A dirigente da extrema direita venezuelana María Corina Machado regressou ao país após dez meses no exterior. A opositora, que deixou a Venezuela clandestinamente no ano passado, ingressou por via terrestre pela fronteira com a Colômbia no domingo (25). Seu retorno ocorre em um momento em que a Mesa de Diálogo Nacional avança em acordos de convivência democrática e reformas institucionais. Enquanto setores da oposição e do governo buscam a estabilidade política, a líder extremista tenta tumultuar as negociações para impor uma agenda de confrontação.Durante a primeira coletiva de imprensa em território venezuelano, Machado defendeu uma nova constituição para o país e agradeceu ao governo estadunidense pelo ataque militar do dia 3 de janeiro. “Quero agradecer ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao governo dos Estados Unidos e ao secretário de Estado, Marco Rubio, porque, graças à sua visão, sua coragem e à ação de 3 de janeiro, abriu-se esta comporta, a liberdade que vai permitir que a Venezuela avance em uma transição democrática e que consolidemos o nosso país como o maior aliado que os Estados Unidos jamais terão tido em nossa região”, declarou Machado. “Regressei, portanto, para mobilizar a sociedade, contribuir, organizar ainda mais todas as nossas equipes e redes cidadãs, ouvir cada cidadão, incorporar todos os setores, todas as organizações políticas e civis na construção deste novo projeto de país nesta nova república que emerge. Regressei para terminar uma tarefa e cumprir um mandato”, completou. Aposta no showA postura de María Corina Machado mantém a aposta no espetáculo político e na dependência de apoio externo. A líder opositora tem histórico de apoio a sanções econômicas contra a população e tentativas de desestabilização constitucional. Em resposta ao discurso da extremista, a presidenta em exercício, Delcy Rodríguez, destacou que a política exige responsabilidade com o povo e cobrou o fim do espetáculo.“O processo de diálogo na Venezuela é algo muito sério que requer muita experiência, afastado de espaços neófitos. Recebi no Palácio de Miraflores a representante da Assembleia de 2015, Dinorah Figuera, e o doutor Jorge Rodríguez, presidente do Parlamento, após três jornadas de diálogo construtivo. Buscam-se reformas políticas, reformas de justiça e acompanhamento pós-terremoto para que a Venezuela recupere plenamente os seus ativos no exterior e recursos financeiros. Espero que sirva para que aqueles que pediram sanções tenham remorso e arrependimento”, disse a presidenta em exercício.“Deve cessar a política como um show, porque a política é algo muito sério que incide sobre a vida dos cidadãos. Tomara que haja arrependimento, retificação e contribuições para o país”, agregou Delcy Rodríguez. Isolamento políticoCom a continuidade das conversações conduzidas pelo parlamento e a aprovação de medidas de anistia, o regresso de María Corina evidencia seu isolamento político. O cientista político Walter Ortiz avalia que a presença da opositora em território nacional encerra as justificativas propagandísticas feitas no exterior e a coloca diante da realidade de uma sociedade que rejeita a violência.“Se você revisar todas as pesquisas de opinião, a grande maioria, 80%, concorda com o diálogo e mais de 90% é contra qualquer processo que altere sua paz e sua estabilidade, estando mais preocupada com seus problemas cotidianos: o poder aquisitivo, os serviços e a possibilidade de construir um futuro dentro da Venezuela. Esses são os problemas mais urgentes dos venezuelanos e venezuelanas neste momento”, avalia Ortiz.“Tudo isso é um problema severo que María Corina Machado tem, porque o problema é que ela está na Venezuela e estar aqui não é o mesmo que estar fora. Fora, ela podia fazer uma projeção propagandística para o meio interno, mas, ao estar dentro da Venezuela, toda desculpa termina por completo e só lhe resta atender de maneira clara aos desafios de fazer política no país neste novo momento político”, analisa o politólogo.Diálogo versus insurreiçãoO cenário venezuelano mostra que o caminho do diálogo institucional ganha força frente aos atalhos insurrecionais. A liderança de extrema direita se vê diante do dilema de aceitar as regras democráticas e o calendário eleitoral ou permanecer marginalizada, enquanto a população venezuelana prioriza a paz, a recuperação econômica e a soberania nacional.Por isso, na avaliação de Ortiz, a mera exigência de realização de eleições, à margem das transformações institucionais, é apenas um pretexto para a desestabilização. “Não adianta nada acelerar nenhum processo eleitoral se nem sequer podemos construir um roteiro em que todos possamos nos encontrar do ponto de vista institucional da organização de um processo eleitoral. Como disse pontualmente a presidenta Rodríguez a respeito dos processos eleitorais na Venezuela: que sejam uma solução e não um problema, nem um disparador de novos conflitos”, argumenta.“Parece que a bola neste momento está do lado da oposição porque, para brigar ou para entrar em acordo, são necessários dois, e esse segundo fator deve ter a força suficiente para que as decisões institucionais ganhem corpo e realmente se convertam em ativadores de processos de maior estabilidade, processo de reinstitucionalização e, finalmente, esse processo de transição do qual falou a presidenta, que tem como elemento o fortalecimento da democracia, tirando a Venezuela interna e politicamente dessa lógica de conflito existencial que marcou sobretudo mais de uma década neste tempo e que gerou muitíssimo desgaste e muitíssimos problemas”, afirma o cientista político.Para Ortiz, há outro elemento que costuma ser subestimado pelas forças políticas de direita, capaz de sustentar, ainda que a duras penas, o projeto socialista: a base social criada pela Revolução Bolivariana.“Estes dias eu tomava um café com uns amigos, e eles são de oposição, e basicamente me diziam que o chavismo era uma espécie de gato com sete vidas, ou seja, que tinha muitas possibilidades e capacidades de se mover no meio de qualquer quantidade de circunstâncias muito difíceis. Creio que há uma base populacional que é o chavismo, que é uma comunidade política e social que resistiu durante todos estes anos”, aponta. “Veja até onde os Estados Unidos tiveram que chegar para exercer pressão sobre a Venezuela — continua o politólogo —. Cometeram uma violação do direito internacional, sequestraram um presidente e uma primeira-dama, algo que não tem outro marco parecido na história contemporânea do mundo. Isso também é fruto de um processo de resistência em que o chavismo pôde triunfar e sustentar, com muitas dificuldades e a um custo muito alto, a paz do país, a integridade e a estabilidade”, conclui Ortiz.
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