A França vive uma nova onda de mobilizações sociais motivada por uma proposta de cortes orçamentários de 54 bilhões de euros, o que equivale a aproximadamente R$ 318 bilhões, para 2027, além do congelamento de salários no funcionalismo e da redução de benefícios sociais. As manifestações reuniram centenas de milhares de pessoas nas ruas, envolvendo servidores públicos, estudantes secundaristas e até bombeiros, que protestam contra a precariedade da infraestrutura e a perda do poder de compra.O cenário de descontentamento ocorre às vésperas de um aquecido ano pré-eleitoral no país, já que as eleições presidenciais devem acontecer em abril do ano que vem, ampliando a pressão política sobre o presidente Emmanuel Macron. O analista internacional Hugo Albuquerque destaca que a política de ajuste adotada pelo governo Macron reflete a consolidação do modelo neoliberal na França. “Tem questões estruturais dos velhos problemas do euro, que é uma questão discutida há muito tempo. A França conseguiu sobreviver pela sua força política, tendo déficits públicos grandes, o que não deveria ser um problema em si, se a gente tivesse uma unidade também fiscal da Europa. Isso era necessário para o euro. E ter um mercado da dívida organizado”, aponta ao podcast de política internacional O Estrangeiro.Albuquerque destaca que outros países não conseguiram e foram esmagados pelo sistema. “Se a gente pensar na Grécia, se a gente pensar em Portugal, na Espanha, foram forçados a fazer ajustes muito duros no passado. A França, por tudo que ela representa e até pelo seu poder militar, não precisou fazer isso. O Macron, obviamente, é uma figura ligada a um liberalismo francês”, destaca.O analista acrescenta que, diferentemente da tradição política francesa vinculada “mais à esquerda” ou ao comunismo, o governo busca impor uma austeridade exigida pela estrutura europeia.Por sua vez, a cientista política Florence Posnansky enfatiza a relevância e a abrangência da resposta popular nas ruas, pontuando que a insatisfação impacta desde estudantes — atingidos pela falta de professores e estrutura precária do sistema educacional — até bombeiros — sem equipamentos adequados após incêndios de grandes proporções no verão.A analista observa também o impacto do aumento dos combustíveis e da inflação no cotidiano da população. Avaliando a adesão do funcionalismo, Florence afirma que “o fato de ter conseguido mobilizar um a cada dez servidores públicos em todas as categorias já é uma grande demonstração de força”. Sobre as articulações da oposição para enfrentar o cenário eleitoral, Posnansky pondera a dificuldade histórica de articulação no campo progressista. “A união da esquerda na França é igual a cometas, quando eles passam no céu. É um movimento raro e maravilhoso, mas que dura pouco, infelizmente”, afirma.Diante do desgaste da base governista e do esvaziamento do centro político tradicional, a França caminha para um cenário de forte polarização rumo à disputa presidencial. A mobilização eleitoral tende a se concentrar entre a extrema direita, liderada por Marine Le Pen, e a esquerda radical, de Jean-Luc Mélenchon. “Um dos cenários possíveis, que seria totalmente inédito, seria talvez chegar ao segundo turno com a figura da Marine Le Pene o Jean-Luc Mélenchon, dando assim as duas visões mais radicais da sociedade. Além do esgotamento do governo Macron, ele também não pode se reeleger mais. Ele tem duas figuras políticas que estão disputando a herança política dele, porém eu acho que vai ser bastante difícil, apesar de eles conseguirem alguns setores. A direita tradicional praticamente foi esvaziada”, avalia a cientista política.Contudo, como apontam os analistas, o principal limite ao avanço das medidas de austeridade permanece na capacidade de organização, pressão e resistência demonstrada pelo povo francês nas ruas. “Os movimentos colocaram um limite no Macron”, resume Hugo Albuquerque.Assista ao episódio completo: Para ouvir e assistirO podcast O Estrangeiro vai ao ar semanalmente às quartas-feiras às 15h, disponível nos canais do Brasil de Fato.
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