O alerta está lançado: será que as fogueiras estão sendo apagadas pelo som que não tem nada a ver com o espírito junino?
Por Baixo Sul em Foco
O que era para ser um dos momentos mais tradicionais e simbólicos da cultura nordestina está virando palco de um espetáculo que tem pouco – ou nada – a ver com o São João. Em vez de sanfona, zabumba e triângulo, o que se ouve são batidas de funk, axé e até sertanejo universitário – e não aquele de raiz, que até desce redondo no forró, mas o pop pasteurizado que nada dialoga com a essência junina.
A cada ano, aumenta o número de prefeituras que contratam bandas que poderiam muito bem estar em trios elétricos de Salvador, mas que, por alguma razão misteriosa (ou contrato gordo?), estão animando os palcos do São João.
O que está acontecendo com o São João?
De festa caipira, de milho, bandeirolas e quadrilhas, o São João em muitas cidades está virando uma “micareta fora de época”, descaracterizada, onde o forró autêntico — aquele de Luiz Gonzaga, Dominguinhos e Elba Ramalho — está sendo chutado do palco para dar lugar a DJs e artistas que mal sabem o que é uma fogueira acesa na roça.
Quem perde com isso?
A cultura popular, o turismo tradicional, os artistas locais, e principalmente o povo que espera o ano inteiro para dançar agarradinho ao som de um forrozinho pé de serra — e se depara com letras de duplo sentido e batidas que mais combinam com camarote open bar do que com o clima da roça.
“Eu vim pro São João dançar forró, não ouvir funk no talo”, reclamou dona Maria das Dores, 68 anos, que há décadas participa das festas juninas no interior da Bahia. “Estão matando o nosso São João aos poucos, e ninguém faz nada.”
A cultura pede socorro. A tradição pede respeito.
Esse movimento de “desforrozação” da festa não é novo, mas tem se intensificado com a busca por “atrações de grande apelo comercial”, segundo os próprios organizadores. Só esqueceram de combinar isso com o espírito da festa.
Se querem fazer festival pop, tudo bem. Mas deixem o São João em paz! Ele já tem identidade própria, raiz, memória, cheiro de milho assado e som de sanfona! E isso, nenhuma banda genérica ou modismo passageiro pode apagar.
Fica o apelo: que os gestores públicos e produtores culturais voltem os olhos (e os ouvidos!) para quem verdadeiramente representa o espírito do São João. E que o povo exija mais forró, mais tradição, mais Nordeste e menos “modinha”.
Porque São João sem forró é igual fogueira sem lenha: não pega!


