O governo de Donald Trump planeja gastar milhões de dólares para equipar os agentes de imigração com luvas capazes de aplicar choques elétricos. O Departamento de Segurança Interna descreveu os itens como um “dispositivo para reduzir as tensões”, mas críticos manifestaram preocupação com o fato de os agentes de imigração receberem mais uma ferramenta que, segundo eles, poderia, na verdade, intensificar o uso da força. Os planos também suscitaram preocupação por parte de alguns ex-funcionários do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) que questionaram o uso das luvas contra pessoas acusadas de violar as leis de imigração, em sua maioria infrações civis. O ICE já vem sendo criticado por suas táticas agressivas ao executar a campanha de deportação em massa do presidente americano. Agentes de imigração utilizaram spray de pimenta contra manifestantes, arrastaram pessoas para fora de veículos e mataram a tiros pelo menos seis pessoas desde que Trump assumiu o cargo, o que gerou pedidos por maior prestação de contas. Em comunicado publicado na segunda-feira (10), o Departamento de Segurança Interna informou que planeja adquirir o “CTG-5 G.L.O.V.E.”, sigla para Generated Low Output Voltage Emitter (emissor de baixa tensão gerada). O departamento também informou que planeja distribuí-las aos oficiais e agentes do ICE que atuam na fiscalização de imigração e em investigações criminais. O contrato pode chegar a US$ 20 milhões (R$ 103 milhões), e a compra deve ser concluída até o final de março, de acordo com o comunicado. O departamento não respondeu a perguntas sobre como as luvas devem ser utilizadas, se seriam usadas para deter indivíduos durante operações de imigração ou em confrontos com manifestantes. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo “O ICE avalia constantemente as necessidades de nossos agentes em campo para garantir que eles tenham as ferramentas e os equipamentos necessários para prender e remover com segurança estrangeiros ilegais criminosos do nosso país”, escreveu o departamento em comunicado. “Cada decisão é tomada com cuidadosa consideração e devidamente analisada para garantir que qualquer tecnologia utilizada pelo ICE esteja em conformidade com todas as políticas e normas aplicáveis de aplicação da lei.” A agência de notícias Associated Press noticiou anteriormente sobre o edital. O dispositivo é relativamente novo e ainda não foi testado; ele não foi amplamente adotado por departamentos de polícia, e alguns especialistas em policiamento nem sequer tinham ouvido falar dele antes de a notícia do contrato com o ICE vir a público. Ele é fabricado pela Compliant Technologies, uma empresa sediada em Kentucky que afirma que seus produtos “capacitam os policiais a acalmar situações tensas rapidamente”. Um manual do usuário das luvas indica que a tecnologia é capaz de impedir “que o indivíduo execute movimentos musculares coordenados”. Às vezes chamado de luva de atordoamento ou luva de choque, o dispositivo vem sendo comercializado para forças de segurança nos últimos anos. Ele usa a dor para induzir a obediência, aplicando um choque elétrico ao entrar em contato. Emite uma voltagem muito menor do que um Taser, de acordo com as especificações da empresa. A empresa afirma que a voltagem é baixa demais para funcionar através de roupas secas ou cabelos. Leva apenas cerca de um segundo para ativar as luvas com o pressionar de um botão. O aparelho foi deliberadamente projetado para ser o que a empresa chama de “discreto”, o que significa que se assemelha a uma luva comum e “fica melhor em vídeo” do que outros tipos de força usados pela polícia, segundo o chefe Adam Glueck, do Departamento de Polícia de Cape Girardeau, no Missouri —que utiliza as luvas—, em um vídeo divulgado no site da Compliant Technologies. Ele disse que inicialmente estava cético devido ao grande volume de novas ferramentas comercializadas para órgãos de segurança pública, mas foi convencido por uma demonstração na qual a luva foi usada nele. “Assim que a colocaram no meu braço, fiquei absolutamente convencido”, disse Glueck. “Caí direto no chão. Não pensei em mais nada além de querer que aquela dor parasse.” Os depoimentos publicados no site da empresa sugerem que a ferramenta tem sido adotada mais para uso em prisões do que por policiais de patrulha. A empresa a denomina uma ferramenta de desaceleração de conflitos. Embora o público possa pensar que a desaceleração de conflitos envolva táticas não violentas, como diálogo e manutenção de uma distância segura, no âmbito policial, armas menos letais ou não letais também são vistas como um dos componentes, já que seu uso pode tornar desnecessário um nível mais alto de força. Jeff Niklaus, fundador da Compliant Technologies, se recusou a comentar. Defensores dos direitos civis e ex-funcionários do ICE que atuaram em governos democratas afirmaram considerar preocupante que os agentes pudessem ser equipados com uma nova ferramenta que facilitasse infligir dor. “Fornecer aos agentes do ICE, que têm agido de forma imprudente no uso da força ao longo do último ano, luvas capazes de aplicar choques elétricos é aterrorizante”, disse Jenn Rolnick Borchetta, diretora adjunta de projetos de policiamento da União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU). “São luvas que aplicam um choque elétrico com um simples toque de botão, e isso significa que a força pode ser empregada com muita facilidade. E já vimos que os agentes do ICE já são rápidos demais em recorrer à força. Vimos que os agentes do ICE rotineiramente não dão avisos.” Após um processo judicial em Kentucky envolvendo o sistema, o fundador da empresa atribuiu a culpa pelo tratamento dado ao autor da ação ao treinamento inadequado e afirmou que nenhum ferimento havia sido causado pelas luvas. O contrato planejado pelo departamento também ressalta o vasto montante de novos recursos que o Congresso aprovou para a campanha de deportação de Trump. Os bilhões em recursos federais permitiram que o ICE contrate mais de 12 mil agentes adicionais e adquira novas tecnologias, incluindo ferramentas de reconhecimento facial.
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