A disputa entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e parte da imprensa americana entrou em uma nova fase nesta terça-feira (22). Depois de CNN, MS NOW e Politico serem impedidos de acessar a Casa Branca, os três veículos recorreram à Justiça, as principais redes de televisão suspenderam a cobertura conjunta dos compromissos presidenciais e o governo lançou a chamada “Trump TV”. A questão agora será analisada pela Justiça Federal. CNN, MS NOW e Politico pediram que o acesso de seus jornalistas à Casa Branca seja restabelecido e alegam que a proibição viola a Primeira Emenda da Constituição americana, que protege, entre outros direitos, a liberdade de imprensa. O juiz federal Timothy Kelly determinou que o governo Trump apresente sua resposta nesta terça-feira. Uma audiência sobre o pedido de liminar dos veículos está marcada para quarta-feira (23). Kelly é o mesmo magistrado que, em 2018, determinou temporariamente a devolução da credencial do então repórter da CNN Jim Acosta. Grandes emissoras suspendem cobertura conjunta O conflito provocou uma reação inédita no chamado television pool, sistema pelo qual ABC, CBS, CNN, Fox News e NBC se revezam para acompanhar determinados compromissos do presidente e compartilhar as imagens com outros veículos. Na segunda-feira (21), as cinco redes anunciaram que deixariam de realizar, por enquanto, a cobertura televisiva compartilhada dos eventos de Trump. A decisão ocorreu justamente no dia em que a CNN deveria assumir a função de representante do grupo durante a viagem do presidente a Nova York para a Assembleia Geral da ONU. As demais emissoras decidiram não substituir a rede. Em comunicado conjunto, os canais afirmaram: “É vital para o grande público receber informações corretas e independentes sobre o governo. Nenhuma administração deveria restringir o acesso de um órgão de comunicação por discordar de sua cobertura.” A suspensão não significa que todas as emissoras tenham deixado de noticiar as atividades de Trump. Jornalistas de rádio, veículos impressos, agências e fotógrafos continuam acompanhando compromissos presidenciais. O que foi interrompido é o sistema conjunto de produção e distribuição das imagens televisivas. CNN, MS NOW e Politico vão à Justiça Os três veículos banidos apresentaram uma ação conjunta contra o governo na segunda-feira. “Na manhã de hoje, notificamos o governo de que vamos apresentar uma ação judicial para proteger nossos direitos ao abrigo da Primeira Emenda e defender o princípio de que o governo não decide o que a imprensa noticia ou publica”, afirmaram CNN, MS NOW e Politico em declaração conjunta. “Sem aviso ou processo, a Casa Branca revogou as credenciais dos nossos jornalistas porque se opôs à nossa cobertura”, acrescentaram. Segundo os veículos, “se não for contestado, isto ameaça a liberdade de imprensa e o direito do público a um jornalismo independente e livre de interferência governamental”. A ação sustenta ainda que houve violação do devido processo previsto na Quinta Emenda. O governo, por sua vez, afirma que o acesso ao complexo presidencial é “um privilégio, não um direito”. Como começou o novo confronto Trump anunciou na sexta-feira (18) que CNN, MS NOW e Politico não poderiam mais entrar na Casa Branca. “Com efeito imediato”, afirmou estar proibindo “a ‘fake news’ CNN, a MS NOW […] e o Politico de entrarem na Casa Branca, devido à constante ‘reprodução’ de notícias falsas”. Ele também disse que os veículos “não deveriam poder estar constantemente escrevendo ou reproduzindo ficção e mentiras” ao noticiarem assuntos relacionados ao presidente, à administração ou ao país. Trump não apresentou, naquele anúncio, uma reportagem específica como justificativa para a medida. No sábado, as credenciais dos jornalistas foram desativadas e profissionais dos três veículos começaram a ser barrados na entrada. A MS NOW reagiu dizendo que “a Casa Branca pertence ao povo americano e as decisões que são tomadas no seu interior são financiadas com os nossos impostos”. A emissora afirmou ainda que continuará a “informar sobre o presidente, a administração e os temas que afetam o povo americano”. A CNN declarou que sua “missão de informar sobre o governo dos Estados Unidos continuará independentemente de qualquer tentativa de restringir o acesso físico à Casa Branca e a outros edifícios governamentais, ou de qualquer outra tentativa de obstruir o nosso jornalismo”. Trump proíbe acesso à Casa Branca de veículos de imprensa críticos ao governo Presidente americano acusa CNN, MS NOW e Politico de publicarem notícias falsas sobre ele e sua gestão. Republicano tem histórico de ataques desde seu primeiro mandato a veículos de imprensa com cobertura crítica Folhapress | 19:47 – 18/09/2026 Trump fala em “ameaça à segurança nacional” Depois da reação dos veículos, Trump voltou a defender a proibição. “A Casa Branca não está atacando a liberdade de imprensa, algo que valorizo imensamente. Está atacando um problema que se espalhou como um câncer nos nossos queridos Estados Unidos da América”, afirmou. Na mesma publicação, disse que a cobertura que considera falsa “constitui uma ameaça à segurança nacional e tem de ser interrompida, agora!”. Trump também criticou o fato de o processo ter sido encaminhado ao juiz Timothy Kelly, nomeado por ele próprio durante o primeiro mandato e que já decidiu contra sua administração em uma disputa envolvendo a credencial de um jornalista da CNN. Vance defende decisão de Trump O vice-presidente JD Vance também defendeu a posição da Casa Branca. Segundo ele, Trump “não está proibindo os meios de comunicação”, mas decidiu que “não lhes dará acesso especial à Casa Branca se eles se dedicarem ao que é, na realidade, propaganda”. “Devemos lembrar que cerca de 92% das notícias que esses três meios publicam sobre o presidente dos Estados Unidos e sua administração são negativas”, afirmou Vance. O vice-presidente classificou os veículos como “propaganda de extrema-esquerda” e questionou: “Por que uma Casa Branca republicana lhes daria acesso especial?” Ao ser perguntado sobre liberdade de imprensa, Vance respondeu que os veículos “ainda podem noticiar sobre a Casa Branca de Trump”. “Ainda podem obter os relatórios públicos. Ainda podem, naturalmente, falar com pessoas dentro e fora da administração. O que o presidente disse foi que não lhes vamos dar acesso especial dentro da Casa Branca”, afirmou. Casa Branca lança “Trump TV” Em meio à disputa, a Casa Branca colocou no ar, na segunda-feira, a “Trump TV: The Essentials Station”, uma transmissão contínua pelo YouTube e pelos canais digitais oficiais do governo. A proposta é exibir 24 horas por dia discursos, anúncios, imagens de arquivo e momentos destacados pela própria administração. “Assista aos maiores momentos da gestão Trump em um só lugar. Os melhores vídeos, as maiores declarações e destaques imperdíveis em transmissão 24/7 e atualizada em tempo real. Fique informado e atualizado!”, diz a apresentação do canal. O lançamento ocorreu justamente quando as emissoras tradicionais interrompiam a cobertura conjunta dos compromissos de Trump e os três veículos banidos levavam a disputa ao Judiciário. Disputa terá novo capítulo na quarta-feira A questão central do processo será determinar se a administração pode excluir determinados veículos do acesso à Casa Branca por causa do conteúdo de sua cobertura. CNN, MS NOW e Politico sustentam que foram punidos por seu posicionamento editorial. A Casa Branca argumenta que não está impedindo os veículos de publicar notícias, mas retirando um acesso especial concedido pelo governo.
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