Um coronel do Exército de Madagascar anunciou nesta terça-feira (14), em cadeia nacional de rádio, que os militares assumiram o governo de Madagascar. “Tomamos o poder”, afirmou Michael Randrianirina. Segundo ele, todas as instituições estão dissolvidas, exceto a Assembleia Nacional, que pouco antes havia aprovado, por 130 votos a favor e uma abstenção, o impeachment de Andry Rajoelina, o presidente que deixou o país após uma onda de protestos nas ruas. A votação ocorreu horas depois de Rajoelina ter divulgado pelo Facebook um decreto determinando a dissolução da Assembleia, ampliando o impasse com manifestantes e setores das Forças Armadas que o forçaram a fugir. Outro alvo da ira popular, o presidente do Senado, Richard Ravalomanana, também havia sido destituído, e Jean André Ndremanjary fora nomeado interinamente. Na ausência do chefe de Estado, o líder do Senado assumiria o cargo até a realização de novas eleições. Agora no poder, as Forças Armadas ainda não disseram quando pretendem convocar pleito. A Presidência disse mais cedo que a sessão do impeachment era inconstitucional e que qualquer decisão advinda da Assembleia seria nula por causa da dissolução, cuja validade já era contestada pela oposição. O decreto de dissolução do Parlamento entraria em vigor “imediatamente após sua publicação e transmissão por rádio e/ou televisão”, indicou a Presidência no Facebook. No decreto, Rajoelina afirmava que havia consultado os líderes da Assembleia e do Senado antes da dissolução. Eles negam. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Em discurso transmitido de local não revelado na segunda-feira, Rajoelina havia se recusado a renunciar, apesar da pressão dos protestos da Geração Z. Em sua primeira aparição pública desde que um contingente militar aderiu aos protestos, pediu que a Constituição fosse respeitada. Em outra publicação nas redes sociais, ele defendeu a dissolução do Parlamento como uma forma de “restabelecer a ordem no seio de nossa nação e reforçar a democracia”. Os protestos começaram por causa de cortes no abastecimento de água e energia elétrica, mas aos poucos passaram a incluir denúncias de corrupção, críticas a líderes políticos e reclamações pela falta de oportunidades no país. Pelo menos 22 pessoas morreram em confrontos com forças de segurança desde 25 de setembro, segundo a ONU. Rajoelina estava cada vez mais isolado. Ele perdeu o apoio da Capsat, unidade de elite que o havia ajudado a tomar o poder em um golpe em 2009. A unidade juntou-se aos manifestantes no fim de semana, afirmando que se recusava a atirar contra eles, e chegou a escoltar milhares na praça central da capital, Antananarivo. A Capsat declarou então que assumiria o comando das Forças Armadas e nomeou um novo chefe do Exército, o que levou Rajoelina a alertar, no domingo, sobre uma tentativa de golpe na ilha. Nesta segunda, uma facção da gendarmeria, força policial que remonta ao período colonial e apoia os protestos, também tomou o controle da instituição em uma cerimônia formal com a presença de altos funcionários do governo, segundo testemunha da Reuters. “Todo uso da força e qualquer comportamento impróprio contra nosso povo estão proibidos. A gendarmeria é uma força destinada a proteger pessoas, não os interesses de alguns indivíduos”, afirmou a Força de Intervenção da Gendarmeria Nacional em comunicado transmitido pela Real TV. Andry Rajoelina, então, fugiu do país argumentando nesta segunda-feira (13) que precisou se mudar para um lugar seguro para proteger a sua vida. A saída marca a segunda vez em poucas semanas que jovens manifestantes derrubam um governo em meio a uma onda de revoltas da chamada geração Z pelo mundo.
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