O ano de 2026 não se anuncia como mera continuidade do calendário político. Ele se impõe como uma encruzilhada histórica, marcada por disputas abertas, silêncios estratégicos e rearranjos geopolíticos acelerados. Do ponto de vista afrocentrado, não estamos diante apenas de eleições nacionais, crises regionais ou conflitos internacionais isolados. Estamos diante da atualização de uma lógica antiga, a de que algumas vidas importam mais do que outras, e de que o mundo negro, em África, nas Américas e na diáspora, continua sendo convocado a pagar o custo mais alto das crises do sistema internacional. No Brasil, 2026 será novamente ano eleitoral. O presidente Lula tenta a reeleição em um cenário ambíguo, no qual a extrema direita ainda busca definir sua melhor aposta eleitoral, enquanto o chamado centrão segue operando como fiel da balança, aguardando quem oferece mais em troca de apoio político. Trata-se de um jogo conhecido, mas que produz efeitos concretos e perversos sobre os mesmos corpos de sempre. Enquanto o debate público se concentra em alianças, pesquisas e estratégias eleitorais, seguem os ataques a terreiros de religiões de matriz africana, aprofundando um racismo religioso que nunca foi devidamente enfrentado pelo Estado brasileiro. Paralelamente, continuam os assassinatos, ameaças e criminalização de lideranças indígenas e quilombolas em luta pelo reconhecimento de seus territórios. Em pleno século 21, a disputa pela terra no Brasil segue sendo mediada pela violência, pela omissão institucional e pelo silêncio conveniente. :: Quer receber notícias do Brasil de Fato RJ no seu WhatsApp? :: Esse cenário revela um paradoxo incômodo. Falamos em democracia enquanto toleramos a destruição cotidiana de povos originários e comunidades negras tradicionais. A pergunta que se impõe é direta e desconfortável. Que democracia é essa que se constrói sobre corpos racializados descartáveis. Que projeto de país é possível quando a vida negra e indígena continua sendo tratada como entrave ao desenvolvimento. Se ampliarmos o olhar para a América Latina, o quadro se torna ainda mais explícito. O imperialismo estadunidense, que nunca deixou de existir, reaparece agora de forma menos disfarçada. Donald Trump, em sua tentativa de recuperar protagonismo político, não apresenta novidade alguma. Ele apenas atualiza a velha Doutrina do Big Stick, formulada no início do século 20, segundo a qual os Estados Unidos têm o direito de intervir militar, econômica e politicamente em qualquer território que ameace seus interesses. O que podemos chamar de Corolário Trump é a versão contemporânea dessa política do porrete, expressa por sanções econômicas, golpes híbridos, chantagens diplomáticas, sequestros políticos e desestabilização permanente. O sequestro de Nicolás Maduro, na Venezuela, é emblemático desse momento. Mais do que um episódio isolado, ele sinaliza que certos países latino americanos continuam sendo tratados como quintais, onde a soberania é tolerada apenas enquanto não desafia a ordem estabelecida. O mais revelador, porém, não é apenas o ato em si, mas o tratamento dado a ele. O silêncio ou a naturalização do episódio por parte da grande mídia internacional demonstra como a violência imperial segue sendo aceita quando direcionada a governos e povos considerados inconvenientes. Essa lógica de seletividade atinge seu grau máximo quando observamos o que acontece no continente africano. Enquanto somos bombardeados diariamente com imagens e análises sobre os protestos no Irã, importantes sem dúvida, quase nada se diz sobre o Sudão do Sul, país dilacerado por conflitos internos, interesses externos e uma guerra civil permanente que ceifa vidas sem qualquer comoção internacional. Pouco se fala sobre a instabilidade política em Moçambique, atravessada por interesses energéticos, violência paramilitar e disputas territoriais que têm como pano de fundo a exploração de recursos naturais por empresas estrangeiras. Mais grave ainda é o silêncio absoluto sobre a tentativa de assassinato do presidente Ibrahim Traoré, de Burkina Faso, jovem liderança que simboliza uma ruptura com o neocolonialismo francês e com a tutela militar estrangeira no Sahel. Quando um presidente africano sobrevive a uma tentativa de assassinato ligada a rearranjos geopolíticos e isso não vira manchete global, a mensagem