A líder interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, e a principal opositora do regime, María Corina Machado, trocaram acusações nesta quarta-feira (28), em meio a uma crescente pressão de Washington sobre Caracas e à incerteza sobre o futuro do país sul-americano. A vencedora do Prêmio Nobel da Paz se reuniu com o chefe da diplomacia americana, Marco Rubio, em Washington. “Acho que ninguém confia em Delcy Rodríguez”, disse María Corina após o encontro, que ocorreu de portas fechadas, acrescentando que “acabaram as opções” para a líder interina. Questionada se aceitaria dividir provisoriamente o poder com Delcy para garantir a transição, María Corina respondeu: “Estamos dispostos e, de fato, trabalhando para facilitar uma transição real. Esta não é uma transição na qual as máfias permanecem no poder e, no fim, os cidadãos acabam sofrendo.” A reunião ocorreu logo após Rubio ter participado de uma audiência no Senado em que foi questionado sobre a situação da Venezuela. O secretário de Estado afirmou que o país terá eleições, mas que o cenário exige tempo e cautela. Ele também disse que o governo Donald Trump está monitorando de perto o desempenho das autoridades interinas e não descarta a possibilidade do uso de força novamente. Delcy, que vem adotando uma posição morde-e-assopra em relação aos Estados Unidos, não demorou em reagir. Sem citar María Corina nominalmente, a líder interina instou os que pretendem “perpetuar dano e agressão” contra a Venezuela a ficarem em Washington. “Aqui não vão entrar para prejudicar a paz e a tranquilidade”, disse durante uma cerimônia em Caracas em que a Forças Armadas juraram lealdade e subordinação a ela. O ato reuniu cerca de 3.200 militares, que desfilaram diante da líder interina. “Que venham todos os que amem de verdade a Venezuela, mas os que pretendem perpetuar o dano e a agressão contra o povo da Venezuela, que fiquem em Washington”, afirmou. “Estamos dispostos ao entendimento, estamos dispostos ao diálogo, mas não estamos dispostos a outra agressão.” Delcy assumiu a liderança do país após a captura do ditador Nicolás Maduro em 3 de janeiro. Ela foi apoiada pelo governo Trump por ser vista como uma figura capaz de conduzir um processo de estabilização da economia venezuelana, iniciando uma aproximação entre Caracas e Washington. “Aqui ninguém se rendeu, aqui estivemos em combate”, disse na cerimônia. O ato foi simbólico, já que os militares já haviam reconhecido Delcy como a nova líder pouco depois da queda de Maduro —as Forças Armadas têm sido o sustentáculo da chamada Revolução Bolivariana, iniciada por Hugo Chávez. Delcy reestruturou as lideranças militares, com a nomeação de generais para 12 dos 28 comandos regionais em todo o país, e designou um ex-chefe do serviço de inteligência, o Sebin, como novo chefe de sua guarda presidencial. Na cerimônia, os militares entregaram a espada do herói da Independência, Simón Bolívar, a Delcy. “Juramos lealdade e subordinação absolutas”, disse o ministro da Defesa, Vladimir Padrino. O ato também reuniu membros das forças policiais, chefiadas pelo poderoso ministro do Interior, Diosdado Cabello. Desde que chegou ao poder, Delcy também mudou ministros e impulsionou leis para incentivar o investimento estrangeiro no setor petrolífero venezuelano, chave na agenda de Trump para a Venezuela. A liderança interina dela estende-se, em princípio, por no máximo seis meses, prazo previsto para a convocação de eleições. No entanto, o filho de Maduro que seguiu para a política, Nicolás Ernesto Maduro Guerra, conhecido como Nicolasito, descartou esse cenário por ora. Ele argumenta que o seu pai foi sequestrado, não capturado, e que, portanto, a norma constitucional não se aplica. Rubio afirmou perante o Senado que a mudança de regime “não vai acontecer de um dia para o outro”. “Mas acho que estamos alcançando avanços bons e decentes”, disse. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo
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