Lançado nesta quinta-feira (13), o livro “A linguagem das mulheres políticas: desmecanizar o pensamento é emancipar a fala pública”, da jornalista Juliana Romão, propõe uma reflexão sobre a relação entre linguagem e poder, atravessada pelo fato de que a fala pública foi criada por e para homens. Em entrevista ao É de Manhã, da Rádio Brasil de Fato, a autora destaca que essa relação impacta diretamente a trajetória das mulheres na política. Historicamente, a oratória e a expressão pública foram construídas como atributos masculinos, o que faz com que as mulheres, ao acessarem espaços de decisão, enfrentem um ambiente hostil e um “idioma” que não lhes foi ensinado. “Na Grécia antiga, na Roma, não só as mulheres não discursavam, como a fala pública, a expressão pública era algo que definia a masculinidade. O sistema foi construído para que os homens fossem vistos aptos a esse lugar. Quando as mulheres começam a acessar o poder, começam a poder romper fronteiras dos seus espaços mais domésticos, de inexpressividade, elas vivenciam um ambiente de muita hostilidade”, explica. Segundo Romão, o desafio central não é a ausência de fala, mas ser ouvida. “Não é sobre não ter voz. É sobre ter uma voz audível, uma voz que seja escutada com credibilidade”, reforça. Essa dificuldade de escuta e permanência explicita as desigualdades de gênero que ainda persistem nos cargos de liderança. “A flexão no feminino é pouco utilizada nos espaços porque é como se elas [as mulheres] fossem um anexo do masculino”, reflete. Para enfrentar essas barreiras, a entrevistada propõe o conceito de “desmecanizar o pensamento”, sugerindo que as mulheres busquem alternativas linguísticas para encontrar sua própria autenticidade, em vez de apenas imitar formatos masculinos. Juliana Romão conta que promove oficinas com esse objetivo: empoderar as mulheres ao lugar de protagonista do discurso público. Além disso, a jornalista destaca a importância de trabalhar a visão de mundo e as estratégias políticas de cada mulher, para que elas possam repercutir suas ideias de forma eficaz. “A gente precisa, de certa forma, aprender de novo o que a gente já sabe. Se existe um idioma próprio masculino desse espaço de poder, é um idioma que não é nosso. Então, a gente precisa encontrar alternativas linguísticas, não só para estarmos visíveis na linguagem, mas para que a gente consiga encontrar os elementos de expressão própria, para que as mulheres consigam se expressar com autenticidade, que elas consigam trazer toda a sua força de agenda, de discurso”, analisa. Para ouvir e assistir O É de Manhã vai ao ar de segunda a sexta-feira às 07h da manhã na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.
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