De volta à cúpula do Brics depois da ausência no ano passado, Xi Jinping discursou na edição em Nova Déli no fim de semana em tom de desafio. A uma audiência construída nos últimos anos para atender aos interesses geopolíticos chineses, Xi disse ao grupo que a política de “pátio pequeno, cercas altas” não só não conteria o desenvolvimento do seu país como encurrala quem a constrói. Era uma referência direta aos Estados Unidos e a uma estratégia que consiste em barrar a exportação de um punhado de tecnologias sensíveis sem mexer no resto do comércio, formulada pela analista Samm Sacks em 2018 e convertida em política de governo por Jake Sullivan quatro anos depois. Foi também uma forma de demonstrar força e preparar no Brics o terreno para o encontro que ele deve ter com Trump na semana que vem em Washington. É que, mesmo sediada na Índia, a cúpula deste ano serviu basicamente à estratégia chinesa —um convescote de economias irritadas demais com os americanos, mas cautelosas o suficiente para não mencionar o país e seu líder nominalmente. Pequim presidirá o grupo no ano que vem e quer fazer do Brics seu estilingue contra a hipocrisia ocidental, sem que para isso precise assumir um chapéu de antiamericano. Longe das manchetes, o bloco fez coisas mais concretas do que costuma admitir, ao apoiar as candidaturas de Irã e Etiópia à Organização Mundial do Comércio (OMC) e defendeu que Teerã entre justamente na instituição que a arquitetura de sanções americanas tenta contornar. China, terra do meio Receba no seu email os grandes temas da China explicados e contextualizados Também endossou um mecanismo de antecipação de recebíveis para pequenas exportadoras, uma bolsa de grãos, uma rede de saúde mental em Bengaluru e só. A declaração final não trouxe uma linha sobre a guerra na Ucrânia, criticou o protecionismo sem dar nome ao protecionista e encontrou espaço para registrar que nenhuma mulher jamais foi eleita secretária-geral da ONU (embora não faça nenhuma cobrança ou promessa quanto ao tema, urgente considerando ser este o último ano sob a batuta de António Guterres). O único parágrafo dos 140 em que o bloco cobra algo de si mesmo trata de minerais críticos, pedindo cadeias diversificadas e resilientes ao mesmo tempo em que reafirma o direito soberano de cada país sobre seus depósitos. Pode abrir margem para criticar americanos e suas tarifas, mas na prática mira a própria China, que refina quase todas as terras raras do mundo e boa parte do lítio e do cobalto. Até por conta disso, minha aposta é que esse parágrafo vira decoração já na quinta-feira (24) data em que Xi deve ser recebido na Casa Branca. Segundo a Bloomberg, Washington guardou para depois da reunião o relatório sobre excesso de capacidade produtiva que poderia recomendar tarifa adicional de 7,5% sobre produtos chineses, e Trump quer sair da mesa com licenças de exportação de terras raras, do jeito que em maio saiu de Pequim com uma promessa de compras agrícolas. Se o negócio fechar, a China terá conseguido sozinha, doze dias depois de assinar que essas cadeias deveriam ser diversificadas, aquilo que os outros nove países do bloco vão continuar pedindo em declaração. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
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