Menos de um mês depois do 11 de Setembro, Uday Menon resolveu atender ao apelo do então prefeito Rudolph Giuliani para que os nova-iorquinos voltassem à vida normal, saíssem para jantar, fossem ao teatro, gastassem dinheiro. Menon, consultor de tecnologia do banco JPMorgan, nascido na Índia e morador dos Estados Unidos desde 1986, telefonou para comprar dois ingressos para “The Producers”, sucesso cômico da Broadway. Como não havia lugares disponíveis, aceitou entradas para o musical “Kiss Me, Kate”. Durante a conversa, perguntou quantas fileiras separavam seus assentos do palco. A atendente interpretou as perguntas, o nome estrangeiro e o sotaque como sinais de uma possível ameaça de bomba e chamou a polícia. Na noite seguinte, quando Menon chegou ao teatro com a mulher, grávida de sete meses, foi cercado por quatro policiais e três agentes do FBI, jogado no chão e algemado. Segundo ele, 15 anos de vida nos EUA sem nem sequer uma multa de trânsito não haviam resistido a um sotaque. O episódio é um dos relatados no livro “Nova York – Antes e Depois do Atentado” (2002, Geração Editorial), fruto da extensa cobertura que fiz para a Folha daquela manhã de 11 de Setembro e seus desdobramentos nos meses seguintes. Nos Estados Unidos de então, bastava um telefonema para transformar um árabe ou muçulmano em suspeito de terrorismo, às vezes com consequências fatais. Foi o que aconteceu com Muhammad Rafiq Butt, paquistanês de 55 anos denunciado por um pastor que morava perto dele no Queens. Segundo relatos da época, o FBI descobriu em 24 horas que não havia indício de envolvimento com os ataques. Mesmo assim, Butt permaneceu preso por questões migratórias e morreu num centro de detenção em Nova Jersey, vítima de um ataque cardíaco, pouco mais de um mês depois. A islamofobia não foi um efeito colateral distante do 11 de Setembro. Surgiu quase imediatamente, alimentada pelo medo, pela ignorância e pela confusão deliberada entre uma religião seguida por cerca de 2 bilhões de pessoas e a ideologia fundamentalista da Al Qaeda, organização responsável pelos ataques executados pelos 19 sequestradores. Aos olhos de boa parte da população, Giuliani encarnava então a melhor resposta possível à catástrofe. Caminhava pelas ruas, informava os nova-iorquinos, confortava famílias e transmitia a sensação de que ainda havia governo em meio ao caos. Sua popularidade, até então em baixa, disparou. O prefeito de Nova York virou o “prefeito da América”. O contraste com o personagem atual dificilmente poderia ser maior. Giuliani tornou-se uma caricatura do líder que foi, subordinou sua biografia a Donald Trump e emprestou reputação e conhecimento jurídico à tentativa de reverter o resultado da eleição presidencial de 2020. Espalhou falsidades, foi expulso da Ordem dos Advogados de Nova York e foi condenado a indenizar duas funcionárias eleitorais que difamou. Agora Giuliani reaparece para sustentar que Zohran Mamdani, atual prefeito de Nova York, não deveria participar das cerimônias dos 25 anos do atentado. Mamdani nasceu em Uganda, é filho de indianos e foi criado nos Estados Unidos. Em novembro de 2025, tornou-se o primeiro muçulmano eleito para o cargo. Essa vitória teria sido difícil de imaginar naquele longínquo 2001 em que Uday Menon foi algemado por tentar assistir a um espetáculo e Muhammad Rafiq Butt foi mantido preso sem qualquer acusação relacionada ao terrorismo. É também a demonstração mais recente da extraordinária capacidade de Nova York de se reinventar. Isso não significa que a islamofobia tenha desaparecido. Sem qualquer base factual, o prefeito Mamdani já foi chamado de terrorista, acusado de querer impor a sharia, ameaçado de deportação e associado ao 11 de Setembro. Uma petição em andamento já reuniu mais de 110 mil assinaturas para exigir que o prefeito não compareça à cerimônia no Marco Zero, nesta sexta (11), como se a religião de Mamdani o tornasse incompatível com