No último 4 de maio, quando o Prêmio Pulitzer 2026 foi anunciado, Hannah Natanson, jornalista do Washington Post de 29 anos, foi aplaudida de pé, com entusiasmo, pelos colegas de Redação. Ganhadora na categoria Serviço Público, Hannah tem sido atacada por publicar reportagens sobre os impactos do projeto político de Donald Trump no funcionalismo federal. Sua casa foi alvo de uma operação do FBI, com apreensão de celulares e computadores sob a justificativa de investigar vazamentos de documentos confidenciais. Embora a agência tenha afirmado que ela não era foco direto da investigação, o episódio foi tratado pelo Washington Post como uma medida excepcional contra uma jornalista. Mulheres jornalistas vêm sofrendo perseguição, intimidação e violência quando seu trabalho confronta estruturas de poder. Relatório divulgado pela ONU Mulheres em abril deste ano mostra que, desde 2020, dobraram os registros policiais relacionados à violência online contra jornalistas. Quase um quarto das entrevistadas relatou ansiedade ou depressão diretamente associadas aos ataques sofridos. Entre profissionais da mídia, 45% afirmam reduzir a participação nas redes sociais para evitar violência. Mais de 20% admitem autocensura também no próprio trabalho jornalístico. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Há intenção e trabalho coordenado nos ataques. A extrema direita entendeu que minar as condições de participação no debate público pode ser mais eficiente do que censurar formalmente. Campanhas coordenadas de difamação, divulgação de dados pessoais, pornografia produzida por inteligência artificial, perseguição a familiares, ataques racistas e misoginia organizada em massa. Assim, mulheres jornalistas medem palavras cada vez mais, evitam determinados temas, abandonam redes sociais, restringem a circulação pública, calculam excessivamente os riscos antes de publicar. A autocensura vai se normalizando. O aplauso a Hannah Natanson, além da admiração profissional, é o reconhecimento de quem sabe, como ela, o custo crescente de fazer jornalismo. É justamente neste momento, em que a misoginia se consolida como ferramenta política, que uma das principais estruturas internacionais dedicadas à produção de dados e articulação sobre desigualdade de gênero está ameaçada. A proposta de fusão da ONU Mulheres com outro organismo das Nações Unidas provocou reação imediata de movimentos feministas. Estruturas especializadas produzem prioridade política. Instituições como a ONU Mulheres organizam indicadores internacionais, financiam pesquisas, pressionam governos, articulam políticas públicas e, principalmente, nomeiam violências que historicamente foram tratadas como irrelevantes, privadas ou inevitáveis. O relatório sobre violência contra mulheres jornalistas é um exemplo da importância da agência ao mostrar que a misoginia é mecanismo contemporâneo de silenciamento político. Desmontar estruturas capazes de produzir dados e linguagem sobre desigualdade de gênero reduz a capacidade coletiva de enfrentá-la. E regimes autoritários prosperam quando perseguições deixam de ser percebidas como ataques à democracia para serem reduzidas a desgaste inevitável do debate público. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
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