Um terminal de gás natural no Egito foi atacado nesta quarta-feira (29) por drones, que atingiram dois navios, inclusive um dos Estados Unidos. As embarcações e instalações do porto de Damietta pegaram fogo e a operação no local foi suspensa, mas os incêndios foram controlados e não houve vítimas. Ninguém assumiu inicialmente a autoria da ação. Dois dias atrás, Damietta apareceu em um programa da rede estatal iraniana Irib em um mapa de alvos para retaliação devido ao ataque da Ucrânia a um navio de Teerã no mar Cáspio, incidente que disparou o temor de uma ampliação do conflito. Do ponto de vista regional, ela já ocorreu. O ataque veio no dia seguinte à retomada dos ataques entre Irã e EUA, que haviam sido suspensos por uma pausa qualificada pelo presidente Donald Trump de abertura diplomática para “conversas amigáveis”. Teerã negou tal disposição, e na noite de terça (28) voltou a atacar bases americanas na região e ao menos três petroleiros no contestado estreito de Hormuz. Já os EUA se uniram de forma inédita à Arábia Saudita para atacar rebeldes pró-Irã no Iraque, uma escalada nova na crise, e Trump prometeu um ataque duro à teocracia. Segundo a Fox News, o americano sou expressões de baixo calão para definir seu curso de ação: “Vamos arrebentar eles para c…”. Com a tensão, o preço do petróleo, que vinha caindo desde o fim de semana, subiu mais de 6% nesta quarta. As explosões em Damietta reabrem o temor de alastramento da guerra. O Mediterrâneo viu ação de forma pontual desde que EUA e Israel atacaram o Irã em 28 de fevereiro, e, em resposta, drones e mísseis de Teerã voaram contra instalações da Otan em Chipre e na Turquia. Mas o incidente desta terça é inédito, e a distância mais curta para bases de lançamento de drones no Líbano faz as suspeitas recaírem sobre o Hezbollah, aliado do Irã, que não se manifestou. Em relação à suspeita de retaliação a Kiev, na véspera os chanceleres ucraniano e iraniano haviam concordado em evitar escalada, ainda que em termos duros. Damietta seria um alvo, segundo a TV Irib, por servital a interesses de aliados da Ucrânia. Foram atingidos, além de depósitos no porto, os navios Energos Winter e Gaslog Salem. O primeiro tem bandeira das Ilhas Marshall, território associado aos EUA, e é operado por empresas americanas e egípcias. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Já o segundo tem bandeira de Bermuda, mas é controlado por gregos. Ambos funcionam como estação de armazenamento para regaseificação junto ao porto, que recebe o gás liquefeito vindo de outros países e o prepara para ser vendido na forma gasosa no Egito. Segundo a empresa de segurança marítima britânica Ambrey, drones foram vistos atingindo Damietta e as embarcações. O porto é altamente estratégico, não só pela presença maciça de investimento americano no negócio da regaseificação. Ele está junto ao canal de Suez, via que liga o Mediterrâneo ao mar Vermelho, sendo a rota principal do comércio entre a Europa e a Ásia. No local há um centro de distribuição em que vários dos navios gigantes vindos, por exemplo, da China descarregam seus contêineres, que são então levados por embarcações menores para portos europeus e no norte da África. Com isso, mais um foco de problema marítimo se insinua na guerra. O primeiro foi Hormuz, por onde passavam 20% do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo antes do conflito. O estreito foi virtualmente fechado pelo Irã. O cessar-fogo de 17 de junho com os EUA previa 60 dias de trânsito livre, mas Teerã buscou assegurar sua posição de força. O país quer a instalação de uma rota de duas mãos na região, uma em suas águas territoriais e outra, controlada em parceria com Omã, que controla a outra margem de Hormuz. Os iranianos pretendem cobrar pela carga que por lá passar, e os omanis buscam uma saída alternativa. Nenhuma das opções, contudo, agrada aos EUA, e depois que a teocracia mostrou força atacando petroleiros, Trump cancelou a trégua, em 8 de junho. De lá para cá, os ataques voltaram, de forma ora comedida, ora escalatória. Os eventos desde terça mostram que há pouca certeza sobre o que irá acontecer. Por Hormuz, na terça passaram 12 navios, ante 140 pré-conflito, segundo o monitor MarineTraffic. Por lá está valendo também um bloqueio naval americano aos portos do Irã que, segundo os EUA, já desviou até quarta 20 navios, parou 2 e desabilitou outros 2 com tiros. O segundo gargalo marítimo afetado pela guerra é o estreito de Bab el-Mandeb, que liga o sul do mar Vermelho ao oceano Índico, dando continuidade ao corredor que passa pelo porto atacado nesta quarta. Lá, os rebeldes pró-Irã houthis do Iêmen reagiram à renovação das hostilidades na sua guerra civil contra o governo desalojado do oeste do país atacando os fiadores dos rivais, a Arábia Saudita. Decretaram um embargo a terminais petrolíferos de Riad no mar Vermelho, mas, com efeito restrito até porque o trânsito lá é mais variado: 41 navios transitaram na terça pelo estreito, ante uma média de cerca de 70 usualmente.
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