O papa Leão 14 pediu neste domingo (30), ao desembarcar no Líbano, que os libaneses abracem a reconciliação e permaneçam no país, dividido e atingido por uma crise que tem provocado sucessivas ondas de emigração. “Há momentos em que é mais fácil fugir, ou simplesmente mais conveniente ir para outro lugar. É preciso coragem real e visão de futuro para ficar ou retornar ao próprio país”, afirmou o pontífice a autoridades, diplomatas e representantes da sociedade civil, em discurso no palácio presidencial. Leão 14 também instou a população libanesa, marcada por profundas divisões sectárias e políticas, a seguir o “caminho da reconciliação”. O papa concluiu neste domingo uma visita de quatro dias à Turquia, onde defendeu a unidade dos cristãos, e seguiu para o Líbano levando uma mensagem de paz a um país mergulhado em crises e incertezas, agravadas pela recente escalada de tensão entre Hezbollah e Israel. Ele chegou ao aeroporto de Beirute por volta das 15h45 no horário local (10h45 em Brasília). A visita de dois dias ao país, de 5,8 milhões de habitantes e ampla diversidade religiosa, é a segunda e última etapa de sua primeira viagem internacional desde que foi eleito para comandar a Igreja Católica. O Líbano, conhecido por sua coexistência religiosa, enfrenta uma sucessão de crises desde 2019, incluindo um colapso econômico que agravou a pobreza, uma devastadora explosão em 2020 no porto de Beirute, e a recente guerra da facção extremista Hezbollah com Israel. Apesar do importante papel político que os cristãos desempenham no país, seu número diminuiu nas últimas décadas, sobretudo devido à emigração dos jovens. O Líbano é o único país árabe onde a presidência da república é reservada a essa comunidade. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Leão 14, de nacionalidade americana e peruana, é o primeiro papa a visitar o Líbano desde Bento 16, em 2012. O presidente Joseph Aoun, o primeiro-ministro Nawaf Salam e o presidente do Parlamento, Nabih Berri, o receberão à tarde, antes que faça um primeiro discurso diante das autoridades e do corpo diplomático às 18h (13h no horário de Brasília). O Hezbollah, que conta com apoio do Irã, instou neste sábado (29) o papa a rejeitar “a injustiça e a agressão” de Israel contra o Líbano. A facção perdeu seu líder militar, Haytham Ali Tabatabai, em um ataque israelense em 23 de novembro. Apesar do cessar-fogo alcançado há um ano, o Exército israelense intensificou seus ataques no país nas últimas semanas, principalmente no sul, sob o argumento de minar as estruturas da milícia. No voo entre Istambul e Beirute, o papa também falou com jornalistas sobre o conflito entre Israel e Palestina e voltou a defender a solução de dois estados como caminho para a paz. “A Santa Sé apoia publicamente a proposta de uma solução de dois Estados há vários anos. Todos sabemos que Israel prossegue sem aceitá-la. Mas nós a consideramos como a única solução capaz de resolver o conflito atual”, disse. Leão 14 disse que mencionou o tema durante seu encontro na quinta-feira (27) em Ancara com o presidente turco Recep Tayyip Erdogan, “que aprova plenamente esta proposta”. “A Turquia desempenha um papel importante no processo”, disse o pontífice. A Santa Sé reconhece desde 2015 o Estado da Palestina. Na Turquia, Leão 14 fala em armênios ‘valentes’ Leão 14 concluiu pela manhã a primeira etapa de sua viagem à Turquia com uma cerimônia litúrgica solene na catedral ortodoxa de São Jorge, em Istambul. “Neste período de conflitos sangrentos e violência, em lugares próximos e distantes, os católicos e os ortodoxos são chamados a ser construtores de paz”, declarou. Pouco antes, elogiou na catedral armênia de Istambul “o valente testemunho cristão do povo armênio ao longo dos séculos, frequentemente em circunstâncias trágicas”. O papa fez referência, desta maneira, à delicada questão do genocídio armênio sem nomeá-lo. A Turquia refuta com virulência esta qualificação dos massacres de 1915-1916 sob o Império Otomano. Para Mardik Evadian, empresário armênio presente na catedral, “hoje em dia, não é importante falar de genocídio ou não”. “É história antiga. Sofremos perdas humanas, famílias inteiras, mas vivemos neste país e estamos felizes em fazê-lo. Pode ter havido problemas no passado, mas hoje em dia há paz”, disse. Na Turquia, Leão 14 recebeu uma calorosa recepção por parte da pequena comunidade católica. Mas sua visita foi discreta, sobretudo devido ao forte dispositivo de segurança que impediu qualquer contato com o exterior. Ele tem se mostrado prudente, respeitando as sensibilidades políticas de seus interlocutores e reiterando suas mensagens a favor da unidade e do respeito à diversidade religiosa.
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