A desaprovação de Donald Trump a um dos mais importantes exercícios militares anuais dos Estados Unidos com a Coreia do Sul não é surpreendente à luz do que o americano propõe em sua Estratégia de Segurança Nacional. Trump quer que aliados paguem a conta de sua defesa sozinhos, ou de uma forma que dê mais lucro à indústria bélica americana —o que ele fez ao passar a fatura do apoio militar à Ucrânia contra a Rússia para os europeus. Isso dito, dizer que o contumaz lançador de mísseis Kim é respeitoso e pedir que um exercício multinacional com sazonalidade estabelecida tenha escopo reduzido quando os militares já estão a postos soa insensato mesmo para os padrões de Trump. A motivação do americano parece ser multifacetada e, por isso, difusa. Ele apela a um de seus ditadores de estimação, Kim Jong-un, em um momento em que se encontra atolado em negociações infrutíferas em torno de sua guerra malsucedida contra o Irã. Tirar o foco do Oriente Médio enquanto se aproximam as fatídicas eleições legislativas de novembro é uma possibilidade, mas não a única. Em pouco mais de um mês, Trump receberá Xi Jinping, o líder chinês de quem Kim é um dos principais protegidos e os sul-coreanos, rivais regionais. Um aceno a Xi, em meio a relatos na imprensa chinesa de que as negociações prévias para a cúpula estão patinando em produzir anúncios relevantes, pode ser parte da resposta acerca do movimento de Trump. Por fim, há Vladimir Putin, o presidente russo que foi além da China na sua parceria com Pyongyang, tendo assinado um acordo de defesa mútua que lhe proveu soldados e armas para expulsar os ucranianos da região meridional de Kursk no ano passado. Como se sabe, Trump vive uma relação ciclotímica com Putin, ora o cobrindo de elogios, ora de queixas pela disposição de continuar a Guerra da Ucrânia. Sob esse ângulo, é bastante incerto o que Trump ganharia adulando Kim. O ditador, que lidera uma combinação de stalinismo e dinastia familiar, foi o mais chamativo instrumento externo de Trump no primeiro mandato do americano. Em 2017, uma guerra nuclear foi desenhada na Península Coreana, tamanha a hostilidade entre as partes, só para o americano aceitar reunir-se com Kim em 2018, legitimando o ditador. Houve um segundo e um terceiro encontro, e a relação esfriou sem nenhum acordo acerca do programa nuclear do Norte. A pandemia enterrou de vez os contatos pessoais, e o sucessor de Trump, Joe Biden, adotou uma retórica agressiva ante Pyongyang, ameaçando com o uso de armas atômicas e reforçando seus laços com Seul —onde o arranjo nas sete décadas após o armistício da Guerra da Coreia mantém 28,5 mil soldados americanos no Sul. Enquanto isso, os sul-coreanos expandiram sua musculatura militar. Aproveitando a corrida europeia por armas, viraram fornecedores de tanques e caças para a Polônia e viram contratos de exportação quintuplicarem de 2020 a 2022. Além de empregar material americano e doméstico, a Coreia do Sul buscou novas parcerias, sendo o primeiro cliente asiático do bem-sucedido cargueiro militar brasileiro Embraer KC-390, por exemplo. A volta de Trump ao poder em 2025 e sua renovada abertura ao Norte podem aprofundar esse processo, chegando àquilo que todos os especialistas em proliferação nuclear temem: a procura por uma bomba atômica própria. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Com Kim engordando seu arsenal, hoje estimado em 60 ogivas, para não falar nas 600 da China, a pressão interna em favor da nuclearização em Seul ante o risco de o país se ver abandonado pelos EUA é enorme. Além desse duvidoso legado, Trump ainda arrisca ver seu esforço de aproximação cair no vazio. O norte-coreano já provou da inconstância do republicano, e Putin é um parceiro mais confiável. Mais importante, o ditador rejeitou a acomodação proposta pelo presidente sul-coreano, Lee Jae-myung, que desde 2025 faz ofertas para reaproximar os países. A resposta de Kim foi a de declarar o vizinho um Estado hostil e desmantelar as instâncias de diálogo pela reunificação da península.
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