a memória das vítimas. Um episódio é emblemático de como um fato pode ser deformado até adquirir o sentido oposto. Mamdani pediu que uma das canetas usadas para assinar decretos relacionados à memória do 11 de Setembro fosse entregue ao chefe de sua assessoria jurídica, Ramzi Kassem. Passou-se a afirmar que o objeto fora dado ao “advogado de um dos terroristas” responsáveis pelos ataques. Não foi. Kassem nunca defendeu nenhum dos 19 sequestradores. Representou Ahmed al-Darbi, integrante da Al Qaeda que se declarou culpado por sua participação no planejamento de outro atentado, cometido contra um petroleiro francês no Iêmen em 2002. Al-Darbi havia sido preso em junho de 2002 e, portanto, já estava detido quando o atentado ocorreu, em outubro. A defesa judicial de um acusado, por mais repulsivo que seja o crime atribuído a ele, não significa endossar seus atos, mas preservar uma das garantias que distinguem o Estado de Direito do terrorismo que se pretende combater. Alvo de acusações de antissemitismo, que rejeita, e defensor de propostas controversas, como o congelamento de aluguéis, a criação de supermercados subsidiados e a tarifa zero no transporte público, Mamdani mantém elevada popularidade na cidade. Seu governo acaba de prestar um serviço importante à cidade, tornando públicas cerca de 170 mil páginas sobre a qualidade do ar depois da queda das torres, como parte de um acordo que encerrou duas longas disputas judiciais pelo acesso aos registros. Segundo a prefeitura, parlamentares e entidades que representam as vítimas, o material reforça as evidências de que autoridades dispunham de alertas sobre os riscos da poeira tóxica levantada naquela manhã enquanto estimulavam moradores, trabalhadores e empresas a retornar ao sul de Manhattan. Milhares de bombeiros, policiais, socorristas e civis, como os jornalistas que cobríamos in loco os eventos, foram expostos e muitos desenvolveram doenças relacionadas decorrentes deste contato. Vários morreram anos depois. O acervo também lança nova luz sobre a gestão Giuliani. O prefeito celebrado por liderar a reação imediata à tragédia comandou uma administração que não foi transparente sobre os perigos enfrentados por quem respirava o ar do Marco Zero. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Mamdani tinha nove anos no 11 de Setembro. Vivia em Manhattan, onde cursava o ensino fundamental, e acompanhou da própria cidade o ataque que transformaria Nova York. Um quarto de século depois, ocupa a cadeira do homem convertido em herói naquela manhã e traz a público documentos que ajudam a corrigir a narrativa produzida durante a gestão desse mesmo herói. A história raramente oferece simetrias tão perfeitas. No relato publicado pela Folha no dia seguinte aos ataques, eu dizia que o ar ao redor dos escombros estava tomado por pó branco e fumaça preta. Havia um desagradável cheiro doce de queimado que embrulhava o estômago, um odor que, cercado por corpos e destroços, remetia inevitavelmente à carne queimada. Vinte anos depois, ao refazer o percurso entre o East Village e o Marco Zero, outra Nova York se apresentou. O estado acabara de legalizar o uso recreativo da maconha, já oferecida sem licença em barracas na Union Square, ao lado de queijos de Vermont e mirtilos orgânicos. O cheiro da cidade era outro, inebriante. Hoje, passado um quarto de século do ataque, o cheiro mudou novamente. A cidade continua carregando seus mortos, seus doentes e as contradições daquele período, produzindo teorias conspiratórias, preconceito e oportunismo político. Mas foi capaz de eleger democraticamente um muçulmano apenas uma geração depois de um atentado cometido por terroristas da Al Qaeda que alegavam agir em nome do islã. O cheiro de Nova York, agora, é o da mudança. Dicas do Editor Receba no seu email a seleção de notícias feita pelo diretor de Redação da Folha, Sérgio Dávila
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