A AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) aprovou nesta quarta-feira (10) uma resolução exigindo que o Irã permita a verificação de seu estoque de urânio enriquecido e que permita o acesso total de inspetores do órgão independente da ONU a suas instalações nucleares. Texto semelhante no ano passado já pedia o retorno de inspeções, mas a verificação do inventário de urânio dos iranianos é uma novidade. A representação de Teerã nas Nações Unidas protestou contra a decisão, aprovada por 21 dos 35 membros do conselho executivo da AIEA. Outros 10 Estados se abstiveram, a Venezuela está com direito suspenso de voto por débito e 3 foram contra —Rússia, China e Níger. O Brasil foi um dos que se absteve, mantendo a posição do governo Lula (PT) de proximidade com a teocracia e de crítica a soluções de pressão no Oriente Médio. Proposta pelos Estados Unidos com apoio de Reino Unido, França e Alemanha, a resolução eleva ainda mais a tensão entre Washington e Teerã, que buscam uma solução diplomática para a crise no Oriente Médio —que, travada, tem deslizado para troca de ataques nos últimos dias. O programa nuclear iraniano está no centro da disputa com os EUA desde a década passada, quando em 2015 um acordo foi firmado para evitar que os aiatolás obtivessem a bomba atômica e limitassem seu enriquecimento de urânio, matéria-prima de armamentos nucleares, por 15 anos. Em seu primeiro mandato, Donald Trump deixou o arranjo. O Irã aos poucos voltar a enriquecer urânio e, em 2025, acumulava 441 kg do material a 60%, o suficiente para talvez até 15 bombas de baixo rendimento. De volta ao poder, Trump atacou instalações do programa nuclear em junho do ano passado, em apoio à guerra lançada então por Israel contra a teocracia. Apesar de dizer que havia obliterado as capacidades do rival, o republicano logo voltou a denunciá-las como ameaça. Assim, o programa estava no centro dos diversos e contraditórios “casus belli” apresentados por Trump quando voltou a atacar o Irã, desta vez com muito mais força e em companhia do Estado judeu. A guerra iniciada em 28 de fevereiro, paralisada em abril, está perigosamente próxima de recomeçar. No fim de semana, Israel e Irã trocaram fogo, e depois os EUA promoveram ataques após Teerã derrubar um helicóptero militar americano. Nesse contexto, a resolução da AIEA cria mais animosidade. O Irã diz que ela é tendenciosa e que o diretor-geral do órgão, Rafael Mariano Grossi, busca alinhamento com os EUA enquanto está em campanha para ser o secretário-geral da ONU. O argentino rejeita a insinuação e disse à Folha, na segunda (8), que apenas a volta de inspeções poderá garantir que o Irã não está procurando desenvolver a bomba. Resoluções da AIEA têm de ser obedecidas pelos Estados-membros da organização na teoria, mas na prática há pouco o que a agência possa fazer para demover os iranianos. Uma solução radical seria a suspensão de Teerã ou migrar o problema para o Conselho de Segurança da ONU. A primeira ideia parece difícil de avançar em meio a negociações, e a segunda esbarra nos vetos que China e Rússia têm no colegiado máximo da ONU —independente, a AIEA é ligada, mas não subordinada, às Nações Unidas. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo O jornalista viaja a convite da AIEA
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