As Forças Armadas de Israel anunciaram a abertura de investigações internas sobre a morte da menina palestina Hind Rajab, em janeiro de 2024, e as de 15 socorristas e trabalhadores humanitários, em março de 2025. O anúncio foi feito nesta quarta-feira (19), após investigações preliminares do próprio Exército. A iniciativa, entretanto, não foi recebida com tanto entusiasmo por grupos de direitos humanos, que afirmam que esse tipo de investigação raramente resulta em condenações. O Exército informou que as decisões de abrir as investigações ocorreram após análises feitas por seu Mecanismo de Apuração e Avaliação de Fatos. Ao todo, a instituição divulgou decisões sobre cinco incidentes envolvendo a morte de palestinos. Entre eles está o caso de sete funcionários da organização World Central Kitchen (WCK), mortos em um ataque aéreo de Israel no centro de Gaza em abril de 2024. A entidade fornece refeições em áreas de conflito e em situações de crises humanitárias e climáticas em diferentes países do mundo. Segundo os militares, não existe “suspeita razoável de conduta criminosa” que justifique uma investigação criminal nesse episódio. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo As Forças Armadas afirmaram que analisam incidentes excepcionais ocorridos durante operações militares, em cumprimento ao direito internacional e à legislação israelense. Organizações de direitos humanos de Israel, porém, dizem que investigações contra soldados por mortes de palestinos raramente resultam em condenações. Dan Owen, pesquisador da organização de direitos humanos Yesh Din, afirmou que, na última década, apenas uma “proporção minúscula” das investigações resultou em acusações formais. Segundo ele, a crescente pressão política “desencoraja ainda mais as autoridades israelenses responsáveis pela aplicação da lei a responsabilizar os culpados, mesmo quando existem provas claras”. De acordo com a organização, quando há condenações, as penas costumam ser “absurdamente brandas” diante da gravidade dos crimes. O caso de Hind Rajab repercutiu internacionalmente e inspirou o longa “A Voz de Hind Rajab”, que concorreu ao Oscar de melhor filme internacional neste ano. A menina de cinco anos foi morta em Gaza enquanto aguardava o resgate da Cruz Vermelha. Durante uma ofensiva das forças de Israel, ela ficou presa dentro de um carro durante horas, pedindo por telefone a paramédicos palestinos que enviassem ajuda, enquanto sua tia, seu tio e três primos já estavam mortos. Uma equipe de resgate foi enviada ao local, mas o contato com ela e com os dois paramédicos que foram buscá-la foi perdido. Doze dias depois, os corpos de Hind, de seus familiares e dos dois socorristas foram encontrados. Em entrevista à agência de notícias Reuters nesta quarta, a avó da menina, que também se chama Hind Rajab, disse não confiar no Judiciário de Israel. “É claro que, se Deus quiser, eles chegarão a uma decisão correta. Mas exigimos que isso seja parte de um processo internacional”, afirmou. “Todo mundo sabia que a Hind era uma criança inocente, e ela pediu ajuda, mas ninguém ajudou. Os soldados israelenses mataram ela de forma proposital.” Em março de 2025, os corpos de 15 trabalhadores de emergência e ajuda humanitária do Crescente Vermelho, da Defesa Civil Palestina e das Nações Unidas foram encontrados enterrados na areia, no sul de Gaza, informaram autoridades da ONU à época. O chefe da ajuda humanitária da ONU, Tom Fletcher, escreveu em uma publicação no X que os corpos estavam enterrados perto de “veículos destruídos e claramente identificados”. “Eles foram mortos pelas forças israelenses enquanto tentavam salvar vidas. Exigimos respostas e justiça”, publicou. As forças israelenses afirmam que nunca tiveram civis como alvo deliberado durante a guerra. Segundo Israel, o grupo terrorista Hamas coloca a vida dessas pessoas em risco ao utilizá-las como escudo. O Exército israelense não comentou imediatamente, na época, o episódio. Em declaração posterior à Reuters, afirmou que havia facilitado a retirada dos corpos da área, que descreveu como uma zona de combate ativa. O Exército não respondeu especificamente às perguntas sobre por que os corpos foram encontrados sob a areia ou por que os veículos estavam destruídos. “Mais importante do que abrir a investigação é que isso deveria ter sido evitado. O emblema do Crescente Vermelho Palestino é protegido pelas leis internacionais, e a equipe médica deve ser protegida, especialmente enquanto desempenha suas funções e realiza trabalho humanitário”, disse o diretor de mídia da organização, Eid Aziz, à Reuters. Munther Abed, um paramédico palestino que afirmou estar presente no incidente em que 15 de seus colegas foram mortos, disse à Reuters que espera “uma justiça de verdade”.
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