Uma relação pioneira na América Latina, resistente a transformações sociais e crises bilaterais, e que completa 200 anos nesta sexta-feira (23). Em 1826 as relações diplomáticas entre Brasil e Santa Sé foram formalmente iniciadas, com o papa Leão 12 aceitando cartas credenciais do monsenhor Francisco Corrêa Vidigal, enviado pelo imperador dom Pedro 1º. A data é celebrada nesta sexta com missa na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma, presidida pelo cardeal italiano Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano. Além de cardeais e bispos brasileiros, também o ministro Mauro Vieira (Itamaraty) está presente. Marcada para as 12h (de Brasília), a missa é transmitida ao vivo pelos canais do Vaticano. Além de ser considerado o país com o maior número de católicos do mundo –182 milhões, segundo dados de 2025 do Vaticano–, o Brasil tem a relação diplomática mais longeva com a Santa Sé na América Latina. Argentina, Chile e Peru só atingiriam esse status mais de 50 anos depois, em 1877. Como governo central da Igreja Católica, a Santa Sé foi uma das primeiras a estabelecer relações diplomáticas com o Brasil, que buscava o reconhecimento internacional da Independência, proclamada em 1822. Em 1825, Portugal, França e Império Austríaco já tinham dado suas chancelas. “Temos na Igreja Católica um elemento extremamente importante para a afirmação do Brasil enquanto Estado. O reconhecimento da Independência em 1826 foi essencial para que o Brasil pudesse ser reconhecido pelas demais potências europeias”, diz à Folha o embaixador Everton Vieira Vargas, representante do Brasil junto à Santa Sé. No cargo desde novembro de 2023, o embaixador destaca a convergência atual entre Vaticano e Brasil em torno de temas como combate à pobreza, fortalecimento do multilateralismo e as questões da paz e do ambiente. Foram consideradas um sinal de prestígio a ida, no ano passado, do cardeal Parolin a Belém, para a COP30, a sua participação no G20 do Rio, em 2024, e a visita ao Brasil naquele ano, quando foi recebido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Também a Venezuela e o continente africano são assuntos de conversas recentes. “Temos um diálogo muito fluido com a Santa Sé sobre a situação na Venezuela, sobre a questão dos refugiados e a importância de se levar paz social ao país”, afirma o embaixador. Ele dá como certa uma viagem do papa Leão 14 ao Brasil em breve, com maior chance de ocorrer a partir de 2027, para não coincidir com o clima de eleições presidenciais. A fase atual foi precedida por anos de distanciamento, sob o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022). O então presidente não teve interesse em ser recebido pelo papa Francisco no Vaticano —embora tenha viajado a Roma para outros compromissos—, não esteve na canonização da Irmã Dulce e mostrou divergências em torno do Sínodo da Amazônia. Ao longo de 200 anos, episódios mais graves abalaram as relações. O mais importante deles aconteceu ainda no século 19, na chamada Questão Religiosa. A crise dos anos 1870 envolveu maçonaria, interferência do governo de dom Pedro 2º em temas da Igreja e a prisão de dois bispos, mas foi superada. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Na fase republicana, nova tensão em torno da representação brasileira na Santa Sé. Internamente, havia o debate sobre se a existência desse posto diplomático feria a separação entre Igreja e Estado, com parte da classe política defendendo o seu fim. “A questão foi discutida por vários anos. Em 1919, o governo brasileiro decide elevar o estatuto da representação para embaixada, como é hoje”, afirma Jair Santos, pesquisador no pós-doutorado das relações entre a Igreja e o Brasil na Escola Francesa de Roma. Também dessa época, outro marco dos 200 anos novamente colocaria o Brasil à frente dos vizinhos: a nomeação em 1905 de Joaquim Arcoverde como cardeal, o primeiro da América Latina. “Hoje isso parece estranho porque o Colégio Cardinalício tem mais de 200 cardeais, do mundo inteiro. Mas, no início do século, no pontificado de Pio 10, havia cerca de 60 cardeais e só dois não eram europeus”, diz o pesquisador. “A diplomacia brasileira, chefiada pelo barão de Rio Branco, teve envolvimento direto. Fez relatórios e audiências com o papa, argumentando por que o primeiro cardeal latino-americano tinha de ser brasileiro”, afirma Santos. Ao longo do século 20, outros momentos de crise entre Santa Sé e Brasil aconteceram durante a ditadura militar, com a perseguição e morte de religiosos e abusos contra os direitos humanos, mas o sigilo dos arquivos do Vaticano dificulta o entendimento de como o período foi tratado do ponto de vista diplomático. Atualmente, os documentos disponíveis para consulta vão até o fim do papado de Pio 12, em 1958.
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