Em uma das eleições mais conturbadas do ano na Europa, o partido governista da Moldova liderava a apuração na noite deste domingo (28). Com cerca de 95% dos votos contabilizados, o Partido Ação e Solidariedade (PAS), que defende a adesão à União Europeia, alcançava 48% dos votos, contra 26% do Bloco Patriótico, favorável a uma aproximação com a Rússia. Com os 101 assentos do Parlamento em jogo, o PAS tenta manter a maioria da Casa, que detém desde 2021, assim como as aspirações do país mais pobre do continente de fazer parte do bloco econômico até o fim da década. “A Rússia é uma ameaça a todas as democracias”, declarou a presidente, Maria Sandu, ao votar pela manhã na capital Chisinau, sublinhando o motivo do interesse internacional no pleito. Se a véspera das eleições já tinha sido tumultuada, com suspensão de partidos, prisões, perfis de redes sociais derrubados e acusações generalizadas de interferência, o dia de votação não foi muito diferente. Ameaças falsas de bomba interromperam votações no exterior, notadamente em Roma, Bruxelas e nos EUA. A diáspora do país é imensa e, com cerca de 20% do total de eleitores, é historicamente favorável à integração do país com a UE. No ano passado, 327 mil expatriados participaram da eleição presidencial, com 82% votos dados à Maia Sandu, resultado fundamental para sua reeleição, obtida graças a uma diferença de apenas 1,53 pontos percentuais. Neste ano, segundo números preliminares da autoridade eleitoral do país, 264 mil compareceram às urnas montadas em outros países. Esses votos, normalmente contabilizados ao fim da apuração, podem ser novamente decisivos. Se eles não derem a maioria do Parlamento ao PAS, a sigla terá que montar uma coalizão com o Bloco Alternativo, de centro-esquerda, ou o populista Nosso Partido. Nenhum dois dois, porém, tem a adesão à UE como prioridade, fato que pode desacelerar as negociações. No começo do dia, em postagem no X, o conselheiro de segurança de Sandu, Stanislau Secrieru, antecipava uma jornada de ciberataques, “com enorme pressão da Rússia e de seus aliados”. Moscou passou a semana negando a interferência, que classificou de “histeria” e “russofobia”. Ex-república soviética, a Moldova foi anexada ao império russo no século 19 e só obteve sua independência em 1991. O russo é uma das três línguas correntes do território, que convive inclusive com uma área separatista, a Transnístria, na fronteira com a Ucrânia. De acordo com Siegfred Muresan, eurodeputado romeno que lidera o time de observadores da UE na eleição, “a Rússia sabe que esta é a última chance de impedir a integração da Moldova” ao bloco econômico. Daí o propalado esforço do Kremlin em buscar manipular o pleito. Sites do governo voltaram a ser atacados neste domingo, e a polícia prendeu dezenas de pessoas. Uma ONG de direitos civis registrou 254 incidentes em locais de votação até o meio da tarde, como eleitores registrando imagens na cabine de votação e a presença de pessoas não autorizadas em zonas eleitorais. Segundo denúncias do governo e de autoridades do continente, como o governo britânico e a Comissão Europeia, parte dos ataques híbridos supostamente ordenados por Moscou estaria voltado para a compra de votos. Antes das urnas fecharem, Igor Dodon, ex-presidente e líder do Partido Socialista, um dos oposicionistas mais vocais sobre uma aproximação da Moldova com a Rússia, inflamava seus seguidores com denúncias de fraude, sem, contudo, apresentar evidências. Convocou para esta segunda-feira (28) um protesto em frente ao Parlamento, declarando que o que chamava de vitória do Bloco Patriótico, o grupo que reúne os principais partidos de oposição, seria anulada pelo governo Sandu. A retórica de Dodon se vale do fato de duas legendas do bloco terem sido suspensas na semana passada. Decisões da Justiça acataram denúncias de financiamento eleitoral irregular após investigação policial indicar recursos de origem russa ou de pessoas ligadas ao Kremlin. Como já havia ocorrido em outra eleição apertada no leste europeu neste ano, Pavel Durov, proprietário do Telegram, afirmou em postagem que foi procurado por agentes do serviço secreto francês para derrubar perfis de usuários pró-Rússia. “Desta vez foi ainda pior, pediram para derrubar perfis legítimos, de simples críticos da Moldova e da União Europeia”, escreveu Durov, que está sob supervisão da Justiça na França, comparando a eleição atual com a da Romênia, em maio. O governo francês não se pronunciou sobre o assunto.
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