SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Uma estudante acusa sete colegas de tê-la estuprado na Universidade Cornell, nos Estados Unidos, e de oferecerem seu corpo para violação sexual em um grupo de alunos no WhatsApp. O caso teria acontecido em 2024, mas as acusações vieram à tona em setembro de 2026, quando ela apresentou uma ação civil. O processo questiona a atuação da universidade e da polícia na apuração do caso e as penas que teriam sido impostas aos agressores. O caso foi revelado pelo jornal The Cornell Sun, produzido por estudantes da universidade, e se tornou um escândalo nacional nos EUA. Cornell, localizada em Ithaca, no estado de Nova York, integra a Ivy League, grupo de oito universidades de elite dos EUA. Como em outras instituições americanas, parte da vida social dos estudantes acontece nas fraternidades, organizações estudantis tradicionalmente masculinas, e nas sororidades, suas equivalentes femininas. Identificadas frequentemente por letras do alfabeto grego, as fraternidades promovem festas, atividades sociais e redes de relacionamento. Algumas mantêm casas próprias, onde integrantes moram e organizam eventos. Essas organizações também são alvo de críticas por episódios de abuso de álcool, trotes violentos e violência sexual. Segundo a ação civil, a estudante, cuja identidade foi ocultada, tinha 20 anos quando foi violentada, em outubro de 2024. Ela acusa sete integrantes da fraternidade Chi Phi de drogá-la e estuprá-la por cerca de sete horas em seu alojamento universitário. A jovem afirma que foi coagida a consumir bebidas alcoólicas e drogas, incluindo uma substância que acredita ser cetamina, e que estava incapacitada de consentir com as relações sexuais. Além dos sete estudantes, a ação responsabiliza a universidade e a fraternidade por supostas falhas na prevenção e na resposta à violência. Imagens de um grupo de WhatsApp anexadas ao processo e publicadas pelo Cornell Sun mostram um dos alunos enviando a mensagem: “free pussy in alum pu”, algo como “buceta livre no alum [uma suíte da casa], venham”. Outros homens respondem com emojis e mensagens como “eu amo a Chi Phi”. A investigação inicial, porém, não resultou em acusações. Em novembro de 2024, a estudante prestou depoimento à polícia universitária, e o caso foi encaminhado ao promotor do condado de Tompkins, Matthew Van Houten. O Ministério Público decidiu não apresentar denúncia criminal. Segundo o promotor, o depoimento formal da jovem descrevia o consumo de drogas e as relações sexuais como voluntárias e consensuais. Van Houten afirmou que a decisão foi tomada com base nas informações disponíveis à época, antes da apresentação das alegações da ação civil. A versão judicial da estudante, contudo, é diferente. Ela afirma que estava extremamente intoxicada e que não tinha condições de consentir. A ação também apresenta as mensagens trocadas entre integrantes da fraternidade e questiona a condução da investigação interna da universidade. Em 28 de setembro de 2026, o promotor anunciou a reabertura do inquérito e a intenção de levar o caso a um grande júri, instância que avalia se há provas suficientes para formalizar acusações criminais. A universidade também foi alvo de questionamentos. Cornell conduziu uma investigação disciplinar interna e aplicou sanções a alguns dos estudantes. Em comunicado divulgado em 29 de setembro, o presidente da instituição, Michael Kotlikoff, informou que dois foram expulsos, dois receberam suspensões de pelo menos dois semestres, um já havia se formado antes da punição, e outros dois foram considerados não responsáveis por violência sexual. A fraternidade Chi Phi teve sua unidade de Cornell banida em 2024. A universidade afirma ter seguido seus procedimentos e diz que responderá às acusações na Justiça. A ação civil, por sua vez, questiona a proporcionalidade das sanções e a transparência do processo disciplinar. A governadora de Nova York, Kathy Hochul, defendeu uma investigação independente sobre a resposta da universidade. O caso também reacendeu o debate sobre a violência sexual nos campi americanos e a responsabilidade das instituições de ensino na proteção de estudantes. Nos Estados Unidos, o Título 9, legislação federal que proíbe discriminação sexual em instituições educacionais que recebem recursos federais, estabelece obrigações para o tratamento de denúncias. Os processos disciplinares universitários, entretanto, são independentes das investigações criminais. O governo de Donald Trump revogou, na segunda-feira (28), as regras de 2024 do Título 9, que tinham sido estabelecidas pela gestão Joe Biden. Com isso, fica restabelecida a norma de 2020, que não reconhece explicitamente a identidade de gênero e a orientação sexual como categorias protegidas. Na prática, estudantes trans perdem essas garantias específicas. As novas regras também restringem a definição de assédio sexual e alteram os procedimentos de investigação, permitindo que representantes dos acusados questionem diretamente as vítimas em audiências presenciais. A regulamentação limita ainda a responsabilidade das instituições a casos ocorridos em atividades sob seu controle, nos EUA. A mudança formaliza uma política que já estava em vigor desde janeiro de 2025, após decisões judiciais derrubarem as normas de Biden. Leia Também: Justiça suspende execução de mulher no Tennessee pouco antes da injeção letal
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