Nunca antes na história desse país militares de alta patente haviam sido condenados. Nesse sentido, o ano de 2025 quebrou uma tradição de mais de dois séculos de impunidade. Não seria então oportunidade perfeita para aproveitarmos os ventos históricos e reformar nossas Forças Armadas, democratizá-las e trazê-las mais para perto da população que eles devem servir?O Brasil de Fato fez essa pergunta à cientista política e analista militar Ana Penido, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Afinal, além do chefe da organização criminosa que tentava permanecer no poder tendo perdido nas urnas, Jair Bolsonaro, que é capitão reformado e recebeu pena de 27 anos e três meses de prisão, foram condenados também os generais de quatro estrelas do Exército Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira e Walter Braga Netto, e o almirante Almir Garnier Santos, que vão cumprir pena por cinco crimes, entre eles golpe de Estado e organização criminosa, que variam entre 19 e 27 anos de prisão. Já o tenente-coronel Mauro Cid não teve seu processo remitido à Justiça Militar, já que, como resultado do acordo de colaboração premiada, sua pena não superou os dois anos e será cumprida em regime aberto. “Dentro das Forças Armadas, foi mais grave trair colegas do que tentar o Golpe de Estado”, explica Penido. Leia abaixo a entrevista, na qual a analista explica como os processos foram vistos pela caserna e os desafios de melhorar nossas Forças Armadas:Brasil de Fato: É possível aproveitar esse ano histórico, em que a gente colocou generais de quatro estrelas atrás das grades, para reformar as Forças Armadas e torná-las mais democráticas?Ana Penido: Há muito debate sobre isso e sim, é possível termos forças armadas afeitas aos valores da democracia de maneira geral, mas, ainda assim, ela continua sendo uma instituição regida pela hierarquia e pela disciplina. Mas a dinâmica de democracia interna numa instituição militar não é democrática por excelência. Alguém manda e o outro obedece e, no máximo, você constrói mecanismos de reclamação.Mas ainda assim é possível torná-las mais próximas da população, respeitando e garantindo a democracia, em vez de golpes de Estado?As forças armadas, em particular o Exército, de certa maneira expressam o que é a população, os problemas que temos na estrutura de país. Por exemplo, a gente vai ver um Alto Comando todo branco e o recrutamento obrigatório, daqueles meninos que ficam lá um ano só, predominantemente negro de periferia.Por outro lado, temos um problema que diz respeita à diversidade ideológica dentro das forças armadas que passa por valores da democracia, leituras de mercado, valores sociais, de maneira geral. Não é só democracia, mas até questões comportamentais, como a relação com mulheres, LGBTs etc.Isso sim é um problema, porque todos os estudos identificam que eles estão politicamente à direita. Não temos tantos estudos metodologicamente estruturados sobre o comportamento ideológico das Forças Armadas, apenas alguns poucos sobre o Exército.Há mais pesquisa sobre as polícias, que indicam essa lógica, posições mais vinculadas à direita, não necessariamente à extrema direita, que hoje ostenta um posicionamento antidemocrático por excelência, mas à essa direita meio “gelatinosa”.Isso é um problema democrático, porque o bom para um país é ter forças que correspondam à diversidade do seu povo, não só nos seus problemas, como o racismo estrutural que perpassa o Brasil e também as forças.Você vê a possibilidade de mudança?Não a curto prazo. Não vejo nenhuma iniciativa contundente por parte do Executivo ou do Legislativo nesse sentido. Nada, nada. Acho, inclusive, que estamos perdendo uma super oportunidade histórica.Não é questão de punir o X ou Y porque isso é tarefa do judiciário e acho que ele está fazendo bem seu trabalho, tanto que vimos generais de quatro estrelas que historicamente não são punidos pela Justiça militar, sendo punidos por civis. Mas essas iniciativas não têm sido acompanhadas pelo Executivo e o Legislativo.Acho que temos sim uma oportunidade para mudanças, não reativas ou punitivas em função do que foi o governo Bolsonaro. São mudanças necessárias em função do que vem sendo os últimos 25 anos desde o final da ditadura militar e as demandas que a geopolítica internacional tem colocado, que é explosão de conflito em toda esquina, como a questão da Venezuela.O que as condenações desses generais causaram dentro das Forças Armadas?Acredito que gerou mais indignação dentro das Forças Amadas foram casos de militares que foram estimularam divisões internas, como, por exemplo, quando vazaram