Sanae Takaichi, uma conservadora convicta que admira Margaret Thatcher (1925-2013) e no passado tocou em uma banda de heavy metal, tornou-se a primeira mulher a governar o Japão nesta terça-feira (21), mas analistas afirmam que sua ascensão não representa necessariamente uma vitória feminista. Aos 64 anos, Takaichi, que venceu neste mês a disputa pela liderança do governante Partido Liberal Democrata (PLD), consolidou-se como uma linha-dura focada em defesa e segurança econômica. Após selar um acordo de coalizão de última hora, Takaichi foi nomeada pelo Parlamento como a primeira mulher a chefiar o governo japonês —e a quinta pessoa a ocupar o cargo em apenas cinco anos. Ex-ministra da Segurança Econômica, ela tem sido uma crítica vocal da China e de seu fortalecimento militar na região Ásia-Pacífico. Takaichi também tem demonstrado apoio a Taiwan, afirmando durante uma visita em abril que era crucial reforçar a cooperação de segurança entre Taipé e Tóquio. Ela é frequentadora assídua do Santuário Yasukuni, que homenageia 14 condenados por crimes de guerra no período imperial, além de 2,5 milhões de soldados mortos. O local é visto por países asiáticos como um símbolo do passado militarista do Japão. No entanto, ela moderou sua retórica em relação à China e, na semana passada, se manteve afastada de um festival no santuário. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Dama de Ferro 2.0 Ex-baterista de uma banda de heavy metal universitária, Takaichi tem como ídolo político a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, que governou o Reino Unido de 1979 a 1990. Embora sua eleição represente “um avanço na participação das mulheres na política”, ela mostrou pouca disposição para desafiar normas patriarcais, disse à AFP o professor emérito da Universidade de Tóquio, Sadafumi Kawato, antes da votação parlamentar. As opiniões de Takaichi sobre gênero a colocam à direita de um já conservador PLD: ela se opõe à revisão de uma lei do século 19 que exige que casais compartilhem o mesmo sobrenome —regra que, na prática, faz com que a maioria das mulheres adote o nome do marido. Takaichi se casou duas vezes com o mesmo homem, um ex-parlamentar. Durante o primeiro casamento, ela adotou o sobrenome dele; no segundo, ele passou a usar o dela. A questão “provavelmente não será resolvida durante seu mandato”, afirmou Kawato. Durante sua campanha, contudo, Takaichi prometeu melhorar o equilíbrio de gênero em seu gabinete até atingir “níveis nórdicos”. O Japão ficou na 118ª posição entre 148 países no Relatório Global de Desigualdade de Gênero 2025 do Fórum Econômico Mundial, principalmente por causa da sub-representação de mulheres no governo — enquanto Islândia, Finlândia e Noruega ocuparam as três primeiras posições. Takaichi conta com apoio fervoroso na ala conservadora do PLD e entre os seguidores do ex-primeiro-ministro Shinzo Abe, assassinado em 2022. Ela defende afrouxamento monetário e grandes gastos fiscais, ecoando as políticas de seu mentor político conhecidas como “Abenomics”, que, se forem retomadas, podem causar turbulências nos mercados. A nova primeira-ministra também expressou forte preocupação com o crime e a influência econômica de estrangeiros no Japão, defendendo regras mais rígidas —uma medida que analistas interpretam como tentativa de reconquistar eleitores que migraram para o Sanseito, um novo partido nacionalista de discurso anti-imigração. Sobre tarifas, ela declarou neste mês que não hesitará em pressionar por renegociações com os Estados Unidos caso o acordo comercial seja implementado de maneira considerada prejudicial ou injusta para o Japão.
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