A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) começou nesta semana em Belém (PA), marcando a primeira vez que o principal evento climático do planeta acontece na Amazônia. Com 57 chefes de Estado e 143 delegações reunidas, a conferência é presidida pelo Brasil e simboliza a tentativa do governo Lula de recolocar o país no centro da diplomacia ambiental global. A Cúpula de Líderes, que antecede oficialmente o início da conferência no dia 10, abriu os debates com anúncios de financiamento e apelos por uma transição energética justa. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que esta será a “COP da verdade” e lançou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), mecanismo que já reuniu mais de 5 bilhões de dólares para projetos de preservação em países do Sul Global. Apesar do simbolismo e dos avanços diplomáticos, ambientalistas avaliam que as conferências climáticas ainda enfrentam limites para responder à urgência da crise ambiental. É o caso de Márcio Astrini, coordenador-executivo do Observatório do Clima, que há mais de uma década acompanha as negociações internacionais sobre o clima. Ele avalia que a COP “não entrega tudo o que é necessário, mas despiora o mundo”, ao evitar retrocessos e manter vivo o diálogo entre os países. Para Astrini, a presidência brasileira é o “maior ativo” desta conferência. Em um cenário de tensões geopolíticas e descrédito dos acordos climáticos, o protagonismo do Brasil, segundo ele, cria a possibilidade de avanços concretos na transição energética e no financiamento climático. “Se algo pode andar nesta COP, virá da presidência brasileira”, afirma. Em entrevista ao Brasil de Fato, feita nesta sexta-feira (7), em Belém, Márcio Astrini analisa o papel do Brasil na COP30, comenta os primeiros anúncios feitos pelo governo e destaca a força das mobilizações populares que acontecem em paralelo ao evento. Brasil de Fato – Márcio, queria começar te perguntando: o governo brasileiro puxou a realização de uma cúpula de líderes separada da COP em si. Como você avalia essa movimentação? Ela esvazia os debates que virão depois? Não. Isso está virando uma rotina: ter uma cúpula de líderes que abre a conferência. O que foi feito antes, alguns dias antes, foi por uma questão de logística mesmo – para manejar melhor o trânsito e garantir acomodação adequada. Os presidentes vêm, participam da cúpula e vão embora. Quando os delegados dos países chegarem, os chefes de Estado já não estarão mais ocupando os hotéis. É para evitar problemas logísticos. Agora, essa cúpula é importante porque ali acontecem os anúncios. Tivemos o anúncio de um fundo criado pelo Brasil, e o discurso do presidente Lula falando sobre transição energética, desmatamento zero. Ele já tinha feito falas semelhantes antes, mas agora tem um peso diferente porque o Brasil está presidindo a COP. Isso permite transformar a fala do presidente em proposta concreta. Ele tem instrumento para isso. A Cúpula de Líderes tem vários desdobramentos. É um momento de sentir o “humor” dos países. Tem muito tema que vai gerar disputa: financiamento, transição. Tem muito país disposto a brigar. E a cúpula dá uma prévia de como será esse confronto quando a COP começar, no dia 10. E do ponto de vista dos temas que foram anunciados, como o fundo para florestas, como você avalia? São conquistas importantes ou mais protocolares? O fundo é uma coisa importante. Foram anunciados 5,5 bilhões de dólares. É um valor alto. E ainda há outros países que podem fazer doações. Então, é um resultado concreto. A outra questão foi o discurso do presidente Lula, que aponta direções para o comportamento do Brasil. Essa Cúpula de Líderes não gera resoluções. Os presidentes vêm com o discurso pronto e mostram até onde seus países estão dispostos a ir. É aí que se vê o grau de autorização que têm para tocar em certos assuntos. A negociação mesmo começa no dia 10. É lá que se define o que vale, o que entra como resolução, o que vira entendimento comum. Até lá, são anúncios e sinalizações. Você acompanha a pauta do clima há anos. Na sua avaliação, a COP é um instrumento capaz de tocar no X da questão? Ou é limitada demais? Não existe nenhuma possibilidade de a COP entregar tudo o que é necessário. As conferências “despioram” a situação. Seria muito pior se não existissem. Mas elas são só uma parte da agenda climática. O ano tem 52 semanas. A COP ocupa duas. As outras 50, os países têm que fazer. Não adianta chegar aqui, assinar acordo, apresentar planos maravilhosos, e depois voltar pra casa e não implementar nada. Ou pior: fazer o contrário do que prometeram. A COP estabelece o básico do básico. Não vai sair daqui a solução total. O que a gente precisa é que, ao voltarem para suas regiões, os países implementem os acordos. A COP é o único instrumento global que temos. Ela tirou o mundo de uma trajetória de aumento de 5 °C e colocou numa de menos de 3 °C. Isso ainda não é suficiente, mas mostra que tem algum efeito. E você acha que a presidência brasileira está conseguindo aproveitar esse papel para pautar discussões importantes? Como compara com outras COPs que acompanhou? A presidência brasileira é o melhor ativo que temos nesta COP. O cenário internacional é ruim: os Estados Unidos saíram do Acordo de Paris, a última conferência foi um desastre… É um ambiente desfavorável. Mas a presidência da COP30 é um grande acerto. Se temos alguma chance de que as coisas andem, essa chance vem da presidência. É muito diferente da anterior, que sabotou a conferência em vários momentos. Agora, temos uma situação oposta. A mobilização popular paralela aos eventos oficiais tem se tornado uma tônica no Brasil, como no G20 e no Brics. Qual o papel dos povos e da Cúpula dos Povos aqui em Belém? Dá pra comparar com outras COPs que você viu? A presidência pode fazer bastante coisa, mas não tudo. Ela pode colocar propostas na mesa, acelerar certos debates. Mas os países precisam concordar. O governo brasileiro não pode propor e aprovar sozinho. Se o país nem propõe, nem se discute. A vantagem aqui é que o Brasil vai propor. Fora da negociação formal, tem a outra COP – a dos movimentos populares. Essa já deu certo. Os movimentos estão cada vez mais dentro da agenda climática, entendendo que o agravamento da crise vai aumentar desigualdades sociais, gerar mais pobreza. Isso é fundamental, porque a agenda ambiental tem um limite. Se ficar só nas mãos das ONGs, ela perde força. A pauta climática tem um viés social enorme. Quem paga a conta são as populações marginalizadas. Os movimentos populares colocam pressão onde o ambientalismo institucional não consegue. Eles dão mobilização e legitimidade pública para a agenda. Belém é muito especial nesse sentido. Viemos de três COPs realizadas em países autocráticos ou com baixa democracia. Aqui é completamente diferente: muita diversidade, muita presença popular. Os movimentos estão ocupando a COP, fazendo manifestações, barqueata, marchas… Isso é difícil de ver nesse volume em qualquer outro lugar do mundo. Para a mobilização social, essa tende a ser uma COP única.
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