comentários do Braga Neto falando para atacar a família de brigadeiro. Ou quando circularam memes chamando generais de quatro estrelas de melancias [verdes por fora, mas vermelhos, ou comunistas, por dentro]. Essas coisas geraram bafafá.Porque uma coisa é trair a democracia ou tentar um golpe de Estado, outra é trair a sua instituição. Quando um militar entrega outro militar, isso repercute muito mal internamente.Nesse sentido, as punições são vistas como castigo não necessariamente à intervenção política, mas ao método usado. Trair um colega é considerado pior do que trair a democracia.Ter tentando Golpe de Estado não foi considerado tão grave?Pois é, é menos grave do que você entregar colega ou você falar para atacar a família de um colega, que é pior ainda. E a gente viu isso nos depoimentos, né? Por isso que existem percepções distintas.Por exemplo, o general Heleno, que sempre foi muito bem quisto dentro da tropa. Ele realmente tem uma carreira muito diferenciada, é a pura expressão do sucesso da carreira, aos olhos dos militares.O Cid é a mesma coisa, que foi ridicularizado por guardar joias em casa, mas ser indicado para atuar junto ao presidente é um cargo de enorme prestígio. Ele estava sendo premiado por ter sido considerado o melhor quadro disponível para a tarefa. Isso mostra o tamanho do nosso problema, nossa dificuldade em lidar com esse mundo, interferir nele.Falta vontade política?Em parte, mas acho que vontade política é até mais fácil. Qual o cálculo que o Lula faz? Até antes do governo Bolsonaro, as Forças Armadas eram consideradas uma das instituições de maior confiança da população.O povo gosta das Forças Armadas, mas isso foi decaindo no governo Bolsonaro e chegou nos níveis mais baixos logo depois da tentativa de golpe. Isso aconteceu por dois motivos: eles perderam prestígio na direita, que achava que eles iam dar o golpe, mas eles não deram o suficiente. E diante da esquerda que já não esperava grande coisa dos militares.O povão também passou a conhecer um conjunto de privilégios que os militares já tinham antes do governo Bolsonaro, mas que, quando eles vão para o governo, estes passam a ter visibilidade. Eles não passaram a tomar whisky ou comprar viagra no governo Bolsonaro, isso acontecia antes e ninguém ficava sabendo.Isso impacta a opinião pública e a vontade política está muito relacionada com a opinião pública. Se as pessoas achassem que as Forças Armadas estavam funcionando, dificilmente comprariam o custo político de fazer a mudança. O mais importante a ser feito é mudar a opinião pública. E isso passa também por definir o papel dos militares, não ficar usando eles para tudo.Militar tem que ser profissional, voltado para as políticas de Defesa. Pesquisas mostram que a população gosta deles não por serem militares, mas por fazerem obras de infraestrutura. O que é um problema, porque isso é função do Estado.Ou por terem bom desempenho esportivo. Por que o programa Forças Armadas no Esporte está no Ministério da Defesa e não no Ministério do Esporte?Existem problemas estruturais que vão muito além do que aconteceu em 8 de janeiro de 2023 e que historicamente o Brasil não enfrentou. Acho que as mudanças que precisam ser feitas devem levar em conta o cenário doméstico, internacional e repactuarmos a noção de que para o que servem as Forças Armadas, como elas podem se relacionar com a sociedade.Você defende que os militares expressem publicamente suas opiniões?Defendo que os militares expressem a diversidade da sociedade brasileira. É natural que essas pessoas tenham opinião. Quem tem posição à direita expressa isso livremente. Alimentam um certo militarismo na sociedade que acha chique, que vai comprar roupa camuflada e não sei mais o quê. Por outro lado, opiniões mais à esquerda são perseguidas.Meu ponto de vista é que manifestações públicas tem que ser vedadas para quem está na ativa. Para os reservistas, ok.
Ultimas Noticias
- Taperoá e o manual do caos administrativo: secretário, carro oficial e um bafômetro que virou inimigo público
- SELIC NAS ALTURAS: o que isso tem a ver com o preço do picolé em Valença?
- Prefeitura de Valença lança plataforma ElaProtegida para acolhimento de mulheres vítimas de violência
- Valença inicia distribuição do pescado da Semana Santa 2026
- Ministério Público fará campanha contra assédio eleitoral neste ano
- Anvisa proíbe venda de fórmula infantil contaminada por toxina
- Obras avançam em São Benedito e reforçam desenvolvimento na zona rural de Nilo Peçanha
- Representante de empresa odontológica de São Paulo visita Laboratório de Prótese Dentária Marcos Venâncio em Valença

