Este artigo apresenta a criação da 1ª Parada do Orgulho Macumbeiro, contextualizando-a como uma manifestação política, cultural e ancestral dos povos de terreiro e discutindo sua importância para o debate sobre liberdade religiosa, direito à cidade, combate ao racismo religioso e fortalecimento da democracia. Mais do que registrar um evento, busca contribuir para a construção da memória de uma iniciativa inédita e ampliar o debate público sobre os direitos dos povos e comunidades tradicionais de matriz africana. No dia 31 de maio de 2026, São Paulo recebeu a 1ª Parada do Orgulho Macumbeiro, idealizada e coordenada por Mãe Su de Nanã. A programação teve início com o Colo Ancestral e o primeiro encontro de Iyás, realizados na Câmara Municipal de São Paulo. Para além de uma roda de conversa, o encontro constituiu um espaço de acolhimento, fortalecimento e construção coletiva voltado às Iyás — mães de santo, lideranças de terreiro e mulheres de axé —, reconhecendo que elas sustentam não apenas suas comunidades religiosas, mas também redes de cuidado, memória e resistência. Ao promover reflexões sobre autoestima, autocuidado, o papel das mulheres de axé na sociedade, as trocas afetivas e espirituais e a valorização da cultura de matriz africana, o encontro reafirmou a importância de criar espaços onde essas mulheres possam compartilhar experiências, fortalecer vínculos e ser reconhecidas como protagonistas de suas próprias histórias. Em um contexto marcado pelo racismo religioso e pelas desigualdades de gênero, a iniciativa também colocou no centro do debate um tema urgente: o feminicídio de mulheres negras. Frente a essa realidade, os terreiros não podem ser compreendidos apenas como espaços de prática religiosa, mas também como territórios de cuidado, escuta e construção de redes de solidariedade. Debater o feminicídio entre mulheres negras significa reconhecer que o racismo estrutural, o sexismo e as desigualdades sociais ampliam sua vulnerabilidade e dificultam o acesso às políticas de proteção. Promover esse diálogo é reafirmar uma tradição ancestral de defesa da vida e o apoio coletivo para que nenhuma mulher enfrente a violência sozinha. Também é importante ressaltar que os povos de terreiro não podem ser reduzidos à condição de simples grupos religiosos. São povos e comunidades tradicionais, portadores de formas próprias de organização social, conhecimentos, práticas culturais, modos de cuidado, linguagens, musicalidades e relações específicas com seus territórios e ancestrais. Esse reconhecimento encontra respaldo na Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), no Decreto nº 6.040/2007 e, mais recentemente, no Decreto nº 12.278/2024, que instituiu a Política Nacional para Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro e de Matriz Africana. Nesse contexto, quando uma mulher é assassinada, quando um terreiro é atacado ou quando uma comunidade tradicional sofre discriminação, não está em risco apenas a liberdade religiosa; também são ameaçados conhecimentos ancestrais, formas coletivas de organização e patrimônios culturais transmitidos entre gerações. Reconhecer os povos de terreiro como povos tradicionais significa reconhecer seu direito à existência, à memória, à preservação de sua cultura e à construção de políticas públicas capazes de garantir sua proteção integral. É diante desse cenário de desigualdades, apagamentos e violações de direitos que nasce a Parada do Orgulho Macumbeiro. A concentração ocorreu nas escadarias do Theatro Municipal de São Paulo, de onde teve início a caminhada até a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Largo do Paissandu. A escolha desse percurso não é aleatória. Enquanto o Theatro Municipal simboliza um projeto de cidade historicamente associado às elites paulistas, a Igreja do Rosário dos Homens Pretos representa um dos principais marcos da presença e da resistência da população negra no centro da capital. Ao longo dos séculos, a igreja sobreviveu às transformações urbanas que expulsaram populações negras do centro de São Paulo, mas sua permanência simboliza a resistência daqueles que, apesar das sucessivas tentativas de apagamento, continuam reivindicando seu lugar na cidade e na história. Foi nesse contexto que a caminhada ganhou um dos momentos mais emocionantes da Parada. Mãe Sarah, Rainha Conga da cidade de São Paulo, compartilhou uma memória que conecta sua trajetória familiar à história da igreja: “Minha mãe era Ekedi, no terreiro de Candomblé, e meu pai, Ogã. Com a morte da minha mãe, meu pai deixou a religião. Ficou muito magoado com tudo o que viveu, porque não tivemos apoio do terreiro durante a doença dela. Antes de morrer, minha mãe pediu que a missa de sétimo dia fosse realizada na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Ela dizia que ali os negros eram