O Livro “Brasil da maioria – 25 anos de classe C“, de Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, conta como uma parcela grande de brasileiros de classe D e E ascenderam socialmente nos primeiros governos Lula. E mostra como a estagnação econômica deste grupo acabou se tornando terreno fértil para o avanço da extrema direita.Ao BdF Entrevista, o autor do livro destaca que a classe C representa 53% da população brasileira e traduz a verdadeira identidade demográfica do país, sendo composta em sua maioria por jovens, negros e mulheres que chefiam seus lares.Ao analisar a trajetória desta camada social, marcada por um período de forte ascensão no início dos anos 2000, após a estabilização econômica por conta do Plano Real, seguido por um ciclo de estagnação econômica, o pesquisador aponta que esse segmento moldou novas dinâmicas sociais. “A classe C é como é a cara do Brasil”, sintetiza.Meirelles lembra do momento em que a flutuação de preços por conta do descontrole inflacionário era uma rotina. “A gente começou a ter um terreno fértil para a criação da classe C a partir do Plano Real. E aí é bem legal as pessoas entenderem o que era o Brasil com hiperinflação. O que era o sujeito não conseguir pensar a longo prazo? Longo prazo era o final de semana. O que era uma pessoa pegar o salário e sair correndo para ir ao supermercado, driblar a remarcadora de preço”, aponta, em referência à mudança de preços dos produtos em questão de horas, como acontecia no início dos anos 1990.Outro ponto abordado por Meirelles diz respeito às transformações no mercado de trabalho e ao crescimento das ocupações autônomas e do empreendedorismo. Segundo o especialista, encarar o trabalho por aplicativos ou o pequeno negócio apenas pelo aspecto da precarização é reducionista, pois ignora a busca dos trabalhadores por autonomia e flexibilidade na gestão de suas rotinas.“Esse cara quer ser dono do próprio tempo. Esse cara é um trabalhador autônomo, esse cara é um empreendedor”, explica.No campo político, o autor defende que a classe C adota uma postura pragmática, avaliando governantes pela entrega e qualidade dos serviços públicos essenciais, em vez de aderir a questões ideológicas. “A gente insiste em discutir política como se fosse campeonato de torcida, quando, para a maioria, a política é prestação de serviço”, argumenta.Meirelles defende que os governantes busquem mais proximidade com a sociedade e propõe a adoção de ferramentas digitais de participação cidadã e controle social. “A escuta radical é o caminho para reconectar governantes e governados”, o que permitiria que a população fiscalizasse e avaliasse diretamente a gestão pública.Confira a entrevista completa: Para ouvir e assistirO BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
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