Durante o 3º Fórum Acadêmico do Sul Global, em Xangai, a defesa da soberania da Venezuela se destacou como um tema central. Para Carlos Ron, pesquisador do Instituto Tricontinental de Investigação Social, a proteção do direito internacional e o respeito à autodeterminação venezuelana representam não apenas uma questão regional, mas um modelo de cooperação e solidariedade que pode guiar o Sul Global frente às ações hegemônicas de potências externas. “Poder falar livremente sobre esse tipo de assédio e, ao mesmo tempo, avançar em um conceito de colaboração entre países demonstra que a via da humanidade é esse caminho, não o da hostilidade ou da agressão”, destacou Ron. Ron participou do painel “Além da Guerra Fria: o sistema de Yalta, as Nações Unidas e a ordem internacional de pós-guerra”, que reuniu especialistas de diferentes continentes para discutir os desafios contemporâneos do ordenamento global. Inspirado pelos 80 anos da vitória na Guerra Mundial Antifascista, o encontro abordou a crise atual das instituições internacionais, o respeito à Carta das Nações Unidas e a necessidade de transcender velhas e novas guerras frias, promovendo um equilíbrio justo entre os interesses de todos os países. Durante o painel, Ron enfatizou a relevância de recuperar a história da Segunda Guerra Mundial sob uma perspectiva crítica, destacando que a hegemonia histórica do Ocidente moldou a interpretação dos conflitos e ignorou o papel central de países como a União Soviética e a China. O pesquisador também discutiu a atuação da Venezuela no Grupo de Amigos da Carta da ONU (Organização das Nações Unidas), um esforço coletivo que busca reafirmar o direito internacional frente às medidas coercitivas ilegais e bloqueios econômicos aplicados por potências externas. “Aqui há uma consciência — percebida por nós, venezuelanos — de respeito à autodeterminação da Venezuela, ao presidente Nicolás Maduro e aos esforços para fortalecer a soberania do país. A solidariedade internacional deixa claro que a agressão é ilegal e ilegítima, sem espaço no mundo de hoje”, acrescentou. Leia a entrevista completa: Brasil de Fato – De que forma o Fórum do Sul Global favorece a troca de experiências e a cooperação entre países de diferentes continentes? Carlos Ron – Estamos aqui a convite do Fórum Acadêmico do Sul Global, que é um encontro extremamente importante que reúne na China um grupo significativo de especialistas, acadêmicos e pesquisadores de todas as regiões do mundo. Há uma presença muito relevante de diferentes continentes, o que representa uma aproximação importante feita pela China — talvez o evento mais relevante de aproximação ao Sul Global realizado pela China. Neste fórum, são trocadas ideias, especialmente este ano, a partir da grande vitória — os 80 anos da grande vitória na guerra contra o fascismo. Mas hoje somos chamados a refletir sobre a importância, para o restante do Sul Global, dessa vitória e das lutas atuais contra o fascismo ou outras correntes de direita que imitam essa trajetória. Fomos convidados para um painel sobre o legado de Yalta, a Conferência de Yalta, que realmente estabelece as bases, após a Segunda Guerra Mundial, para a criação das Nações Unidas. Nesse painel, abordamos alguns temas que, para nós, têm sido importantes com base em nossa experiência. Quais são os maiores desafios que a ONU enfrenta atualmente para cumprir seu papel no respeito ao direito internacional? Em primeiro lugar, destacamos a grande crise atual no sistema das Nações Unidas. É uma crise evidente quando a ONU não é capaz, por exemplo, de resolver o genocídio na Palestina ou, pelo menos, de contê-lo; também não consegue frear as medidas coercitivas e ilegais contra países como Venezuela, Cuba ou cerca de 30% do mundo que estão sob esse regime de medidas ilegais. Também não conseguiu fazer nada efetivamente para deter os ataques que os Estados Unidos vêm realizando nas costas do Caribe. A reflexão gira em torno da importância de se voltar ao direito internacional. Falamos da experiência promovida pela Venezuela com o Grupo de Amigos da Carta das Nações Unidas. Nesse grupo, não está apenas a Venezuela, mas também a China, a Rússia e outros países que reiteram a importância do direito internacional. O problema das Nações Unidas não são os princípios contidos na Carta, mas sim que esses princípios não são respeitados por alguns países que se consideram acima das leis internacionais e que, além disso, agem como forma de pressão econômica porque financiam a ONU e sua Secretaria, e pretendem que se faça o que eles querem, não o que deve ser feito dentro do direito internacional e da Carta. Também refletimos sobre o princípio histórico na América Latina, que é o ‘equilíbrio do universo’ proposto por Simón Bolívar. Hoje fala-se muito em multipolaridade, mas acreditamos que deve-se ir além. O equilíbrio do universo proposto por Bolívar era que houvesse equilíbrio entre os interesses das grandes potências, não que uma dominasse a outra, nem zonas exclusivas, nem uma divisão do mundo entre potências. O problema de Yalta é que dividiu tecnicamente o mundo entre países sob a esfera de influência dos Estados Unidos e do capitalismo, e aqueles sob a esfera de influência da União Soviética. Mas o mundo de hoje não funciona mais por esferas de influência; o mundo precisa alcançar um equilíbrio entre interesses e um equilíbrio justo para todos em comum. Como o fórum evidencia a solidariedade internacional e o respeito à autodeterminação de países sob pressão externa? Neste fórum, repetiu-se muitas vezes a solidariedade dos povos do mundo com a Venezuela, com Cuba, com a Nicarágua e com os países sob cerco. Acredito que estar em um lugar onde se possa falar livremente sobre esse tipo de cerco, e sobretudo sobre um conceito diferente de como conduzir as relações internacionais —um conceito em que possamos avançar na cooperação, na colaboração complementar entre países— demonstra que o caminho da humanidade é esse, não o caminho da hostilidade ou da agressão. Acredito que aqui existe uma consciência —percebemos isso nós, como venezuelanos— de respeito à autodeterminação da Venezuela, de respeito ao presidente Nicolás Maduro e aos esforços que ele tem feito para levar adiante a revolução bolivariana e fortalecer a soberania da Venezuela. Houve muita solidariedade, muitas manifestações de apoio de todas as partes do mundo, e foi possível tornar evidente que essa agressão é ilegal, ilegítima e que não tem lugar no mundo de hoje.
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