Os líderes de direita na América Latina destacaram em seus discursos na Assembleia Geral da ONU a ameaça do que chamam de narcoterrorismo na região. A despeito da falta de consenso sobre a classificação dos grupos criminosos latino-americanos, o uso do termo se normalizou entre os presidentes, todos participantes do Escudo das Américas. A aliança de nações com governos conservadores foi criada pela gestão de Donald Trump sob o argumento de combater a criminalidade na região. O presidente Rodrigo Paz, por exemplo, atribuiu os quase dois meses de protestos na Bolívia no primeiro semestre ao narcoterrorismo. “Queremos denunciar neste espaço das Nações Unidas: 53 dias de estradas bloqueadas, assistência, saúde e educação interrompidas, mais de 20 mortos. Financiados pelo narcoterrorismo, financiados pelo narcotráfico”, afirmou o político, que assumiu o país em novembro do ano passado após 20 anos de governos de esquerda. “Para conseguir financiamento, tenho que recorrer a organizações multilaterais”, afirmou. “Os procedimentos lentos dessas organizações multilaterais dão ao crime organizado uma vantagem na obtenção de recursos, seja do tráfico de drogas, do narcoterrorismo ou do contrabando de ouro, para desestabilizar nossas democracias”, continuou em uma crítica à ONU —outro elemento que foi uma constante nas falas de seus colegas. Cercanías A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo O presidente da Argentina, Javier Milei, foi mais longe nos comentários sobre a entidade, abrindo seu discurso com a acusação de que a ONU havia virado “uma organização inútil, que só serve para alimentar uma casta de parasitas fatalmente arrogantes disfarçados de burocratas bem intencionados”. “Quem deveria garantir a segurança coletiva e os direitos humanos fracassaram na tarefa”, continuou. “Em vez disso, permitiram o caos, a violência e o terrorismo internacional.” Cercanías A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo Para defender a repressão a grupos criminosos, Keiko Fujimori, que assumiu a Presidência do Peru em julho, mencionou a a luta contra guerrilhas que seu pai, o ditador Alberto Fujimori, empreendeu na década de 1990. “Venho de um país que conhece o alto preço da paz: Nós derrotamos o terrorismo”, afirmou. “O Peru está localizado em um continente onde não há guerra entre países. No entanto, enfrentamos outro tipo de guerra, que é a declarada por organizações criminosas transnacionais que impõem o terror às nossas populações”, continuou. “Essas organizações são grupos terroristas e devem ser combatidas como o que são: inimigas do Estado democrático e dos cidadãos cumpridores da lei.” Na mesma linha, o vice-presidente da Colômbia, José Manuel Restrepo, disse que seu governo está “decidido a deixar de usar eufemismos”. “Organizações que assassinam, sequestram, usam explosivos, recrutam menores e recorrem deliberadamente ao terror para subjugar uma sociedade são grupos terroristas. É assim que os denominamos, e os combatemos com toda a força legítima do Estado, dentro dos limites da Constituição e da lei”, afirmou. O político representou Abelardo de la Espriella, eleito presidente da Colômbia em junho após uma campanha na qual prometeu não viajar para fora do país durante seus quatro anos de mandato para se dedicar a percorrer os 32 departamentos da nação. Além de deixar clara a classificação que o governo usa para organizações criminosas, Restrepo pediu que a ONU se debruçasse sobre o tema para deixar o conceito mais preciso. “Precisamos de uma definição internacional comum, suficientemente clara e precisa, compatível com o direito internacional e as garantias fundamentais, mas também útil para permitir que os Estados cooperem de maneira eficaz contra atos terroristas”, afirmou. El Salvador, o último país do grupo a falar e pioneiro no uso do termo contra as facções de seu país, não entrou no assunto em seu discurso, proferido pela chanceler Alexandra Hill Tinoco. Mas a segurança, grande vitrine do presidente Nayib Bukele, costurou toda a fala da ministra. “Durante décadas, meu pequeno, mas grande país foi conhecido por uma realidade que parecia impossível de mudar: a violência estava profundamente enraizada em nossa sociedade”, afirmou Tinoco. Em uma referência aos apontamentos da ONU sobre a deterioração do Estado de Direito em El Salvador, a ministra disse que Bukele ousou “transformar profundamente a realidade” do país, “independentemente das consequências ou das críticas da comunidade internacional”.
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