“Hay vida!”, gritou um resgatista mais de 48 horas após um dos maiores terremotos da história da Colômbia. Os primeiros dias após um tremor com tanta destruição são essenciais para a busca de sobreviventes presos sob os escombros. O grito do resgatista vindo do topo dos destroços de um prédio na cidade de Pereira, no centro do país, provocou um alvoroço de felicidade nas centenas de pessoas em volta do local que acompanhavam apreensivas o resgate ou que ajudavam, como voluntárias, nos esforços de buscas. A alegria parou em seguida, substituída por horas de tensão em uma das zonas mais afetadas pelo grande terremoto que ocorreu na segunda (10) e que atingiu com forte intensidade o Eje Cafetero (eixo cafeeiro), uma das principais regiões produtoras de café da Colômbia. A Folha acompanhou um dia da operação de resgate em uma esquina onde antes estava o edifício Villa I, em Pereira. No térreo do prédio havia uma farmácia. A edificação ao lado, com uma padaria funcionando no térreo, parece também ter ido ao chão. Os andares superiores aparentavam ser habitações. A palavra mais ouvida no entorno dos escombros era “silêncio”, repetida por voluntários, bombeiros e policiais, que erguiam os punhos cerrados acima da cabeça para chamarem a atenção. As tentativas constantes de silenciar a multidão no entorno funcionavam muitas vezes, apesar do intenso barulho do trânsito a cerca de um quarteirão de distância. Tanta gente reunida e imóvel, em busca de sinais de vida, criava uma situação inusitada em meio ao concreto destruído. O pedido de silêncio, algo já conhecido para quem acompanhou o noticiário sobre outros terremotos, é essencial para que as equipes de resgate consigam identificar algum sinal de vida. “Se alguém me escuta, faça algum barulho”, grita um dos resgatistas. Pessoas com equipamentos para localizar possíveis vítimas presas nos escombros, alguns deles aparentemente destinados à captação de sons, aproximam-se dos pontos onde há maior concentração das equipes de resgate. A cena se repete algumas vezes em diferentes áreas do que, até segunda-feira, às 9h30 (horário de Brasília), era um prédio. Depois de muitos minutos de silêncio, um novo sinal dos resgatistas aponta, mais uma vez, para a existência de vida sob os escombros. A comoção volta a tomar conta da população, que se aglomera nas proximidades do Parque La Libertad e observa atentamente a montanha de destroços. E mais pedidos de silêncio se seguiram, sendo interrompidos, algumas vezes, por um —ou mais de um— drone que insistia em sobrevoar a área. Voluntários, quando requisitados, formaram uma fila para, com baldes, retirar entulho de uma área onde o trabalho de resgate ocorria. A solidariedade também se manifestava nas várias pessoas que se aproximavam para oferecer garrafas de água, máscaras, refrigerantes, sanduíches e até pratos com arroz e frango. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo A busca por sobreviventes ocorria em escombros conectados a um prédio com a fachada destruída, vidros pendurados por um fio e parte da laje, rachada e inclinada, aparentemente desafiando a lógica e a gravidade ao permanecer no lugar. O primeiro andar do mesmo prédio aparentava uma inundação, com uma mancha amarelada ao redor da pintura branca da varanda por onde a água pingava no chão empoeirado da rua. O risco de desabamento parecia considerável, o que motivava sucessivos pedidos para que as pessoas se afastassem do entorno. Enquanto a atenção se concentrava no ponto principal do resgate, as equipes que trabalhavam no local fizeram um novo pedido de silêncio e informaram que tentavam ouvir possíveis novos sobreviventes presos. Durante a operação de resgate, um policial pegou um megafone e puxou a oração do Pai-Nosso. Mais de quatro horas após o primeiro “hay vida!”, chegaram cães farejadores. Após percorrer partes encobertas pelos escombros, um dos animais latiu e recebeu, em seguida, um brinquedo como recompensa. Um segundo cão foi levado ao local, solto e conduzido entre os blocos de concreto, sob o olhar dos resgatistas e da população. Mais latidos. Os resgatistas, então, repetiram, em direção aos escombros, o pedido: “Se alguém me escuta, faça algum som”. Segundo uma policial que participa do resgate, havia a confirmação de um homem de 35 anos, consciente, sob os escombros. Ele teria entrado na padaria para comprar um pão no momento do terremoto. Tanto os cães quanto os aparelhos de som usados no resgate teriam identificado que ele está preso no local. A policial também afirmou que foram registrados outros dois sons provenientes dos escombros, mas, quanto a isso, não havia mais informações. A incerteza sobre a existência de um possível sobrevivente e seu estado de saúde permanecia na noite desta quarta. Cercanías A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo Se em Manizales o impacto do terremoto se manifesta com mais força na avenida Santander, em Pereira a destruição assume uma dimensão assustadoramente maior. Os prédios colapsados se espalham por diferentes áreas da cidade. Em Dosquebradas, município vizinho, colado a Pereira, os sinais do forte tremor também estão presentes. É também Pereira que concentra, ao que tudo indica, uma parcela grande dos afetados e mortos pelo terremoto de magnitude 7,4. O recém-empossado presidente Abelardo de la Espriella esteve em Pereira e em Manizales na terça-feira (11), passando, junto a um forte esquema de segurança, por algumas áreas afetadas. Nesta quarta, ele disse que 265 mortes tinham sido confirmadas e que 496 pessoas eram consideradas desaparecidas.
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