Em meio ao avanço da extrema direita no mundo, a 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos teve início nesta quinta-feira (26), em Porto Alegre, reunindo 4,3 mil participantes de todos os continentes para debater os desafios da democracia. O encontro conta com representantes de cerca de 40 países, 120 painelistas e 150 atividades autogestionadas, e segue até domingo (29) com a aprovação da Carta de Porto Alegre. O debate de abertura, realizado na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, contou com a participação da deputada Luciana Genro (Psol), dos deputados Pepe Vargas e Leonel Radde (PT), do vereador de Porto Alegre Pedro Ruas (Psol) e do embaixador palestino Marwan Jebril. Em fala durante o evento, Luciana Genro destacou a reorganização internacional da extrema direita nos últimos anos, citando lideranças como Donald Trump, Recep Tayyip Erdogan, Viktor Orbán, Benjamin Netanyahu e Jair Bolsonaro como expressões de um mesmo fenômeno político. “A tentativa de transformar o medo em poder, a desigualdade num projeto político e a violência num método de governo”, afirmou. A deputada ressaltou que esses governos têm em comum ataques às instituições democráticas, aos direitos sociais e a grupos historicamente vulnerabilizados, como mulheres e população LGBT+. Para ela, o antifascismo deve ser entendido como uma prática cotidiana. “A democracia não é um fato consumado, é uma construção diária. O antifascismo é a defesa ativa dessa construção.” Genro também lembrou episódios recentes no Brasil, como os ataques às urnas eletrônicas e os atos de ataques de 8 de janeiro de 2023, destacando o papel da desinformação. Segundo ela, é necessário fortalecer políticas públicas que protejam a democracia e enfrentem redes de ódio. “Não existe democracia sólida com fome, com desemprego, com racismo e com violência.” A parlamentar ainda enfatizou a necessidade de articulação internacional para enfrentar o avanço da extrema direita, incluindo a regulação de plataformas digitais. “As forças do ódio se articulam globalmente e nós também precisamos nos articular”, disse, defendendo transparência algorítmica e políticas conjuntas entre países. “A democracia não é um fato consumado, é uma construção diária. O antifascismo é a defesa ativa dessa construção”, destacou Luciana Genro | Crédito: Samir Oliveira / Fundação Lauro Campos e Marielle Franco Já Pepe Vargas chamou atenção para o caráter mais difuso do fascismo contemporâneo. Segundo ele, diferentemente de períodos históricos anteriores, o fenômeno hoje é “mais sutil, mais sorrateiro e menos perceptível”, o que dificulta seu enfrentamento. Vargas destacou o papel das redes sociais na disseminação de desinformação e discursos de ódio, além do uso das próprias estruturas democráticas para a propagação de ideias autoritárias. Para ele, a defesa da democracia formal é necessária, mas insuficiente. “O fascismo se aproveita das brechas da democracia formal”, afirmou. O parlamentar defendeu o aprofundamento do debate sobre democracia econômica, apontando a influência do sistema financeiro como um limite à ação de governos democráticos. “Vivemos uma espécie de ditadura do capital financeiro, que limita a capacidade de implementação de políticas públicas.” Segundo Vargas, a incapacidade de responder a demandas sociais abre espaço para o avanço de discursos autoritários. “Esse discurso se vale do ressentimento e de problemas não resolvidos para se estabelecer no imaginário da população”, avaliou. Representando a Câmara Municipal, Pedro Ruas destacou o simbolismo de Porto Alegre sediar o encontro, em alusão ao fato da capital ter sido o berço do Fórum Social Mundial. “É uma alegria e uma honra poder realizar a primeira conferência internacional antifascista na nossa cidade.” Ruas ressaltou ainda o papel dos parlamentos como espaços de maior pluralidade política. “Os parlamentos têm essa característica de representar todos, os que venceram, os que perderam e os que quase ganharam”, disse, ao dar as boas-vindas às delegações internacionais. A conferência teve início com uma mobilização nas ruas da capital gaúcha e reúne representantes de diferentes países em torno da construção de estratégias comuns de enfrentamento ao autoritarismo, defesa da democracia e fortalecimento da soberania dos povos. Conferência teve mais de 4 mil inscritos | Crédito: Débora Fogliato Embaixador palestino denuncia crise humanitária em Gaza Em entrevista ao Brasil de Fato, Sul21 e Telesur, o embaixador da Palestina no Brasil, Marwan Jebril, classificou como “muito mal” a situação na Faixa de Gaza, denunciando o bloqueio à ajuda humanitária e a continuidade da violência contra a população palestina. “A ajuda humanitária não entra. Alimentos, medicamentos, os mutilados, os enfermos palestinos não podem sair”, afirmou. Segundo ele, cerca de 2,1 milhões de pessoas vivem hoje sob confinamento extremo. “Continuam vivendo em um cárcere, que é o maior do mundo hoje em dia, onde não podem sair nem pode entrar ninguém.” O diplomata denunciou ainda