Após quase um ano de discussões, o governo do Reino Unido anunciou nesta terça-feira (30) o maior plano de investimento em defesa do país desde a Guerra Fria. Serão aplicados 15 bilhões de libras (R$ 102 bilhões) nos próximos quatro anos. A ação é provavelmente a última grande medida do primeiro-ministro Keir Starmer, que anunciou na semana passada que deixará o cargo —o que deve acontecer até o fim de julho. Para críticos e analistas, ela demorou e pode ser insuficiente ante a velocidade geopolítica atual. Os britânicos, que com R$ 488 bilhões gastos em 2025 têm o quinto maior orçamento militar do mundo segundo o IISS (Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, de Londres), discutem a ampliação nos investimentos em armamento desde que a Rússia anexou a Crimeia, em 2014. A invasão da Ucrânia de 2022 e a volta de Donald Trump ao poder nos Estados Unidos no ano passado, buscando retirar o peso de Washington da defesa europeia, deram senso de urgência ao debate. Em julho de 2025, foi publicada a Revisão Estratégica de Defesa. O texto, que por óbvio pode ser revisado por futuros governos, prevê a preparação para um confronto com os russos. Na semana passada, foi anunciada a compra de 12 caças F-35A dos EUA com capacidade para o emprego de armas nucleares táticas, de menor potência, que foram reinstaladas pelos americanos no Reino Unido. Starmer também se comprometeu com a meta de gasto de 5% do PIB em defesa até 2035, 3,5% disso em capacidades militares e 1,5%, em infraestrutura. Isso foi acertado para agradar Trump na cúpula da Otan, a aliança militar liderada pelos EUA, no ano passado. O grupo fará sua reunião anual em julho na Turquia, e Starmer quer ter algo para mostrar antes de deixar o cargo. “Estamos aumentando [o gasto militar] para 2,7% [do PIB], colocando-o na trajetória de alcançar 3%. O plano de investimento nos leva a 4,2%”, disse, mirando 2035. Além de caças e outros equipamentos, o foco do programa é a chamada guerra do futuro: combate com drones e sistemas alimentados pela IA (inteligência artificial). Com isso sendo testado todos os dias na linha de frente na Ucrânia, demonstrado no Oriente Médio e aplicado por potências como a China, a sensação no Reino Unido é de atraso de cronograma. Em 2025, os britânicos gastaram 2,38% do PIB com defesa. É menos que os mais de 4% da líder continental, a Polônia, e um pouco superior aos 2,14% da maior economia europeia, a Alemanha. Mas Berlim está em meio a uma aceleração que já viu dobrar seu investimento militar desde 2021, e deve chegar a 2029 com cerca de 3% do PIB comprometidos com o setor. Starmer disse que será necessário cortar dinheiro de outras áreas, como projetos de estradas e energia, para custear a mudança. “Elas [as outras áreas] são importantes, mas não tão imediatamente vitais. Tudo isso é sobre fazer escolhas necessárias, as escolhas corretas para proteger nossa nação”, afirmou. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Ele também anunciou a criação de um fundo de R$ 340 bilhões para estimular projetos de defesa de empresas britânicas, a ser implementado no longo prazo. O Reino Unido é líder em alguns setores, como o de mísseis de cruzeiro, sistemas aeroespaciais e construção naval. O país também está desenvolvendo um caça de sexta geração em parceria com Japão e Itália, projeto que poderá ganhar a participação do Canadá apesar das dúvidas sobre sua viabilidade —neste mês, Alemanha e França desistiram de seu novo avião conjunto, após anos de debate. O secretário-geral da Otan, o holandês Mark Rutte, elogiou o plano. “Um Reino Unido mais forte nos faz mais seguros”, disse. O clube militar tem 32 membros, 30 deles na Europa.
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