Em março de 2022, o governo de Sebastião Melo, prefeito de Porto Alegre (RS) noticiou, entre outras ações, a colocação de grandes vasos com árvores ao longo da Rua João Alfredo, no bairro Cidade Baixa (CB). O prefeito Melo, visitando o bairro, falou: “Temos na Cidade Baixa mais um exemplo de que a união de esforços do poder público com o setor privado eleva a alma da cidade” (grifo meu). Ando cotidianamente pelas ruas da Cidade Baixa e constato a construção de grandes edifícios, proporcionando lucros as construtoras e impactos ambientais negativos a comunidade, como sombreamentos, barreiras para a circulação do ar, ilhas de calor, impermeabilização do solo, sobrecarga da infraestrutura urbana (esgoto, drenagens, ruas, energia, etc.), alagamentos, alteração da paisagem, segregação socioespacial, perda de referências / patrimônio histórico e cultural. Prefeito Melo, a sua parceria com as grandes empreiteiras resulta na entrega da alma da Cidade Baixa ao capital imobiliário. Para exemplificar, registro duas situações. A empresa Melnick construiu um edifício com 15 andares, ocupando terreno de aproximados 6000 m2, com entrada pela Rua José do Patrocínio – 527. Sabendo que tal empreendimento provocaria impactos de vizinhança e teria questionamentos e reações desfavoráveis, tratou, com apoio do governo Melo, de executar algumas ações para agradar, seduzir, cooptar moradores, pequenos empresários e frequentadores do bairro. Segundo a notícia já referida, uma das ações (em parceria com outras duas empresas) foi a implantação de vasos com árvores na João Alfredo, utilizando 6 espécies, sendo 3 exóticas (ao meu ver inadequado). Uma vez consolidado o seu empreendimento, o plantio, considerado por Melo como parte dos “esforços do poder público com o setor privado”, foi abandonado pelo seu governo e pelo setor privado. Árvores morreram, sem tratos culturais e sem reposição, outras resistem sem nenhum cuidado, alguns vasos foram ocupados por folhagens plantadas ou por reprodução natural e placas de identificação das espécies (meio de informação e educação ambiental) perderam o sentido, havendo também erros na identificação botânica, o que desinforma. Esta situação revela a falta de compromisso de empreendedores e governantes, que para viabilizar seus empreendimentos impactantes fingem serem preocupados, cuidadosos com a natureza, pessoas, moradores, mas depois de garantir seus objetivos, seu lucro, abandonam o bairro. Na sequência fotos da situação da “boa ação” da Melnick em janeiro de 2026. Foto 1: Vaso sem árvore (morreu – sem reposição), com espécies plantadas por moradores; Foto 2: Vaso sem placa (desinformação); Foto 3: árvore morta sem reposição. Foto 1: Vaso sem árvore (morreu – sem reposição), com folhagens plantadas por moradores; Foto 2: Placa indentificando guabiroba, mas a espécie que está no vaso é outra (Clusia) – desinformação; Foto 3: Árvore morta, sem reposição. A segunda situação é a ocupação de uma área verde municipal pela construtora Maiojama (que também tem como sócios, proprietários do Grupo RBS), na esquina das Avenidas Praia de Belas com Aureliano de Figueiredo Pinto. Esta área verde arborizada já foi cedida pelo município, em governos passados, para construção de uma sede (biocosntrução) da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), sendo retomada pela municipalidade. Em qualquer lugar da cidade áreas verdes públicas (parques, praças e verdes complementares) são importantes, pois cumprem funções ambientais, incluído retenção/absorção de águas, sendo fundamental cada metro quadro de área verde para a proteção de alagamentos, como os que ocorrem constantemente na Cidade Baixa. Fica a indagação: esta área verde (bem de uso comum do povo, como define a lei) cercada por empresa privada, há tempo sem acesso ao público, ocupada e impermeabilizada (antes, durante e depois da última grande enchente) com galpão e equipamentos de apoio a obra, foi cedida por tempo determinado, alugada, vendida ou doada pelo governo Melo a Maiojama? O povo da Cidade Baixa e de Porto Alegre merece uma resposta, que se não for dada pelo governo municipal, poderá ser obtida por cobrança de vereadores(as) ou do Ministério Público. Na foto 1, (Imagens do Google, disponíveis para uso público) é visualizada a área verde municipal assinalada por figura em vermelho (março de 2019), ao lado de terreno privado adquirido pela construtora (antigo estacionamento) para implantação de empreendimento imobiliário. Na foto 2, o terreno da Maiojama, com vegetação suprimida (outubro de 2020) para início das obras, e o verde público arborizado. Na foto 3, vista geral da ocupação dos terrenos (privado e público) hoje com edifício em construção Na foto 4 detalhe da ocupação da área verde municipal (galpão e equipamentos de apoio a obra) Na foto 5, detalhe do cercamento da área verde Pois é, como visto, parafraseando o dito popular “entregar a alma ao diabo”, o Governo Melo entregou a alma da Cidade Baixa ao capital imobiliário. *Nandi Barrios engenheiro florestal, com trabalhos em gestão ambiental, comunidades indígenas e quilombolas. **Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
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