Um grupo formado por membros da direita dos Estados Unidos que deixaram de apoiar o presidente Donald Trump começou a articular a criação de um novo movimento político no país e já discute até mesmo a possibilidade de transformá-lo em um novo partido, para competir contra os republicanos e democratas nas eleições locais.
A iniciativa reúne figuras que até pouco tempo atrás eram grandes aliados de Trump (e até mesmo participaram do governo), entre eles o jornalista Tucker Carlson, a ex-deputada republicana Marjorie Taylor Greene, o deputado republicano Thomas Massie e Joe Kent, ex-diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos EUA neste segundo mandato de Trump.
A articulação para criar o novo movimento político foi revelada no começo deste mês, quando Greene divulgou uma foto de uma reunião realizada na casa de Carlson. O encontro também contou com a presença de Massie e Kent.
“Nós dissemos que não queríamos mais guerras estrangeiras e falamos sério, e apoiamos Donald Trump porque ele fez essa promessa. Mas ele traiu todos nós”, escreveu Greene ao divulgar a foto do encontro em sua conta no Instagram. “Nosso compromisso é America First (América em primeiro lugar) para todos os americanos, de direita, de esquerda e de centro. O movimento começou”, concluiu.
Ex-congressista republicana publicou a foto em sua conta oficial no Instagram no último dia 1º. (Foto: Reprodução/Instagram/@realmarjoriegreene)
Carlson reforçou o anúncio ao compartilhar a publicação de Greene em sua conta no X. No post, o ex-apresentador da Fox News afirmou que o movimento MAGA (Faça a América Grande Novamente, de Trump) havia sido “traído” e defendeu a criação de “um novo caminho”.
Segundo a imprensa americana, a articulação para a criação do novo movimento, por enquanto, está em uma fase inicial. Integrantes do grupo, no entanto, já admitem publicamente que a iniciativa pode evoluir para uma nova legenda política e que o objetivo é preparar uma alternativa para a eleição presidencial de 2028.
Grupo estuda candidatura própria em 2028
Durante uma entrevista concedida ao programa de notícias online The Young Turks, exibida em 4 de agosto, Joe Kent afirmou que o grupo já discute a possibilidade de lançar um candidato à Presidência em 2028 fora dos partidos Republicano e Democrata. A declaração foi feita poucos dias depois da reunião realizada na casa de Carlson.
Segundo Kent, a intenção do grupo é construir, neste momento, uma “ampla coalizão” em torno da agenda “America First” (América em primeiro lugar), movimento que, segundo ele, poderá se transformar em um novo partido político. O grupo também começou a avaliar os caminhos necessários para colocar um eventual candidato nas cédulas eleitorais dos 50 estados dos EUA.
Entre os nomes discutidos para representar o movimento na eleição presidencial, Tucker Carlson aparece como uma das principais possibilidades. Na mesma entrevista, Kent revelou que ele e outros integrantes do grupo já tentaram convencer o ex-apresentador da Fox News a concorrer à Casa Branca.
“Eu diria que todos nós, em algum momento, dissemos a Tucker que ele precisa concorrer”, afirmou Kent. Ele reconheceu, porém, que Carlson tem dito publicamente que não pretende disputar a Presidência. Ainda assim, segundo Kent, o grupo mantém a expectativa de que o comentarista possa mudar de posição até 2028.
Em entrevista à revista americana Columbia Journalism Review, publicada em 1º de julho, Carlson disse que pretende ajudar na construção de um terceiro partido político nos Estados Unidos, mas descartou, naquele momento, concorrer pessoalmente a um cargo público.
Nos bastidores, porém, pessoas próximas ao ex-apresentador afirmam que esse cenário poderia mudar dependendo de quem for o escolhido para representar o Partido Republicano na eleição presidencial de 2028. Duas fontes ouvidas pelo jornal Politico disseram que ele não pretende concorrer contra o atual vice-presidente J.D. Vance, mas poderia reconsiderar a decisão caso Trump apoie o secretário de Estado Marco Rubio para sucedê-lo.
“Ele não concorrerá contra JD Vance. Muito provavelmente concorrerá se Trump apoiar Rubio”, afirmou ao site americano uma fonte próxima a Carlson.
Greene também negou ao Politico que ela ou Carlson tenham planos de disputar a Casa Branca em 2028. A ex-deputada, entretanto, voltou a criticar o sistema bipartidário dos Estados Unidos e classificou o modelo dominado por republicanos e democratas como um “fracasso completo e total”.
O rompimento com Trump
Carlson, Greene, Massie e Kent passaram a acusar o presidente Trump de ter abandonado compromissos assumidos com a base conservadora durante a eleição presidencial de 2024. Uma das principais divergências envolve a política externa dos Estados Unidos e, especialmente, a guerra contra o Irã.
Todos os integrantes do grupo defendem que os Estados Unidos tenham uma política externa baseada na redução da participação americana em conflitos internacionais. Eles afirmam que Trump prometeu, durante a campanha presidencial de 2024, evitar novas guerras e reduzir o envolvimento político e militar dos Estados Unidos no exterior.
Kent abandonou o governo Trump em março por causa dessa divergência com a guerra contra o Irã. Greene, Carlson e Massie também se tornaram críticos públicos da guerra contra o regime islâmico.
Outro ponto de atrito entre o grupo e Trump está relacionado aos arquivos do caso Jeffrey Epstein. Greene e Massie entraram em conflito com o presidente quando decidiram pressionar a Casa Branca pela divulgação completa dos documentos do governo sobre Epstein, que foi condenado por crimes sexuais e se suicidou, segundo autoridades, na cadeia. Carlson também passou a criticar a maneira como o governo tratou o caso.
Novo partido poderia prejudicar os republicanos
Mesmo que um eventual terceiro partido tenha dificuldades para disputar diretamente a Casa Branca, a articulação preocupa parte dos aliados de Trump pelo potencial de dividir o eleitorado conservador.
Uma candidatura liderada por uma personalidade conhecida nacionalmente pela direita dos EUA, como Carlson, poderia disputar votos com o candidato republicano em estados pêndulos, que são decisivos para eleger o novo presidente.
Nos bastidores, segundo a imprensa americana, integrantes do governo Trump apresentam avaliações diferentes sobre o tamanho da ameaça. Uma fonte próxima ao presidente disse ao Politico que não considera Carlson capaz de influenciar significativamente a política republicana e minimizou a possibilidade de criação de um novo partido. Outra pessoa próxima a Trump, porém, manifestou preocupação com o efeito eleitoral da divisão, principalmente nas eleições legislativas de meio de mandato que ocorrerão em novembro. Segundo essa fonte, bastaria que parte dos eleitores republicanos deixasse de votar para colocar em risco a maioria do partido na Câmara dos Deputados e no Senado.
Casa Branca critica novo movimento
Em declaração à revista Wired, o porta-voz da Casa Branca, Davis Ingle, afirmou que Trump continua sendo o “líder inequívoco do Partido Republicano” e classificou os integrantes do “America First” como “dissidentes que superestimam sua própria influência”.