é cristalina. Há vidas presidenciais que importam e outras que não. Talvez nenhum exemplo seja tão brutal quanto o progressivo desaparecimento do genocídio em Gaza das capas dos jornais neste início de ano. Após meses de destruição sistemática, mortes em massa e denúncias consistentes de crimes contra a humanidade cometidos por Israel, o tema simplesmente some do noticiário, como se o extermínio pudesse ser normalizado pelo cansaço da audiência. O que está em jogo aqui não é apenas a Palestina, mas a própria arquitetura moral da ordem internacional. Quando um genocídio pode ser relativizado, silenciado ou justificado, o recado é inequívoco. Vidas árabes, africanas e negras seguem valendo menos. Pan-africanismo Uma perspectiva afrocentrada nos obriga a romper com essa naturalização. Afrocentrar o olhar não é apenas mudar o foco geográfico da análise, mas questionar quem controla as narrativas globais, quem define o que é crise, o que é democracia, o que é barbárie e o que é civilização. Quando observamos 2026 a partir desse lugar, torna-se evidente que a desigual valoração das vidas não é uma falha do sistema internacional, mas seu princípio organizador. A modernidade ocidental foi construída sobre o colonialismo, a escravidão e a hierarquização racial da humanidade. Negros, indígenas, árabes e africanos continuam, em grande medida, ocupando o lugar sacrificial dessa história. É exatamente por isso que a movimentação recente da União Africana não pode passar despercebida. Ao retomar o pan-africanismo não como retórica identitária, mas como metodologia política, a União Africana ensaia a construção de uma terceira via geopolítica. Não se trata de alinhar se automaticamente ao Ocidente, nem substituir antigas dependências por novas formas de subordinação a outros pólos de poder. Trata-se de buscar soberania política e econômica, integração regional africana, valorização das diásporas como Sexta Região, cooperação Sul-Sul, disputa por reparações históricas e autonomia epistêmica. O pan-africanismo contemporâneo não é nostalgia. É resposta concreta às limitações de um sistema internacional que nunca incluiu plenamente os povos negros como sujeitos de direito. Esse movimento ainda é frágil, atravessado por contradições e riscos, mas representa talvez a tentativa mais consistente do mundo negro de não ser apenas objeto da história, e sim sujeito de um novo arranjo global. E é aqui que o Brasil precisa decidir de que lado da história deseja estar. Somos o país com a maior população afrodescendente fora da África. Ignorar o pan-africanismo contemporâneo é abdicar de uma parte central de nossa própria identidade histórica e política. Mais do que isso, é abrir mão de um papel estratégico no Sul Global. A Bahia, em particular, ocupa lugar central nessa encruzilhada. Não por folclore ou exotismo cultural, mas por densidade histórica, política e simbólica. A realização do Encontro da Diáspora Africana nas Américas, em Salvador, foi um sinal claro de que algo novo pode emergir se houver continuidade, inteligência estratégica e vontade política. O desafio é transformar eventos em processos, memória em estratégia e identidade em projeto político. 2026 será, portanto, um ano de escolhas. Ou seguimos aceitando que algumas vidas valem mais do que outras, que algumas guerras merecem indignação enquanto outras são silenciadas, que alguns povos devem obedecer enquanto outros mandam. Ou começamos a levar a sério a construção de uma terceira via, ancorada no pan-africanismo, na justiça racial e na soberania dos povos historicamente subalternizados. Não se trata de romantismo ou utopia. Trata-se de sobrevivência política, simbólica e material. A história nos ensina que, quando o mundo entra em crise, os corpos negros são os primeiros a serem descartados. A diferença, agora, é que começam a surgir sinais, ainda frágeis, de que não aceitaremos mais esse destino sem luta. 2026 nos dirá se essa luta terá fôlego ou se será novamente silenciada. *Richard Santos, também conhecido como Big Richard, é professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), pioneiro da cultura Hip Hop no Brasil. Coordena o grupo de pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo (UFSB/CNPQ). ** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.
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