Estava há mais de dois meses sem publicar nada. A pausa deu-se pela necessidade de corrigir a rota da vida devido à morte da minha companheira de 22 anos, a publicitária Fernanda Nunes. Ela parou de respirar às 22h58 do dia 8 de junho, na UTI do Hospital IBCC, na Mooca, depois de lutar contra um câncer de ovário diagnosticado em abril do ano anterior. Nos últimos tempos, prestava serviços para a TV Cultura como executiva de mídia, estabelecendo parcerias com agências e grandes anunciantes. Nascida e criada no bairro da Pompéia, em São Paulo, formou-se na faculdade Anhembi Morumbi e logo iniciou carreira na Norton Publicidade, na década de 1990. No prédio da Vila Buarque, aprendeu e aprimorou as estratégias de mídia e relacionamento comercial com TVs, revistas, jornais e rádios. A partir dos anos 2000, após um curto período trabalhando para o jornal Vale Paraibano, em Taubaté (SP), foi contratada pela DPZ, onde ficou por mais de uma década e chegou ao cargo de diretora. Após a compra da agência pela multinacional Publicis, decidiu trabalhar do lado de lá do balcão e ficou por cinco anos na Play TV, onde até investigada pela Operação Lava-Jato ela foi, já que um dos sócios dessa TV a cabo era o Fábio Luís Lula da Silva, casado com a Renata Moreira, uma de suas grandes amigas. Por causa dessa experiência, migrou para a TV Cultura por indicação de outra grande amiga, Zezé Salles, e consolidou uma carreira de sucesso. Infelizmente, ela não andava de bicicleta, mas nunca reclamou que eu andasse. Eu já gostei muito de acordar cedo no domingo para pedalar pela cidade. Ela gostava de acordar mais tarde, nunca ficou sem carro e só andava de ônibus comigo. No ritmo de vida dela, ter automóvel era imprescindível. Não julgo. Ter carro foi muito útil para levá-la a todas as consultas, exames e procedimentos que enfrentou durante os 13 meses de tratamento. Não liguei de ser seu motorista. Antes eu reclamava e preferia ser o carona. Depois do câncer, aceitei a tarefa sem reservas. Foram longas jornadas no trânsito que tiveram o papel de nos aproximar mais, de ter esperanças de cura e ter objetivos para o futuro. Éramos diferentes, mas a gente se entendia. Ela pedia que me cuidasse para não ser atropelado, que avisasse alguma demora excessiva, essas coisas. Foi ela, não eu, quem tirou as rodinhas da bike do nosso filho, Giuliano, na época em que morávamos numa casa em ruazinha sem saída, no Parque Continental, e dava para crianças brincarem em segurança. E foi super parceira em me apoiar na decisão de tentar me tornar um especialista em jornalismo de mobilidade, mesmo sabendo que eu não iria mais ter os bons salários do passado. Lembro daquela manhã em que assistimos juntos à cerimônia pelo YouTube (a pandemia de Covid-19 ainda em curso), que revelou os vencedores do Prêmio Abraciclo 2021. E eu, surpreendentemente, levei o primeiro lugar. Era orgulhosa “dos meus meninos”, eu e o filho. No seu tempo livre, gostava de crochetar. Fez cachecóis, mantas, toalhas, blusas, bolsas e outras artes muito finas. Curtia romances do Ken Follet, era fã de Harry Potter e de tudo relacionado ao Mickey, da Disney. Sua lasanha de queijo e o caldo verde eram iguarias inesquecíveis. Não fazia grandes propagandas devido ao ambiente profissional, mas me acompanhou em vários atos da esquerda em prol da Dilma, em eventos com o Lula, em atos de direitos humanos. Também não alardeava, mas era prima em primeiro grau, por parte da mãe Dirce Varlotta, da Clarice, viúva do Vladimir Herzog. Nossos pensamentos da justiça social caminhavam juntos nesse sentido. Deixa muita saudade em todos nós. Nesses últimos tempos pensei em desistir da coluna e também do site. Viver na iminência de ver a companheira morrer, pois, mesmo com toda a esperança, eu sabia que só três em 10 mulheres sobrevivem a esse tipo de câncer, me deixou meio niilista. E escrever sobre bicicleta, às vezes, parece que não vai servir para nada. Mas repensei e vou manter essa tarefa de continuar a provocar a sociedade com minhas investigações e reflexões sobre as políticas de incentivo ao uso da bicicleta em todos os níveis. Pra frente é que se anda, diz o ditado. Estamos vivendo tempos sombrios em que a ganância capitalista quer esgotar todas as fontes de recursos da Terra. E eu não vou ficar aqui parado vendo a deterioração ambiental provocada pelas mudanças climáticas, sentado numa poltrona com a boca aberta, cheia de dentes. Falar de bicicleta será ainda mais necessário, pois sua eficiência energética é a maior dentre todos os modos de transporte. E, quando toda a gasolina e o lítio acabarem, será a salvação daquelas pessoas que tiverem uma para se locomover. A bicicleta me ajudou muito a enfrentar às últimas quatro semanas de vida da Fê. Como me internei com ela no hospital e apenas uma noite deixei de dormir lá, pedalei muito pelos arredores daquela região em busca das refeições diárias já que o entorno do hospital é inóspito não tem nada de comércio. E vai continuar me ajudando, pois desde que ingressei nesse ambiente de ativistas e especialistas, tive a sorte de fazer amigas e amigos que são fundamentais para eu superar esse luto de forma digna. Viva a Fernanda, vivam meus amigues da bicicleta. *Rogério Viduedo é jornalista de São Paulo e integrante do Programa de Jornalismo de Segurança Viária da Organização Mundial da Saúde. Cobre as áreas de segurança viária a mobilidade sustentável desde 2016. Em 2018, criou o site Jornal Bicicleta para cobrar autoridades por soluções eficientes para deslocamento da população. Recebeu o Prêmio Abraciclo em 2021 com a reportagem “Cultura da bicicleta se aprende na escola”. ** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
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