campanha para testar as fragilidades europeias no setor nos últimos anos. Analistas também esperam que Trump anuncie a volta da Turquia ao programa do caça de quinta geração F-35, do qual Ancara foi expelida em 2019 pelo próprio americano após comprar sistemas antiaéreos russos S-400. O americano disse no encontro com Erdogan que levantaria sanções do caso contra a Turquia, e que iria ainda tomar uma decisão final sobre os caças. A previsão irritou o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, que vê a Turquia como grande rival estratégica no Oriente Médio. Hoje, só o Estado judeu opera os avançados F-35 na região, embora a Arábia Saudita tenha tido uma compra aprovada por Trump. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Os EUA temiam que a presença do sistema adversário no mesmo ambiente de seu mais moderno avião pudesse revelar a Moscou segredos acerca das capacidades furtivas ao radar do caça, sem contar o mal-estar de ver um membro da Otan operando baterias antiaéreas do maior rival da aliança. De seu lado, o Kremlin disse que estará acompanhando a cúpula com atenção. O foco deverá ser a promessa da manutenção de ajuda europeia à Ucrânia, estimada em US$ 80 bilhões (R$ 413 bilhões) neste ano. Os EUA, sob Trump, pararam de financiar os ucranianos. Segundo o monitor do Instituto Kiel, da Alemanha, desde o fim de janeiro de 2025, quando o republicano voltou à Casa Branca, nenhum dólar foi enviado diretamente para Kiev —os EUA criaram um esquema no qual a Otan compra armas americanas de seus estoques e as repassam. Nesta cúpula, Trump irá se encontrar com o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, para debater o futuro das negociações com os russos e a anemia profunda de mísseis de defesa antiaérea, exposta em dois mega-ataques de Moscou a Kiev, que mataram 50 pessoas em menos de uma semana.
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