A comunidade de inteligência dos Estados Unidos afirmou que a China não planeja invadir Taiwan em 2027 e busca controlar o território sem o uso da força. Em resposta, Pequim disse que o assunto é doméstico e que os americanos devem corrigir sua percepção sobre o país asiático. O documento, publicado nesta quarta-feira (18), afirma que a nação asiática também não tem um cronograma fixo para alcançar a reunificação. “O PLA [o Exército chinês] provavelmente está avançando de forma constante, embora desigual, nas capacidades que usaria em qualquer tentativa de tomar Taiwan e de dissuadir —e, se necessário, derrotar— uma intervenção militar dos EUA”, diz o relatório de Avaliação Anual de Ameaça. O documento é publicado em um momento de intensificação dos exercícios militares das Forças Armadas chinesas ao redor de Taiwan. Em resposta, Pequim afirmou, por meio do porta-voz Lin Jian, que a questão é um assunto interno do país, no qual não admite interferência externa. “Instituições e indivíduos relevantes dos EUA devem abandonar preconceitos ideológicos e a mentalidade de Guerra Fria e de soma zero, corrigir sua percepção sobre a China e parar de propagar a chamada ‘teoria da ameaça chinesa'”, declarou em entrevista coletiva nesta quinta-feira (19). China, terra do meio Receba no seu email os grandes temas da China explicados e contextualizados O documento contraria outro relatório divulgado no ano passado, em que o Pentágono afirmava que Pequim planejava alcançar a unificação até 2027. A data coincide com prazos estipulados por especialistas, uma vez que o ano marcará o centenário do Exército chinês e é quando ocorre a campanha presidencial para as eleições taiwanesas no ano seguinte, um período considerado sensível na ilha. O texto divulgado também afirma que Pequim reconhece que uma invasão anfíbia na ilha seria “extremamente desafiadora e carregaria alto risco de fracasso, especialmente no caso de intervenção dos EUA”. “A China, apesar de ameaçar usar a força para impor a unificação, se considerar necessário, e de reagir ao que vê como uma tentativa dos Estados Unidos de usar Taiwan para minar a ascensão chinesa, prefere alcançar a unificação sem o uso da força, se possível”, diz o documento da inteligência. O texto reconhece que um ataque chinês à ilha pode prejudicar o acesso americano a itens sensíveis, como semicondutores. Outra preocupação expressada anteriormente diz respeito ao estreito de Taiwan — o governo americano avalia que um domínio de Pequim sobre Taipé faria com que o regime chinês tivesse controle sobre o trecho, que é estratégico para a economia global. “Mesmo sem envolvimento de Washington, os interesses econômicos e de segurança dos EUA e do mundo enfrentariam consequências significativas e custosas, com cadeias de suprimento de tecnologia interrompidas e temor de investidores nos mercados”, diz o relatório. A publicação ocorre logo após o presidente dos EUA, Donald Trump, adiar sua visita a Pequim em decorrência da Guerra no Irã. A decisão lança dúvidas sobre a trégua que o americano e o líder do regime chinês, Xi Jinping, alcançaram em seu último encontro, em outubro, na Coreia do Sul. É esperado que no próximo encontro entre os líderes, previsto para abril, segundo Trump, a questão Taiwan volte à mesa de negociação. Os EUA, embora não mantenham relações diplomáticas com Taipé, são seu principal aliado militar e uma das forças que garantem a autonomia da ilha perante as pressões chinesas. O Parlamento taiwanês autorizou esta semana, por exemplo, que o governo do território assine com Washington um pacote de compra de armas no valor de US$ 9 bilhões. O pacote faz parte de uma venda maior, de US$ 11 bilhões, aprovada pelos EUA em dezembro, e inclui mísseis antitanques, sistemas de lançamento múltiplo de foguetes e obuseiros autopropulsados. Em fevereiro, durante uma ligação telefônica, Xi disse a Trump que a venda de armas à ilha deve ser tratada com prudência. Pequim já exigiu o fim das vendas em diversas ocasiões. O relatório da inteligência americana também mencionou que as falas da primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, a respeito de uma possível invasão chinesa à ilha representam uma mudança para uma chefe de governo em exercício. No final do ano passado, Tóquio e Pequim viveram um dos piores momentos de suas relações diplomáticas nos últimos anos, quando Takaichi, ao responder a um parlamentar da oposição, afirmou que uma invasão chinesa em Taiwan poderia desencadear uma resposta das Forças de Autodefesa do Japão. Isso porque um ataque a navios de guerra americanos usados para romper um bloqueio chinês à ilha poderia exigir apoio do aliado. Nesta quinta-feira (19), Tóquio rejeitou a avaliação da inteligência americana e afirmou, por meio de seu principal porta-voz, Minoru Kihara, que a análise não é precisa. Em eco a declarações anteriores do país, ele afirma que a fala da primeira-ministra é consistente com o posicionamento histórico do Japão. A China instou Takaichi a se retratar diversas vezes, o que ela não fez. Em vez disso, a política abrandou suas declarações e afirmou que o Japão teria que intervir para, por exemplo, resgatar cidadãos que estivessem no país no momento de um ataque.
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