o bloqueio à imprensa internacional. “Israel não permite a entrada de nenhum jornalista estrangeiro porque não quer testemunhas do que está acontecendo”, disse, acrescentando que centenas de profissionais palestinos já foram mortos. Embora haja a percepção de redução dos bombardeios, Jebril afirmou que a violência permanece cotidiana. “Não cessaram. Seguem havendo assassinatos seletivos todos os dias”, declarou. Segundo ele, os ataques não se restringem à Faixa de Gaza: “Também na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, todos os dias o exército israelense e colonos de assentamentos ilegais assassinam, roubam, queimam casas, terras e oliveiras”. “Tem que falar da ocupação, denunciá-la todos os dias e exigir o cumprimento do direito internacional. Sem isso, a situação não vai acabar nunca”, defende embaixador Marwan Jebril | Crédito: Nacho Lemus/Telesur O embaixador também destacou o agravamento da fome. “Há pessoas que morrem de fome”, afirmou. Mais de um milhão de palestinos vivem atualmente em tendas ou estruturas precárias, sem condições adequadas de moradia. Para Jebril, a recente escalada de conflitos envolvendo o Irã contribuiu para reduzir a visibilidade da situação palestina. “A atenção dos meios de comunicação mundiais se centrou no que está acontecendo no Irã e no sul do Líbano e se esqueceu um pouco de Gaza”, disse. “Mas ainda há mortos inocentes todos os dias.” “Laboratório de impunidade” Ao contextualizar historicamente o conflito, o diplomata afirmou que a população palestina vive sob ocupação desde 1948. “Muitas vezes se pensa que isso começou há poucos anos, mas não. Passamos desde 1948 por massacres, genocídios e guerras injustificadas”, declarou. Segundo ele, a solução passa pelo enfrentamento da raiz do problema. “Tem que falar da ocupação, denunciá-la todos os dias e exigir o cumprimento do direito internacional. Sem isso, a situação não vai acabar nunca.” O embaixador destacou que a liderança palestina já aceitou a solução de dois Estados, mas criticou a posição de Israel. “Israel não aceita nem sequer isso e cada dia nos tira mais território.” Ao comentar o papel do Brasil, Jebril elogiou a atuação do país nos fóruns internacionais e o acolhimento de refugiados palestinos. “O Brasil é uma referência na política exterior para muitos países latino-americanos. Agradecemos o apoio”, afirmou. Ele também avaliou que a Palestina se tornou “um laboratório de impunidade”, criticando a ausência de responsabilização internacional. “Israel mata, ocupa e não acontece absolutamente nada. O mundo construiu um sistema de direito internacional, mas ele não está sendo respeitado”, disse. Segundo o diplomata, interesses econômicos e geopolíticos influenciam conflitos recentes. “No final, são interesses econômicos, não direitos humanos nem democracia.” Sobre a reconstrução de Gaza, Jebril afirmou que ela é inviável nas condições atuais. Segundo ele, acordos previam a entrada diária de 500 caminhões de ajuda humanitária, mas apenas entre 40 e 50 têm conseguido acessar o território. “Com isso, 2 milhões de pessoas não podem viver.” Ele também criticou o que chamou de disputa por recursos naturais em conflitos internacionais. “O que está acontecendo com o Irã tem a ver com petróleo e riquezas, não com democracia”, afirmou. Ao falar sobre o papel da sociedade, o embaixador destacou a importância da mobilização internacional. “O mínimo que se pode fazer é seguir falando da Palestina, seguir denunciando o que está acontecendo”, disse, ressaltando o papel das redes sociais diante da desinformação. Por fim, Jebril defendeu a importância das instituições multilaterais. “As Nações Unidas e o direito internacional são as únicas ferramentas que temos. Não temos exército, não temos aviões. Temos o direito internacional e o apoio da sociedade civil”, afirmou. “O que pedimos é paz e justiça para a Palestina.” Filme sobre a Palestina será exibido durante conferência antifascista em Porto Alegre A realidade palestina em meio à guerra e à ocupação israelense será tema de uma sessão especial de cinema em Porto Alegre. O documentário Notas Sobre um Desterro, do diretor Gustavo Castro, será exibido neste sábado (28), às 10h15, na Sala Redenção, como parte da programação da 1ª Conferência Internacional Antifascista.Após a exibição, haverá debate com o diretor e com Ualid Rabah, da Federação Árabe Palestina do Brasil, com mediação de Kelly Demo Christ A programação segue no sábado, no salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), com atividades autogestionadas pela manhã e, às 14h, a mesa “A Resistência Palestina ao Genocídio e à Opressão do Estado de Israel”, reunindo lideranças políticas, diplomáticas e de movimentos sociais. Participam do debate Ualid Rabah, Breno Altman, Marwan Jebril, Ibrahim Alzeben, Thiago Ávila, Muna Muhammad Odeh e Mauren, do movimento BDS. Também integram a mesa como debatedores Sayid Marcos Tenório, Mariana Conti e Juliana de Souza. Confira aqui a programação completa.
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