acolhidos independentemente da religião. Quando chegamos à igreja, fomos recebidos por senhoras negras que nos abraçaram num momento em que estávamos completamente desamparados. Meu pai tornou-se um devoto da irmandade, e nós crescemos naquele espaço. Fizemos catecismo, primeira comunhão, construímos nossa história ali. Quando ele morreu, prometi que nunca mais pisaria naquela igreja. A dor era grande demais. Mas, anos depois, durante a Marcha da Consciência Negra, senti que meu pai me conduzia novamente para aquele lugar. Entrei, fui acolhida mais uma vez e ouvi da diretora da irmandade que, independentemente da minha religião, eu continuava sendo irmã deles. Aquilo transformou minha vida. Compreendi que podia seguir meu caminho na Umbanda sem deixar de pertencer àquela comunidade. A igreja e a irmandade me ensinaram que acolhimento e respeito são maiores que qualquer intolerância religiosa.” O relato evidencia como a história das religiões de matriz africana e da Igreja do Rosário se entrelaça na experiência da população negra. Longe de uma relação marcada apenas por conflitos, a memória preserva também experiências de solidariedade, cuidado e pertencimento. Foi nesse mesmo espírito que a Parada realizou a tradicional lavagem das escadarias da igreja. Trata-se de uma prática ancestral que ressignifica o espaço público por meio das águas, das ervas, das flores e dos cânticos. Ritual herdado das mulheres negras organizadas nas irmandades religiosas, a lavagem transformou-se, ao longo da história, em símbolo de memória, dignidade e resistência. Ao levar essa tradição ao centro de São Paulo, a Parada reafirmou que os povos de matriz africana não reivindicam apenas liberdade religiosa, mas também o direito de ocupar a cidade, preservar sua memória e participar da construção da história brasileira. No encerramento da caminhada, Mãe Su de Nanã sintetizou o sentido político daquele dia: “Foi um grito, foi uma confirmação, foi a resistência. Nós somos a cara da negritude; nós somos a cara das matrizes africanas. Por muitos anos fomos judiados, desprezados, sofremos, mas fomos nós que ajudamos a construir este país, com fé, suor e sangue. Hoje foi uma confirmação de que não podemos abaixar nossas cabeças. Temos que ocupar os lugares que são nossos por direito. Que viva nossa negritude, que viva nosso povo de axé. E viva a 1ª Parada do Orgulho Macumbeiro! Axé.” A primeira Parada do Orgulho Macumbeiro não foi apenas uma celebração da fé. Foi uma afirmação pública de que democracia também se constrói com reconhecimento, memória e reparação histórica. Em um país onde o racismo religioso, a violência política e as desigualdades raciais seguem estruturando o acesso aos direitos, ocupar o centro da cidade tornou-se um gesto de reivindicação democrática. Durante décadas, o mito da democracia racial ocultou as marcas deixadas pela escravidão e dificultou o reconhecimento das desigualdades vividas pela população negra. A ausência de políticas de reparação após a abolição permitiu que antigas hierarquias continuassem produzindo exclusão nos territórios, nas instituições e nos espaços de poder. Nesse contexto, mobilizações como a Parada do Orgulho Macumbeiro não reivindicam privilégios; reivindicam o cumprimento dos próprios princípios democráticos: o direito à existência, à memória, à liberdade religiosa, à participação política e ao reconhecimento dos povos de terreiro como sujeitos fundamentais da história brasileira. Ao transformar as ruas do centro de São Paulo em território de ancestralidade, cultura e resistência, a Parada do Orgulho Macumbeiro se apropriou do debate político como uma forma de afirmar que a democracia brasileira só será plena quando reconhecer, proteger e valorizar aqueles e aquelas que, por séculos, ajudaram a construir o país enquanto permaneciam à margem de sua narrativa oficial. Axé. * Agnes Oyasomi (Agnes Karoline de Farias Castro) é cientista social pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), especialista em direitos humanos pelo Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF/Unifesp), pesquisadora do Observatório de Violência contra as Mulheres do CAAF/Unifesp e mestranda em filosofia na Unifesp. Atua como educadora popular e Promotora Legal Popular (PLP) e é fundadora da Casa das Yabás – Saber e Cura. ** Nanda Omiakesi (Fernanda Ferreira Clemente) é graduanda em ciências sociais pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora com ênfase em antropologia. Atua como articuladora comunitária, produtora cultural e educadora social. Desenvolve projetos voltados aos direitos humanos, à educação, ao fortalecimento comunitário e à preservação da memória e do território, com foco na identidade racial. *** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
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