Com Brasil e Estados Unidos por tradição abrindo os discursos do debate de líderes de governo e Estado da Assembleia Geral da ONU, a expectativa é sobre o teor das falas dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump nesta terça-feira (22) em Nova York, com o primeiro pronunciamento com início previsto para as 10 horas (de Brasília).
Informações de bastidores apontam que o petista deve falar sobre multilateralismo e defesa da “soberania nacional”, em um momento em que a gestão do presidente americano lidera uma ofensiva contra organismos multilaterais – como a própria ONU – e mira o Brasil com tarifas e cobranças por falhas no combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV), designados por Washington como grupos terroristas, e sinaliza com sanções a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) devido a relações com o banqueiro Daniel Vorcaro.
Tais informações, porém, apontam que Lula não deve se referir diretamente a Trump no seu discurso. Outros temas a serem abordados pelo petista devem ser os conflitos crescentes pelo mundo, meio ambiente e sustentabilidade.
“O Brasil gosta de ser visto no papel de um possível interlocutor para negociações de paz, então o discurso do Lula deve ter isto. Ele vai falar também, possivelmente, da possibilidade de uma mudança na estrutura das Nações Unidas para dar maior voz ao Sul Global, propondo uma nova estrutura da ONU que reflita a nova organização mundial — organização esta que está um pouco confusa, para falar a verdade”, afirmou Maurício Fronzaglia, professor de relações internacionais da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), à Gazeta do Povo.
Por sua vez, o presidente americano deve, como no pronunciamento de 2025, criticar a ONU, de cujas agências cortou o financiamento e que acusa de burocracia, aparelhamento ideológico e de não resolver grandes problemas mundiais.
“Qual é o propósito das Nações Unidas? A ONU tem um potencial enorme. Tudo o que parece fazer é escrever uma carta em termos muito contundentes e, depois, nunca segui-la. São palavras vazias — e palavras vazias não resolvem guerras”, afirmou Trump na Assembleia Geral do ano passado.
Analistas também projetam que o republicano deve falar sobre a guerra no Irã. “Acredito que ele apresentará argumentos contundentes a favor da ação militar realizada com Israel no início deste ano. Creio que ele abordará a atual missão para garantir o escoamento de petróleo através do Estreito de Ormuz e falará sobre a indignação causada pelo fato de o Irã continuar tentando manter uma via navegável internacional como refém”, afirmou Richard Goldberg, consultor da Fundação para a Defesa das Democracias (FDD), em um recente debate no canal no YouTube do think tank conservador americano.
“Seria correto e lógico da parte dele cobrar os membros da Assembleia Geral — especialmente aqueles que possuem capacidade naval própria, mantêm relações diplomáticas com o Irã ou detêm influência econômica ou militar sobre o país — e questioná-los: enquanto seus suprimentos são interrompidos ou restringidos, o que eles têm feito para tentar reverter as tentativas do Irã de atacar o Estreito de Ormuz?”, acrescentou.
Eleições terão influência nos discursos, dizem especialistas
Em entrevista à Gazeta do Povo, Natali Hoff, professora do curso de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), destacou que tanto Lula quanto Trump enfrentam momentos de processos eleitorais — no caso do americano, as midterms, as eleições de meio de mandato presidencial, em novembro, quando estarão em jogo as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e um terço do Senado.
“Assim como o Lula, ele também deve entender que discursar na Assembleia Geral da ONU é um momento não só para falar com as contrapartes internacionais e outros líderes de Estado, mas também para produzir fato político, utilizar aquele espaço não necessariamente para fazer um discurso eleitoral, mas para trazer um fato político que possa ser usado a seu favor”, afirmou a analista.
“Acho que esse discurso da soberania deve aparecer com muita força na fala do Lula, assim como o de defesa das instituições democráticas. Só que, claro, esse discurso, diferentemente do ano passado, não deve trazer a defesa do STF, uma vez que vivemos agora um momento muito conturbado de crise com essa instituição, que ele defendeu no último discurso em decorrência da [aplicação da] Lei Magnitsky, que tinha acabado de ser aprovada [sanções contra o ministro Alexandre de Moraes]”, projetou Hoff.
No caso de Trump, a analista afirmou que o presidente americano deve fazer um discurso voltado muito para a sua base interna por conta das midterms, “nas quais se espera que o Partido Republicano tenha dificuldade de manter a maioria nas casas legislativas, ou pelo menos em uma delas”.
“Ele vai usar esse momento para reforçar determinados pontos, tentar fazer parecer que a guerra do Irã não é algo negativo — já que isso tem um grande efeito no eleitorado americano para as midterms — e reforçar suas políticas domésticas contra a migração e suas políticas econômicas mais unilaterais como medidas que estariam fazendo os Estados Unidos grandes de novo”, disse Hoff.
Maurício Fronzaglia também projeta pronunciamentos “mais eleitoreiros”, não no sentido de discursos de campanha típicos, mas enfatizando políticas dos dois presidentes de olho nos eleitorados dos seus países.
“O presidente Trump, nesse sentido, deve dizer que, em seu governo, os Estados Unidos prosperaram como nunca e jamais estiveram tão bem. Ele pode ser um pouco mais direto, digamos assim, ao demonizar os governos democratas anteriores por não terem cuidado da grandeza dos Estados Unidos, na visão dele. Contudo, não haverá um apelo tão direto ao voto das pessoas, até porque isso não faz parte do protocolo das Nações Unidas”, afirmou.
Natali Hoff afirmou que, a princípio, não acredita que o Brasil deva ser citado diretamente no discurso de Trump, mas alertou que o presidente americano “é muito reativo”.
“Pensando que estamos falando aqui do Brasil, temos que ficar atentos para ver se ele vai reagir de novo às falas do Lula. No ano passado, foi de maneira positiva, e aquele encontro acabou sendo até bastante engraçado”, lembrou, citando o trecho do discurso em que Trump descreveu que teve uma “química excelente” com Lula durante uma breve conversa antes do seu discurso.
“Será interessante observarmos se ele vai reagir e colocar o Brasil no grupo de países que serão criticados por ele de forma mais direta ou indireta por não seguirem os interesses dos Estados Unidos ou por se aproveitarem dos Estados Unidos de alguma forma, no entendimento dele”, destacou Hoff.


