A mulher negra retratada sozinha, cercada por supremacistas brancos mascarados no feriado do 4 de Julho nos EUA, foi identificada como Bernita Bowlding, 33, mãe de dois filhos. A foto que a mostra no metrô de Washington junto aos membros do grupo Patriot Front viralizou nas redes sociais —e gerou apreensão na sua família. O irmão de Bernita, Paul Bowlding, contou ao jornal The Washington Post que a reconheceu imediatamente ao ver a fotografia publicada no Instagram. Pouco antes, ela havia dito a um familiar que seguiria de metrô para a cidade de Silver Spring, em Maryland, e não deu mais notícias. Paul afirmou ao jornal que ficou especialmente preocupado porque a irmã enfrenta problemas de saúde mental há anos. Ele chegou a cogitar sair para procurá-la, mas não tinha ideia de onde ela poderia estar. “Aquilo era como cães de caça cercando ela”, disse, referindo-se à imagem feita pela agência de notícias Reuters que mostra Bernita sentada sozinha enquanto dezenas de integrantes mascarados do Patriot Front ocupam o restante do vagão. Após um dia de angústia, a família afirmou que Bernita reapareceu na casa da mãe na manhã de domingo de 5 de julho. De acordo com os familiares, ela não comentou a repercussão da fotografia.Também no dia 5, o secretário do Interior americano, Doug Burgum, disse que a marcha do Patriot Front se trata de “liberdade de expressão”. Embora a ideologia supremacista branca e anti-imigrante da organização seja “algo com o qual eu jamais poderia concordar”, afirmou o secretário à CNN, ela é protegida pela liberdade de expressão, mesmo que isso “torne a democracia confusa”. A imagem, feita pelo fotógrafo Cheney Orr, ganhou ampla repercussão nas redes sociais. Ela foi comparada à histórica fotografia de Rosa Parks, ativista negra que se tornou um símbolo da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos após se recusar, em 1955, a ceder seu assento a um passageiro branco em um ônibus segregado em Montgomery, no Alabama. O gesto desencadeou à época um boicote de mais de um ano ao sistema de ônibus da cidade e ajudou a impulsionar o movimento pelos direitos civis no país. Agora os fotógrafos da Reuters estavam em Washington para cobrir as grandes celebrações do 250º aniversário da independência dos EUA durante o fim de semana de 4 do Julho. Por volta das 9h, o fotógrafo Nathan Howard começou a ver relatos nas redes sociais de que integrantes do Patriot Front, organização supremacista branca cujos membros usam simbologia fascista e cobrem o rosto em público, marchavam pela cidade. Ele decidiu documentar a atividade do grupo. Howard já havia coberto grupos extremistas anteriormente e sabia que a estratégia do Patriot Front era realizar marchas rápidas e se dispersar logo em seguida. “Sabendo que o tempo estava contra nós, comecei imediatamente a reunir informações sobre a marcha e a conversar com fontes que acompanham grupos extremistas”, disse. “Encontrei uma transmissão ao vivo acompanhando o grupo, publicações de pessoas que o encontraram e mensagens no Reddit que ajudaram a identificar pontos de referência e placas de rua, permitindo reduzir a área onde eles estavam.” Howard saiu em busca do grupo ao lado do freelancer Cheney Orr. Os dois localizaram integrantes do Patriot Front enquanto eles se dispersavam e seguiam para uma estação de metrô. O Patriot Front não respondeu aos questionamentos da Reuters sobre o motivo da marcha nem sobre a identidade dos integrantes mascarados fotografados pela agência. No dia 4, o grupo publicou que cerca de 400 membros haviam chegado a Washington. Um manifesto disponível no site do Patriot Front afirma que “a democracia fracassou nesta nação outrora grandiosa” e que é necessário um “recomeço radical” para “retornar às tradições e virtudes de nossos antepassados”, definidos pelo grupo como colonizadores europeus. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Howard e Orr fotografaram centenas de integrantes entrando na estação de metrô, aguardando na plataforma e embarcando em um trem. O mar de rostos mascarados contrastava com a rotina comum do transporte público e dos demais passageiros. Os fotógrafos se dividiram e ocuparam posições em extremidades opostas de um vagão lotado por integrantes do grupo. “Enquanto fotografava os integrantes do grupo, notei a mulher que aparece nesta imagem sentada sozinha entre eles”, disse Orr. “Inclinei-me sobre os membros do Patriot Front que estavam sentados, estendi o braço e compus o enquadramento usando a tela da câmera”, acrescentou. Orr afirmou que não viu para onde a mulher da fotografia foi depois que deixou o trem. Em 6 de julho, segunda-feira, publicações nas redes sociais passaram a divulgar a identidade de Bernita e a mencionar uma prisão anterior. Segundo documentos judiciais citados pelo Washington Post, a acusação acabou posteriormente arquivada. Paul descreveu a irmã como uma pessoa reservada, forte e generosa. Os dois nasceram e cresceram em Washington, com apenas um ano de diferença de idade, e passaram a infância brincando juntos. Ao rever a imagem, disse enxergar nela uma demonstração de força e resiliência. No dia 7, porém, os familiares voltaram a perder contato com Bernita depois que ela saiu para ir à igreja e ao mercado. Paul afirmou esperar que a repercussão do caso ajude a irmã a receber o tratamento de que necessita para enfrentar seus problemas de saúde mental.
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