Vinte e cinco anos depois dos atentados de 11 de Setembro, os muçulmanos são uma parcela maior e mais visível da sociedade americana e conquistaram espaço inédito na política. Ao mesmo tempo, a percepção dos americanos sobre o islã se tornou mais negativa e muito mais polarizada do que era poucos meses depois dos ataques. Pesquisa do Pew Research Center mostra que 51% dos adultos americanos afirmam hoje que o islamismo é mais propenso do que outras religiões a incentivar a violência. Em março de 2002, seis meses depois de membros da Al Qaeda sequestrarem quatro aviões e matarem quase 3.000 pessoas, eram 25%. A divisão partidária aumentou ainda mais. Hoje, 76% dos republicanos e independentes que se inclinam ao partido associam o islã mais do que outras religiões à violência, ante 29% entre democratas e eleitores próximos à legenda. Em 2002, eram 32% e 23%, respectivamente —uma diferença que passou de 9 para 47 pontos percentuais. “De um lado, houve um crescimento muito significativo da população muçulmana”, afirma à Folha Besheer Mohamed, pesquisador sênior do Pew e autor do levantamento. “Vimos muito crescimento, mas também uma discriminação bastante consistente.” Cerca de 5,5 milhões de muçulmanos vivem hoje nos Estados Unidos, mais que o dobro dos 2,4 milhões estimados em 2007. O número de mesquitas passou de cerca de 1.200 em 2000 para quase 2.800 em 2020. A marca dos atentados ainda aparece explicitamente nas pesquisas de opinião. Quando o Pew pediu a americanos com percepções negativas sobre muçulmanos e o islã que explicassem suas razões, alguns responderam “por causa do 11 de Setembro”, mencionaram as Torres Gêmeas ou citaram o medo de novos ataques terroristas. “Para algumas pessoas, isso é simplesmente o que vem primeiro à cabeça”, diz Mohamed. O pesquisador chama a atenção para uma aparente contradição: uma das percepções menos negativas sobre o islã registradas pelo Pew nos últimos 25 anos ocorreu justamente meses depois do maior atentado terrorista da história americana. Uma possível explicação, afirma, está na postura adotada pelo então presidente George W. Bush. Seis dias depois dos ataques, o republicano visitou o Centro Islâmico de Washington e declarou que “o rosto do terror não é a verdadeira fé do islã” e que “o islã é paz”. “Era um momento em que o presidente dos EUA e sua administração estavam colocando muito capital político em defender que o islã não era uma religião violenta”, diz Mohamed. Yasmin Moll, professora da Universidade de Michigan que estudava em Washington quando ocorreram os atentados, lembra de ver da sala de aula a fumaça que subia do Pentágono. Segundo ela, muçulmanos americanos compartilhavam o choque e o luto do restante do país, mas enfrentavam simultaneamente o medo de serem responsabilizados coletivamente. “Era uma posição realmente difícil. Você estava de luto e, ao mesmo tempo, com muito medo da violência que poderia vir contra você e sua comunidade como resultado daquilo”, afirma. Para Moll, há hoje uma diferença importante em relação àquele momento: parte da retórica política deixou de fazer a distinção que Bush buscava estabelecer entre extremistas e muçulmanos em geral. “Hoje você tem, nos níveis políticos mais altos, pessoas que não fazem uma distinção entre os terroristas, o islã e os muçulmanos comuns”, afirma Moll.O apelo político a sentimentos anti-islâmicos continua proeminente em certos círculos. Em março deste ano, o deputado republicano Chip Roy, do Texas, cofundador da bancada “América Livre da Sharia”, publicou no X a frase “Chega de muçulmanos…”. Em agosto, a deputada Nancy Mace, da Carolina do Sul, afirmou na mesma rede que “cada muçulmano que ocupa um cargo público na América é um cavalo de Troia e uma ameaça tanto à segurança nacional quanto à nossa república”. Em meio à campanha para as eleições de meio de mandato, comentários como estes também têm sido observados. O vice-presidente J. D. Vance chamou recentemente Abdul El-Sayed, democrata muçulmano candidato ao Senado por Michigan, de “muito, muito maligno” e o acusou de defender o terrorismo após declarações do candidato sobre um ataque a uma sinagoga nos arredores de Detroit. El-Sayed condenou o ataque, mas disse, ao falar do agressor, que “pessoas feridas ferem pessoas” e mencionou que parentes dele haviam morrido em um ataque israelense no Líbano. Depois, afirmou que sua declaração poderia ter sido mal interpretada e pediu desculpas. No Texas, o governador republicano Greg Abbott atacou um empreendimento liderado por muçulmanos e pediu investigação sobre o que descreveu como esforços para criar “tribunais de sharia”, acusação contestada pelos responsáveis pelo projeto e por grupos de direitos civis. A campanha de Abbott afirma que suas ações miram supostas ilegalidades, e não crenças religiosas. Discriminação persiste Os registros de crimes de ódio mostram outra herança do período. Incidentes anti-islâmicos registrados pelo FBI saltaram de 28 em 2000 para 481 em 2001. O número caiu depois e oscilou ao longo das décadas, mas nunca retornou ao patamar anterior aos ataques. “Depois de 2001, cai. Mas nunca volta a menos de 50”, diz Mohamed. “Havia um padrão bastante estável, e isso mudou esse padrão.” Hoje, 59% dos muçulmanos dizem que há “muita” discriminação contra eles nos EUA. Ao mesmo tempo, a comunidade alcançou uma representação política inexistente em 2001. Nova York, cidade que se tornou o principal símbolo dos atentados, tem hoje em Zohran Mamdani seu primeiro prefeito muçulmano. El-Sayed, por sua vez, pode se tornar o primeiro muçulmano eleito ao Senado americano. Para Moll, uma das consequências de longo prazo do 11 de Setembro foi justamente estimular uma nova geração de muçulmanos americanos a participar mais ativamente da vida pública. “Os ataques e depois a resposta a eles levaram os muçulmanos americanos a perceber que precisavam ser muito mais politicamente ativos, que tinham algo a contribuir para seus concidadãos como americanos e como muçulmanos”, afirma. O resultado, diz ela, é uma geração mais confortável em conciliar as duas identidades. “Estamos vendo uma expressão muito mais confiante da identidade muçulmana simplesmente como parte de ser americano.”
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